sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

MÁQUINAS FALANTES

A GUERRA DO VINIL 

(em um passado nem tão distante  -  e nem tão distinto)


do livro
TALKING MACHINES - Some aspects of the early history of the gramophone
de V. K. CHEW (Londres, 1967)


p.34

O mercado de discos estava mesmo fadado a ser dominado pelo disco preto de goma-laca, com corte de agulha e 10 ou 12 polegadas de diâmetro, gravado dos dois lados. A Gramophone Company apresentou um disco de 10 polegadas em 1901 e um de 12 polegadas em 1903, e o primeiro disco a ser gravado em ambos os lados foi o Odeon, importado da Alemanha em 1904. Mas ainda haveria muita experimentação nas cores, materiais, tipo de corte e tamanho antes da padronização ser efetuada. Assim, o "inquebrável" disco vermelho Nicole, introduzido em 1903, foi um fracasso comercial, como também o foi o disco branco com corte fonográfico da Neophone, que trazia uma camada de celulóide sobre a base de papel comprimido, e sobreviveu, com a reorganização periódica da empresa fabricante, de 1904 a 1908. A firma Pathé, quando abandonou o cilindro pelo disco em 1906, também usava o corte fono; a gravação começava no meio em vez de na borda do disco, e era tocada com uma agulha de safira em vez de aço. Nas mãos da Pathé o corte fono foi tecnicamente bem-sucedido e a firma não introduziu um disco com corte de agulha até 1921.
Ao primeiro disco importado da Alemanha, o Odeon, seguiram o Beka, Favorite, Homophone, Lyraphone e outros. A competição entre eles forçou a queda do preço de um disco de 10 polegadas com dois lados de 4 shillings para 2 shillings e 6 pence em 1909, quando a Columbia entrou na batalha tomando o controle da Rena Company e lançando discos de dois lados a esse preço. A Gramophone Company parecia estar à parte da competição; seus preços permaneceram altos e ela não lançou discos de dupla face até 1912, mas sua subsidiária British Zonophone Company, tendo se fundido com a Twin Records em 1911, adentrou e eventualmente dominou a guerra de preços, o que produziu uma crise no setor de 1911 a 1914, enquanto uma enxurrada de novos discos alemães inundava o mercado e o preço do disco de 10 polegadas despencava até 10,5 pence.
A indústria das "máquinas falantes" estava bem servida na época, como sua contraparte hoje, pela imprensa especializada. As publicações Talking Machine News (de 1903), Phonotrader and Recorder (1906) e Sound Wave (1907)  formavam laços valiosos entre fabricantes, comerciantes e o grande público. Nelas, a integridade editorial era teimosamente mantida, por vezes contra forte pressão de anunciantes gananciosos. Uma crítica musical séria focada em discos de gramofone apareceu regularmente pela primeira vez em 1906 na alemã Phonographische Zeitschrift; na Inglaterra não atingiu o alto nível acadêmico e de estilo que agora tomamos por certo em publicações sérias sobre o gramofone até a criação de The Gramophone em 1923. Críticas técnicas, hoje exercidas por engenheiros habilidosos e com o dom da popularização, apareciam largamente em colunas de correspondência e a única qualificação necessária para participar delas parece ter sido o entusiasmo.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

noise

domingo, 13 de dezembro de 2015

onde está o riso?

Nas breves alusões a respeito do constructo cômico, a Poética e a Retórica aristotélicas afirmam que são matérias de sustentação do cômico aquelas de natureza infamante. Porém advertem que nem tudo que é ignóbil deve servir ao riso. Dependendo de sua extração e natureza, as matérias baixas servem mais ao horror do que à graça. “A Comédia é Imitação dos Piores; não segundo todo gênero de vício, contudo, ainda que o Ridículo tenha origem no Feio. Pois o Ridículo é, por certa convenção, erro e feiúra sem dor e com o mínimo prejuízo; e a face deformada, distorcida sem dor, surge imediatamente como ridícula.” Contudo, a dificuldade de se estabelecer o que é exatamente “uma deformidade sem dor” levou o próprio Aristóteles, na sua Ética em Nicômaco, a colocar em dúvida se se pode mesmo definir o que seja o ridículo, especialmente porque muitos riem de coisas, na verdade, dolorosas. A resposta a si próprio veio no mesmo livro, na alusão a que algo pode ser doloroso para alguns sem que seja para outros, e o que determina isto é a disposição dos ânimos em cada audiência.

