sexta-feira, 3 de outubro de 2014

nota de rodapé


1. Não demorou muito para que a tecnologia evoluísse até o ponto dos implantes cerebrais. O novo iBrain trazia não apenas atualizações automáticas ㅡ para não dizer obrigatórias ㅡ a cada 15 segundos, como passou a vir instalado de fábrica em todos os bebês a partir da geração Z, incluindo um manual de instruções e termo de adesão em nanotipografia. Provia acesso ilimitado a todo o acervo musical, pornográfico, literário, científico e meteorológico da humanidade ㅡ mediante cobrança imediata em cartão de crédito, naturalmente. Os algoritmos não ficaram pra trás: todo o conteúdo disponibilizado era previamente calculado de acordo com o perfil socioeconômico, cultural e ontogênico dos usuários. De forma imperceptível, seus feeds pessoais e prováveis interesses passaram a ser gentilmente sugeridos a cada piscar de olhos, embora a tênue linha entre a sugestão e a imposição fosse cada vez mais desfocada. Não que alguém se importasse com isso. Conveniência acima de tudo, convenhamos. “Keep it greasy, so it will go down easy”, já dizia aquela canção. Mas como o sistema funcionava, na prática? Digamos que você passaria a gostar de música pós-pop industrial-eletrônica sem saber porque, mesmo sempre tendo sido um fervoroso ouvinte de tangos e boleros. Quando menos percebesse, estaria assobiando o último e recém-lançado sucesso das paradas, talvez perguntando-se inconscientemente “de onde eu conheço essa merda?”, e sendo cobrado por isso. Aquela música grudenta, que não saía da cabeça por nada, não apenas tocava em intervalos programados ㅡ intercalada com a sua programação pessoal, o que provia a sensação ilusória de controle e liberdade totais ㅡ, como passava a influenciar, de fato, os seus gostos e decisões. O novo sistema de Mind Royalties provou-se o mais eficiente modo de cobrança e fonte de receita para a indústria musical desde a invenção do tonalismo, mas felizmente não duraria muito, como veremos a seguir.



sexta-feira, 19 de setembro de 2014

quadrúpede orquestra - esculpindo vento



disco novo de canções velhas, gravado ao longo de 3 anos em encontros esporádicos com meu chapa pâncreas em brasília. 10 faixas, 24 minutos. se preferir, ouça aqui.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

a curiosidade matou o fato





i.
“Para presidente, vote Agnaldo Taumaturgo”. À primeira vista, nada muito original, é bem verdade. Mas ao longo (sic) dos seus 4 suados segundos no horário eleitoral, a única e curiosa proposta foi se revelando, no mínimo, inovadora. “Eu tenho um segredo”, dizia, “O maior dos segredos, a verdadeira solução para os problemas do país”. Era preciso, naturalmente, dizer tudo muito rápido. Praticamente cuspir as palavras para caber no curto espaço de tempo do quadro, o que a princípio apenas provocou, após a mais absoluta indiferença, uma estranheza momentânea nos lares da classse média. “Foi isso mesmo que eu ouvi?”, perguntariam-se as donas de casa entre uma garfada e outra do jantar, ao que os maridos provavelmente responderiam “Isso o quê? Passa o sal”, e assim em diante. Mas o incrível poder da repetição, aliado à simplicidade do discurso, bastaram para despertar a atenção e conquistar aos poucos, se não a confiança, a curiosidade dos eleitores para com o extravagante candidato. Sorrateiro como uma mensagem subliminar ― uma pérola bruta incrustada em pleno horário nobre, espremida entre os gigantes de campanhas multimilionárias e superproduzidas ―, seu exótico lema foi repetido à exaustão, a cada dia provocando o arquear de mais sobrancelhas incrédulas.

Talvez o aumento significativo e meteórico da sua popularidade deva-se ao fato de que Agnaldo não revelava, de jeito nenhum, do que afinal se tratava o tal segredo, o que inquietava a imaginação das pessoas ― graças ao desejo de desfecho narrativo, incontrolável no ser humano, como atestará a literatura psicológica em prosa e verso ao longo da história. Seu plano de governo trazia apenas algumas poucas linhas onde anunciava o misterioso conhecimento, que a tudo resolveria, e só poderia ser desvendado após o pleito. Curiosidade popular, aos poucos começou a despontar nas pesquisas, com 1% das intenções de voto, e em ritmo vertiginoso escalou os gráficos, estatísticas e margens de erro deixando estupefatos mesmo os mais calejados coordenadores de campanha e marqueteiros. 




ii.