Geraldo Noel Arantes
CAMPOS DE CARVALHO: INÉDITOS, DISPERSOS E RENEGADOS
Dissertação de mestrado em Teoria e História Literária - Unicamp, 2004.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

plunderphonics




Plunderphonics, ou audio-pirataria como uma prerrogativa composicional, foi um termo criado pelo artista John Oswald para seus experimentos sonoros em que desmembrava canções pop, trilhas de cinema e balés famosos utilizando gavadores e técnicas de reprodução alterada para criar novos sons "com a fonte ainda reconhecível".


Para saber mais, leia o artigo Do Dada ao Meme, no Chupa Manga Zine nº1

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

sempre em frente

pelo retrovisor do motorista
é possível enxergar, além da pista,
as vidas passadas dos passageiros
as idas e vindas da espécie humana
o meteoro e a era glacial
a extinção dos dinossauros

tudo isso o motorista vê, mas continua
seguindo o itinerário

terça-feira, 13 de outubro de 2015

mini tour




         o chapa mamba faz uma mini turnê entre 11 e 15 de novembro,
         datas no evento: facebook.com/events/434346410094604/

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

arte e utopia

Cada escritor encontra no outro o seu complemento e a indicação de um horizonte não alcançado ou pretendido. Suas obras constituem como que círculos que se tangenciam, interpenetram, repelem. Cada obra tem na outra uma possibilidade abandonada. Cada uma é o que é porque não quis ou não pôde ser o que a outra é. A identidade se marca pela diferença. Le Livre é o que não há. Ele seria a reunião de todos os pontos máximos alcançados pelas maiores obras. Tais ápices somente são possíveis dentro do princípio organizatório de cada uma das obras, e este não é idêntico em todas. Pelo contrário, ele é basicamente diferenciado. A opção por um caminho significa o abandono de outros. Como em um jogo de xadrês [sic] ou em uma cristalização amorosa, um encaminhamento em um lance determina outros encaminhamentos posteriores, e, em geral, se torna irrecuperável, dentro desse espaço, a opção por outros caminhos.

Flávio R. Kothe, Fundamentos da Teoria Literária vol. I (Ed. UnB, 2002)

terça-feira, 4 de agosto de 2015

chupa manga zine #1



15 x 17 cm
48 páginas em pólen soft, preto e branco
tiragem 300 exemplares
impresso no inverno de 2015


COMPRE AQUI

quarta-feira, 8 de julho de 2015

cinema


O MONSTRO DA LAGOA NEGRA (dir. Jack Arnold, 1954)

por Rubensvaldo Filho


Novamente o imperialismo vem dar as caras para tomar o que é nosso. A comitiva de cientistas americanos metidos a exploradores — e como —, invade a selva amazônica, em convênio com o Instituto de Biologia Marítima, apenas para causar o maior impacto possível ao meio ambiente. Uma escavação irregular — certamente em busca de minérios preciosos — desenterra o fóssil de uma espécie desconhecida, o possível elo perdido e ancestral anfíbio do ser humano. Movidos pelo prestígio que a descoberta causaria na comunidade científica do primeiro mundo, os americanos montam expedição para caçar seu último exemplar vivo. Contratam uma embarcação de pesca sem licença, cujo suspeito capitão se diverte em tocar o apito para espantar os animais ribeirinhos, e navegam rio adentro até o riquíssimo ecossistema onde vivem, além do espécime em questão, centenas de outras espécies não-classificadas pela ciência. Adentrando o habitat intocado, todos os guias indígenas são mortos de forma patética pelo ameaçado (e, por isso, ameaçador) "monstro", enquanto aos cientistas resta mergulhar na lagoa negra colhendo amostras geológicas e depredando a flora nativa. Ao se depararem com o triste animal, decidem envenenar a água — e consequentemente todos os peixes do local — para capturá-lo como prêmio. Enquanto isso, a mocinha contribui com o desastre ambiental atirando as bitucas de seus cigarros do barco. Após destruirem um dique de castores que represava o lago, os invasores perseguem o monstro até o seu ninho, alvejando-o em seguida com tiros de espingarda e levando, enfim, a raríssima espécie à extinção.




    Acima, o anfíbio antropomorfo ajuda a doutora Lawrence a se levantar
    Abaixo, os gananciosos cientistas capturam o espécime envenenado
    No fim, "o monstro da lagoa negra", uma espécie agora extinta





domingo, 10 de maio de 2015

a geração google não sabe
usar o google
é o que diz
a nova pesquisa do google

mas, por outro lado o google sabe
usar a geração google

e muito bem

segunda-feira, 20 de abril de 2015

o artista e a cidade

O artista e a cidade. Pois o artista, diferente do artesão concebido por Platão, não orienta seu trabalho em uma área limitada e definida, segundo o princípio inflexível da divisão do trabalho e do especialismo intransigente que inspira a cidade ideal. Mas, semelhante nisso a Proteo, muda constantemente de fazer, inclusive de ser, até o ponto em que pode definir-se como um indivíduo que pretende ser e fazer todas as coisas. Em razão dessa pretensão sugere o filósofo (Sócrates) sua expulsão da cidade, já que constitui um núcleo permanente de subversão na urbe em que cada indivíduo se acha submetido ao império de uma só atividade, de um só papel social, sem que lhe seja possível modificar essa fatalidade que o condena.
(...)

Apenas em uma cidade, não ideal como a platônica, mas real como a renascentista florentina, pôde-se pensar essa síntese em termos reais, de maneira que nela o artista passara a constituir a figura mesma do homem, o qual, semelhante a Proteo, aparece na filosofia da época como aquele ser que carece de identidade e essência definida. E que por essa razão pode construir, fazer, produzir consigo mesmo qualquer identidade. Na filosofia de Pico della Mirandola aparece implicitamente reintegrado o Artista na Cidade, alcançando-se assim uma síntese que em Platão havia sido cumprida em termos teóricos mas não em termos práticos.

Essa síntese tripla de Eros e Poíesis, de Alma e Cidade, de Arte e Sociedade, sugere assim uma ordem social em que todo homem é artista, e em consequência sujeito erótico e produtor ao mesmo tempo, sem que seja necessário então coroar essa ordem mediante uma superestrutura política e filosófica, desvinculada da base erótico-produtiva.

Quando essa síntese tripla se quebra aparece a esfera anímica desvinculada da esfera social, de maneira que Eros não se prolonga em produção nenhuma, de maneira que Poíesis não acha em Eros nem na Beleza seu princípio e seu fundamento. Surge então o Desejo, conceito moderno que implica essa prévia divisão traçada entre o subjetivo e o objetivo. Desejo o qual, ao não achar-se mediado com a Produção, perde também seu vínculo com o objeto que almeja, Bem ou Beleza. Essa perda faz com que o objeto que lhe é próprio apareça então como eternamente ausente e separado. Apenas mediante a dissolução do sujeito desejante - através da Morte ou da Loucura - resulta possível o reencontro do desejo com seu objeto. Correlativamente surge a Produção, conceito moderno que constitui o objetivo traduzido do Desejo. Essa Produção, esse Trabalho, ao perder seu vínculo com o fundamento, com o princípio, chame-se esse Bem ou Beleza, sofre destino análogo ao Desejo: se constitui em esfera autônoma e separada, sem vínculo com o mundo anímico do sujeito desejante. Em consequência, se torna uma esfera fundada em sua própria inanidade: produção que busca apenas a produção, precipitadamente e sem norte, achando-se nisto, igual ao Desejo, como último horizonte de sua busca também a Morte: horizonte de destruição e desperdício ao qual conduz a produção ensimesmada.