Mas quem diabos era Agnaldo Taumaturgo, o leitor certamente estará se perguntando, como também o fizeram as manchetes vespertinas e posteriormente seus próprios oponentes, ambos sem muito sucesso, ao perceberem a irritante existência do seu nome nas pesquisas. Na tentativa desesperada de levantar qualquer suspeita quanto à sua imaculada índole e candidatura, após o inesperado e curioso bordão cair no gosto popular, apelaram para um único caso de suspensão no colégio Benedito II, durante o quinto ano colegial, por conta de um mal-entendido na aula de educação física. Foi o melhor que encontraram para tentar manchar a sua imagem, mas o suposto escândalo provou-se de ineficácia completa. Solteiro, de meia idade, nascido e criado em Piraçungatininga, arquivologista de formação e sem qualquer trajetória política, era ao menos de se admirar a ousadia ― ou completa ingenuidade ― daquele homem, que há poucos meses inscrevera-se por correspondência no recém-criado Partido Horizontal Brasileiro, de absoluta inexpressão no cenário nacional, e cuja única norma explícita era a descentralização total e ausência de hierarquia dentro de seu quadro ― mas que apesar dos comentários irônicos quanto ao amadorismo político praticado por sua pífia militância, atraía alguns simpatizantes graças ao slogan involuntário “Deitado eternamente em berço esplêndido”, estampado em uma matéria pouco lisonjeira do semanário humorístico Seja, quando de sua fundação (do partido, não do semanário). O vice de Agnaldo, sorteado dentre os afiliados, não se mostrava mais esclarecido quanto ao possível conteúdo de suas propostas. “Eu também não sei do que se trata, mas apóio”, era o seu tímido posicionamento.



iii.
Conforme crescia nas pesquisas, foi tachado de charlatão, louco, mais um querendo aparecer, um palhaço gozando das instituições e do sagrado exercício democrático ― para ficar nos títulos mais amenos ―, mas não se deixava abalar e persistia repetindo o mantra “Meu segredo irá resolver tudo, não se preocupem”, o que não convenceu o âncora encarregado das perguntas na primeira entrevista para um noticiário televisivo, que, a princípio jocoso ante o singelo candidato, foi se tornando visivelmente irritadiço e contrariado como uma criança birrenta, após as evasivas de Agnaldo, que a tudo respondia com a mesma ladainha, como uma criança sapeca que inventa as regras do próprio jogo e acredita, de fato, na sua imaginação. Tampouco ganharia a confiança dos conglomerados e multinacionais, dos banqueiros e grandes financiadores de campanhas, ou dos setores conservadores em geral. Tentando desgastar a sua imagem, já exaustivamente ridicularizada internet afora e jornais adentro, a grande mídia esperneou mas foi obrigada a constatar sua impotência perante a ascensão meteórica da campanha de Agnaldo. Com a súbita exposição, ele apenas subia mais e mais nas intenções de voto, e já praticamente empatava a disputa com o candidato favorito. “Muita saúva e pouca saúde mental”, atacavam os editoriais.

Porém, mesmo rechaçado nas publicações especializadas, meios acadêmicos e veículos de comunicação internacionais, ou talvez devido a isso, criou-se uma espécie de mitificação em torno de sua figura que envolvia, sem exceção, dos mais esclarecidos cientistas políticos às velhinhas nas filas de supermercado. Todos queriam saber o que diabos, afinal, era o tal segredo tão bem guardado e exaustivamente repetido, que, apesar de única proposta e promessa de campanha do candidato, não podia ser revelado até a definitiva apuração dos votos. Agnaldo não atacava ou defendia coisa alguma, e era visto com desconfiança tanto pela direita quanto pela esquerda, de leste a oeste e outros pontos cardeais. Mas seu rosto estampava inúmeras camisetas e gifs animados, com todas as especulações possíveis, pastiches, exageros e suposições relacionadas à sua solucionática misteriosa. Tornou-se um ícone pop de influência incontestável, porém continuava reservado e low-profile a ponto de sequer contratar um assessor de imprensa ou uma dupla de guarda-costas. Não possuía conta em twitter, linkedin ou qualquer rede social relevante, mas proliferavam os memes a seu respeito. Amontoavam-se as conjecturas em torno do misterioso segredo, desdobrando-se em teses e tratados. Nem todos compraram o apelo fácil do seu discurso, é claro: cautelosos, os formadores de opinião opinavam, os analistas analisavam e os comentaristas comentavam. Nas ruas não se falava em outra coisa.