Eugenio Trías
El Artista y la Ciudad, 1976.

domingo, 18 de janeiro de 2015

via burocrática

A essa altura, já estará claro para o leitor que um carimbo com números e brasões tem o poder de oficializar qualquer coisa. Sendo datado, melhor ainda. Conforme o tempo que se tenha esperado na fila por ele, além, é claro, da quantidade de etapas percorridas no caminho e do montante de papelada preenchida — no máximo de vias possível —, valerá mais quanto mais difícil for obtê-lo.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

cocada preta




novo single do próximo disco do chapa mamba, a ser lançado muito em breve.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

MMXIV

BREVE RETROSPECTIVA DE 2014

Apesar de cansativo, 2014 foi um ano produtivo. Pude me dedicar um pouco mais à música (cumprindo a resolução do ano anterior), e lancei três discos do Chapa Mamba: o primeiro, auto-intitulado; Le Lab de Lux Sessions, um single gravado em Brasília; e Ipsilone, um split em vinil com a Treli Feli Repi; além de gravar o próximo disco cheio, Banda Forra, que sai em Janeiro. Criei o meu próprio selo, Chupa Manga Recs.; terminei a estréia do projeto Quadrúpede Orquestra, Esculpindo Vento, com meu amigo Mallogro; e lancei alguns trabalhos experimentais: One Band Man e Música de Computador vol.5.

Editei o livro Erre Balada do meu chapa Biu; o FIM de Rafael Sica; dois volumes do Claviculário; ganhamos um HQ Mix pelo Friquinique, do ano anterior; inauguramos a nova sede da Beleléu; publiquei as tiras do Recruta Zero para o Capitão América e seus Amigos; a série Cabeceira, para a Rocco; algumas tiras para a Revista da Cultura; terminei o único exemplar do livro A Humanidade É Um Bêbado Chato Que Não Vai Embora, em carimbo de tipos móveis; e voltei a escrever algumas coisas que se encaminham para um novo projeto.

Muita coisa por vir ainda, mas estamos aí.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

banda forra // teaser

Em janeiro tem disco novo do Chapa Mamba, assista o teaser!




Lançamento em Janeiro / 2015

Chupa Manga Records
chupamanga.bandcamp.com

Desenho | Fabio Zimbres
Animação | Stêvz


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

até o ano que vem

Plantado na fila do supermercado, meus pés começam a doer após algumas horas. A lista é curta, mas feriado de páscoa é assim mesmo, todo mundo comemorando, bacalhau em alta, chocolate por todos os lados. No segundo dia, já desidratado e com câimbras pelo corpo, me vejo forçado a consumir os iogurtes de banana do refrigerador ao lado. Envio uma carta para a patroa, avisando que irei chegar atrasado para a ceia de natal, e que cuide bem dos nossos filhos. Ela promete me visitar diariamente, mas isso não dura mais de algumas semanas. Já com meu endereço atualizado para "fila do caixa vinte e seis", seus cartões-postais começam a rarear e, por fim, cessam após três longos meses. Fico sabendo, depois, que se casou novamente e mudou para o interior. Ao completar o primeiro ano, tive de me ausentar, temporariamente, para trocar alguns itens que já estavam vencidos. Cinco anos depois, chega, afinal, a minha vez. A moça do caixa começa a empacotar as coisas, com muita eficiência, quando me dou conta de que esqueci as batatas.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

ipsilone

IPSILONE é o nome do split Treli Feli Repi / Chapa Mamba que vamos lançar agora em dezembro. São 3 músicas inéditas de cada banda, em um vinil 7 polegadas lindão, prensado na Polysom.
Esse é o primeiro lançamento em vinil do meu selo Chupa Manga Recs., criado esse ano.

Não é por nada não, mas dá um belo presente de natal. E já está a venda aqui!

O lançamento no Rio é dia 19/12, às 19h, no Escritório (Rua da Constituição, 64 - Centro)





Aproveitando, nosso primeiro disco foi citado nessas listas de melhores do ano:

As melhores músicas de 2014 - Amplificador / O Globo
Melhores álbuns de estréia - Amplificador / O Globo
14 Melhores discos nacionais do ano - O Inimigo / MTV


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Sendo Humano - Um Guia Para Visitantes

Cap.2 - Sobrevivência

O DINHEIRO

O dinheiro movimenta o mundo, disso não há dúvida. Sua força, aparentemente, suplanta a dos movimentos de rotação e translação da Terra combinados, colocando-o, virtualmente, no centro do nosso sistema planetário, quiçá universal. Comparado, no axioma popular, como equivalente ao próprio tempo, poderia mesmo tratar-se da quarta ou quinta dimensão, o que o posiciona mais no campo da física quântica do que da própria economia ou da fabricação de relógios.

Pode ser medido através de diversos e distintos mecanismos como a bolsa de valores, os índices de inflação e o preço do barril de petróleo, embora na prática seja de fácil compreensão: o dinheiro é uma espécie em extinção. Tende a desaparecer em questão de segundos de dentro do bolso das calças e da carteira do cidadão comum. Ou melhor, teletransporta-se em velocidade vertiginosa para os cofres das instituições bancárias multinacionais e para contas na Suíça ou nas Ilhas Caimã. Possui, está claro, propriedades magnéticas: muito dinheiro atrai mais ainda. Além disso, conclui-se que a bufunfa goste igualmente de esquiar nos alpes e de praias paradisíacas. Já de colchões velhos nem tanto.

Daí o velho e infalível ditado: “dinheiro não traz felicidade, manda trazer”.
Em todo caso, o fato é que sem dinheiro não se vive neste planeta. Então como consegui-lo? 
É o que veremos no capítulo a seguir.




A LOTERIA

Não é incomum, nos centros urbanos, observar a formação de aglomerações ordenadas sobre uma reta ou curva imaginária em convergência a certos estabelecimentos com guichês numerados, a maioria ostentando símbolos enigmáticos como trevos de quatro folhas ou ferraduras na fachada. A densidade destas aglomerações, invariavelmente, será diretamente proporcional ao número de zeros acumulados no letreiro da fachada, e o objetivo mais provável sempre o mesmo: fazer uma fezinha  embora nos dias iniciais de cada mês costume se somar aos boletos das contas de luz, água, telefone e crediário, dentre outras. Não à toa, mencionamos a estatística aplicada como fator fundamental para a compreensão do fenômeno observado em questão: contrariando a lógica pragmática, em uma extrapolação mesmo da mais otimista das probabilidades, os seres humanos apostarão, religiosamente, no jogo de azar institucionalizado e em suas variações  ora marginalizadas, ora elitizadas , seja através do jogo do bicho, do caça-níqueis, da sinuca, da porrinha1, dos cavalos, da roleta, da raspadinha, da rinha de galo ou do bolão da firma, dentre inúmeros outros exemplos, na tentativa ilusória de “se dar bem” e mandar o patrão2 definitivamente à merda. Nunca se sabe, vai que rola.

1. Por mais banal que possa parecer, e de fato o seja, a porrinha ainda causa reações coléricas que podem descambar para a morte aleatória, especialmente de não envolvidos, como se pôde notar pelo inexplicável caso ocorrido esta semana, em plena terça-feira,  no centro. Na tentativa de esfaquear o oponente, um mau perdedor foi impedido por um justiceiro anônimo que, não contente em interferir nos negócios alheios, terminou baleando um cliente do bar ao lado, que não tinha nada a ver com a história. O seu alvo, a salvo graças a essa “distração”, tenta fugir pulando do nono andar do prédio em que mora, sai ileso e é finalmente preso. O baleado morre, o esfaqueado vive e o justiceiro some. Fim.

2. Ver CHEFE.






O CRIME

Não demorou muito para um dos primeiros representantes da espécie humana constatar que poderia simplesmente tomar à força o que desejava de seu semelhante, instituindo assim o crime como prática ordinária já na pré-civilização. Na verdade, como é sempre o caso das vanguardas, o ato é criado antes de sua classificação. Levando isso em consideração, o crime como algo reprovável passa a existir no momento em que a primeira vítima resolveu ir à forra e tomar de volta o que era seu em primeiro lugar. Em plena evolução, e com assustadoras capacidades adaptativas, o crime tem se aprimorado e ramificado em categorias inesgotáveis desde então, com maior ou menor grau de sucesso.

Do humilde ladrão de galinhas ao batedor de carteiras, passando pelos colarinhos brancos, ilusionistas e tele-evangelistas, a lista se estende além da capacidade espacial deste guia, mas está claro que o crime pode ocasionalmente compensar. Que o digam os políticos de alto ou médio escalão, a portas fechadas, no pé do ouvido dos assessores, com um copo de uísque numa mão e uma maleta recheada na outra, não sem antes checar debaixo da mesa e atrás das cortinas do gabinete por grampos ou escutas telefônicas, naturalmente.

É claro que o crime nem sempre será utilizado com o intuito de se obter dinheiro mas, de qualquer forma, caso a fuga não seja bem sucedida, o resultado poderá ser o mesmo: a prisão.




A PRISÃO

ver ANEXO 1




A HERANÇA

Para se evitar aborrecimentos, o mais recomendável mesmo é já nascer rico. Como todo mundo sabe, dinheiro não dá em árvores, a não ser nas de tipo genealógico raríssimo e literalmente bem afortunadas.

Para a maior parcela da população, resta o trabalho.




O TRABALHO

Dizer que o trabalho dignifica o homem é, no mínimo, uma proposição incompleta. Seria preciso, antes de mais nada, definir de que homem estamos falando. Afinal, abre-se margem para interpretar que o autor do trabalho não seria, necessariamente, o dignificado, mas um segundo sujeito que se aproveitaria do esforço do anterior. E isso seria simplesmente inconcebível, não é mesmo? Provavelmente a vaguidade do termo  digno de quê? ㅡ acentue, propositalmente, o intuito manipulador do lema em questão. Ao não definir o sujeito de nenhuma das ações, cria-se uma polarização óbvia entre ambas: o trabalhador e o dignificado poderão nem sempre ser a mesma pessoa. Ao afirmar, ainda, que o trabalho (de quem?) teria o poder de, por si só, dignificar alguém, ignora-se a parcela de responsabilidade humana nesse processo, afinal só se é dignificado em relação a si mesmo ou a outrem, como forma de reconhecimento ou merecimento dentro de um sistema de códigos pré-estabelecido. Seria mais correto afirmar, pura e simplesmente: o trabalho paga o homem, ou ainda: o trabalho dá dinheiro ao homem. Ou deveria. Alguns mais, outros menos, é bem verdade, mas divagamos.

Caso você não se encaixe em alguma das categorias anteriores, certamente precisará de um. É de praxe começar com uma consulta minuciosa aos classificados do jornal do vizinho, de lupa e caneta em punho, tendo-se o cuidado de observar os requerimentos necessários a cada cargo e não deixando-se distrair pelos prognósticos horoscópicos do dia. Após algumas chamadas telefônicas, certamente se terá marcado uma entrevista, onde você demonstrará todas as suas capacidades e aptidões, obviamente muito acima das dos demais candidatos e de acordo com a posição disponível, seja ela qual for, e por mais desconfortável que pareça.




O (A) CHEFE

Caso a posição disponível não seja a de chefe, você certamente terá que lidar com um. O chefe é alguém que entende e sabe conciliar as necessidades da empresa com as dos funcionários, e coordena a linda coreografia dos cronogramas, prazos, metas e desafios que serão facilmente superados por todos, juntos, e depois remuneradas de forma generosa. 




ALTERNATIVAS

Visando a praticidade deste guia, providenciamos na lista a seguir algumas profissões de prestígio comprovado, para facilitar a escolha dos leitores e não despertar suspeitas:

Astronauta
Padeiro
Cientista Espacial
Advogado Criminalista
Médico Legista
Cargos Públicos (ver CRIME)
Dentista (ver INDO AO DENTISTA)
Auxiliar de Almoxarifado
Desenhista Industrial
Psicanalista
Alfaiate
Playboy (ver HERANÇA)


Tentamos generalizar, na medida do possível, mas o mercado de trabalho é mais amplo do que se imagina. O ser humano expandiu os seus conhecimentos e distrações a tal nível, que não seria exagero afirmar ser possível, hoje, inventar a sua própria profissão em questão de segundos.

Acima de tudo, lembre-se de que você sempre poderá se tornar o mais novo rockstar de fama internacional ou escritor de best-sellers renomado, tudo depende da sua insistência (e de alguns outros pequenos fatores sem importância em conjunção com a órbita solar e uns poucos cálculos elementares).


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ANEXO 1

Caso termine no xadrez, você provavelmente falhou no objetivo deste guia. Contrate um bom advogado, caso não seja um.




quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

lavando louça

Lavar a louça é uma tarefa doméstica corriqueira, a qual os seres humanos postergam na medida do possível e do limite de armazenamento da pia. Quando a situação torna-se enfim insustentável, é hora de arregaçar as mangas e enfrentar as pilhas de panelas, talheres, copos e potinhos de plástico engordurados com os restos das refeições anteriores e novas formas de vida em desenvolvimento e plena evolução. Certamente deve-se menos à diversidade gastronômica do que a esse momento, o advento dos restaurantes e tele-entregas. Porém, uma vez iniciado o procedimento, até que não é tão ruim. É possível observar o aguçamento das capacidades abstrativas, o que vem a calhar no desenvolvimento e prática de assobio solo. Deve ser isso o que chamam musa, ou inspiração: uma pilha de louça suja. Em devaneios profundos, gerados pela fricção espumante entre a bucha e os utensílios, tem-se relatado sistematicamente a criação de sinfonias, operetas e antologias completas de poesia altamente inspiradas, embora de qualidade questionável. Mas nem tudo são flores. Finda a sua execução, as travessas pingando sobre o escorredor, resta ao nobre cidadão pedir uma pizza pelo telefone e resignar-se com relutância, adiando o futuro inevitável da prataria reluzente.


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

complexo de épico*


Na noite da última quinta-feira, a sociedade carioca pôde deleitar-se com mais um espetáculo de altíssimo nível nos átrios do glorioso Theatro Municipal. E ponha alto nisso, como pude constatar empoleirado nos fundos da galeria. Se passei incólume à vertigem bamboleante da vista, o mesmo não se pode dizer do inevitável torcicolo provocado pelo ângulo agudo em declínio. É estranho que se reservem assentos tão desconfortáveis para a tribuna de honra, mas talvez não tenham me reconhecido. No convite constava, erroneamente, o nome de um tal candidato a vereador, mas o equívoco parece ter se estendido a todos os presentes. Achei mesmo curioso que se estivessem distribuindo as entradas na porta do teatro, justo enquanto eu passava, coincidentemente, de fraque e cartola, a caminho da lotérica.

Mais uma vez, o majestoso palco do Municipal esteve repleto de boa música. A sinfônica, tão logo pôs-se em seus lugares, tratou logo de improvisar uma curiosa peça dissonante enquanto o regente não chegava. A obra, de extrema vanguarda, causou-me profunda comoção intelectual especialmente pela inserção da pulsante ala de celulares em uníssono, estabelecendo de vez o vínculo muitas vezes subestimado da música erudita com a pós-modernidade. Finda a precisa execução, mal pude me conter e saudei a platéia com um bravo! inevitável. A beleza da música contemporânea, sem dúvida, está na sua imprevisibilidade; no uso dos timbres, texturas e contexto espacial como elementos indissociáveis da obra.

Curiosamente, o programa não revelava a autoria da magistral composição. Tampouco constava no menu de canapés do intervalo. Pensando neles, preparava-me para levantar quando o maestro resolveu aparecer, provavelmente atrasado devido ao demorado processo de afinação da batuta. Retornei ao assento no momento em que seus braços descreviam uma parábola perfeita e vigorosa rumo às primeiras notas, como só se vê nos profissionais mais tarimbados e de excelência incontestável. Infelizmente era visível, além da reluzente coroinha, a absoluta miopia do nobre regente, que, para conseguir reger a obra, teve de ter a pauta soprada pela senhora de binóculo da terceira fileira. Nesse morno quase-andante do século dezenove, só não me tornei mais entendiado do que o abatido timpanista, que trocava mensagens com o segundo violino enquanto não chegavam os dois últimos compassos. O marasmo do clássico revisitado foi salvo pela excelente participação em tosse-solo do senhor da décima quarta fileira, impecavelmente afinado ㅡ embora a cada movimento o autor provavelmente se revirasse na tumba. A escolha do repertório revelou-se um tanto quanto eclética, atravessando períodos distintos da história musical e culminando no ronco atento do meu estômago, em aprovação à alta cultura a que fora submetido ㅡ em côro com o ronco da velhinha ao lado, sem dúvida pelo mesmo motivo.

Em poucas horas, o rangido das cadeiras e uma selva de palmas anunciaram o fim de mais um espetáculo sublime, ao qual o público seguiu para o Salão de Selfies e posteriormente para as carruagens coletivas da Praça Floriano. 

*

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

nota de rodapé


1. Não demorou muito para que a tecnologia evoluísse até o ponto dos implantes cerebrais. O novo iBrain trazia não apenas atualizações automáticas ㅡ para não dizer obrigatórias ㅡ a cada 15 segundos, como passou a vir instalado de fábrica em todos os bebês a partir da geração Z, incluindo um manual de instruções e termo de adesão em nanotipografia. Provia acesso ilimitado a todo o acervo musical, pornográfico, literário, científico e meteorológico da humanidade ㅡ mediante cobrança imediata em cartão de crédito, naturalmente. Os algoritmos não ficaram pra trás: todo o conteúdo disponibilizado era previamente calculado de acordo com o perfil socioeconômico, cultural e ontogênico dos usuários. De forma imperceptível, seus feeds pessoais e prováveis interesses passaram a ser gentilmente sugeridos a cada piscar de olhos, embora a tênue linha entre a sugestão e a imposição fosse cada vez mais desfocada. Não que alguém se importasse com isso. Conveniência acima de tudo, convenhamos. “Keep it greasy, so it will go down easy”, já dizia aquela canção. Mas como o sistema funcionava, na prática? Digamos que você passaria a gostar de música pós-pop industrial-eletrônica sem saber porque, mesmo sempre tendo sido um fervoroso ouvinte de tangos e boleros. Quando menos percebesse, estaria assobiando o último e recém-lançado sucesso das paradas, talvez perguntando-se inconscientemente “de onde eu conheço essa merda?”, e sendo cobrado por isso. Aquela música grudenta, que não saía da cabeça por nada, não apenas tocava em intervalos programados ㅡ intercalada com a sua programação pessoal, o que provia a sensação ilusória de controle e liberdade totais ㅡ, como passava a influenciar, de fato, os seus gostos e decisões. O novo sistema de Mind Royalties provou-se o mais eficiente modo de cobrança e fonte de receita para a indústria musical desde a invenção do tonalismo, mas felizmente não duraria muito, como veremos a seguir.



sexta-feira, 19 de setembro de 2014

quadrúpede orquestra - esculpindo vento



disco novo de canções velhas, gravado ao longo de 3 anos em encontros esporádicos com meu chapa pâncreas em brasília. 10 faixas, 24 minutos. se preferir, ouça aqui.