Durante o debate final, Agnaldo foi o único alvo de todos os candidatos e entrevistadores, que deixaram de lado até mesmo as denúncias de corrupção no governo atual ou os escândalos envolvendo a fábrica de salsichas de um dos candidatos da oposição, na tentativa de escrutinar-lhe definitivamente a retórica, mas perdendo-se, naturalmente, na sua própria, da qual transcrevemos o seguinte trecho:


[Candidato 1]: O Senhor está ciente de que um governo se faz com propostas e ações, não apenas com promessas vazias como esse suposto “segredo milagroso” que o senhor sequer tem a coragem de revelar, para devida análise de especialistas financeiros e da sociedade em geral, como o fizemos minha equipe e eu desde o princípio de minha carreira política há 45 anos, sempre às claras e jamais desamparando a pobre Dona Cotinha que não tem dinheiro para comprar os seus remédios de memória?


[Agnaldo]: Sim.


[Candidato 1]: Eu nunca roubei ou pratiquei qualquer corrupção fora do aceito socialmente, fui sempre fiel aos meus eleitores e seus votos, e agora venho ser ameaçado por um populista apelativo, de inexperiência política comprovada e que sequer realiza comícios em qualquer região devastada pela seca ou distribui uma cesta básica como prova de boas intenções. É por isso que o país encontra-se afogado na dívida externa e nos casamentos sem marcha nupcial, o que no meu governo não será admitido sob hipótese alguma. Obrigado.


Demonstrava tamanha calma nas réplicas e originalidade em seu modus operandi, que seria uma tarefa praticamente impossível desacreditá-lo. Trazia na ponta da língua a resposta que a tudo resolveria, no seu devido tempo, sem maiores explicações. A crise do petróleo, os índices de desemprego, a dívida externa, a saúde, a educação e os direitos civis, não havia tema que o abalasse e que não pudesse ser perfeitamente solucionado no seu mandato. Por mais que os outros o pintassem de fanático ou lunático, também era carismático, passava mesmo uma boa impressão. Era o tipo de senhor que conquistava a simpatia das tias beatas da gente, sempre muito educado e sereno, mas deliciosamente enigmático.

iv.
No dia das eleições, o povo compareceu em massa. Compelidos pela possibilidade assustadora de não saber o final da história, os votos registraram um recorde em número de nulos e abstenções próximo do zero. A boca de urna ainda tentava dissuadir os curiosos, mas à boca pequena comentava-se com entusiasmo por todos os cantos: “Finalmente vamos saber que merda de segredo é esse”. O desfecho ocorreu como antecipado: o único candidato que não fizera comícios, passeatas ou corpo-a-corpo, que não beijara bebês alheios nem imprimira um santinho ou outdoor sequer, havia sido eleito. Toda a sua divulgação tinha se dado espontânea e gradativamente, aquecida pelo rebuliço em torno do misterioso segredo que seria agora, enfim, revelado. Elevado ao cargo máximo da nação pela curiosidade mórbida do eleitorado, Agnaldo tinha o mundo a seus pés. 

Após a cerimônia de posse, à qual compareceram as mais distintas autoridades, penetras e corpos diplomáticos, o novo presidente agendara um pronunciamento oficial, onde esperava-se que pusesse um fim aos altos índices de inquietação e coceira auricular da população, botando a boca no trombone e contando, de uma vez por todas, tudo o que guardara para si durante os meses de campanha certamente por estratégica cautela, devido ao magistral poder transformador que a revelação acarretaria. Instituiu-se feriado nacional, enquanto a população se voltava para os televisores e rádios de pilha, à espera do grande momento. 

v.
À hora marcada, Agnaldo subiu ao pódio, devidamente enfaixado com os louros presidenciais. Trazia uma chama no olhar como antes não se havia notado, e poderia se dizer que caminhava com extrema convicção, aqueles poucos mas intermináveis passos. “Prezados cidadãos e cidadãs”, começou, “a voz do povo é a voz de Deus, embora ele não exista. E Deus, digo, o povo clamou por mudança, por novos ares, ao me eleger a este nobre cargo. Não os decepcionarei, vou lhes contar um segredo”. O silêncio mais profundo tomou conta do país, enquanto milhões de pessoas prendiam a respiração. O que se sucedeu certamente constará nos livros de história: Agnaldo colocou a mão no bolso interno do paletó e puxou pelo rabo, de sopetão, um longo e lustroso surubim-chicote, prosseguindo a batê-lo repetidamente contra o palanque, aos gritos de “Esse aqui é o segredo, a solução de todos os nosso problemas!”. Trazia o semblante transfigurado, os dentes à mostra, e continuava: “Obrigado pelos votos! Agora tudo será solucionado, seremos a nação mais próspera da Terra, quiçá de todo o sistema solar!”. O público assistia estupefato, mas a cena não durou muito. Após o choque inicial, foi uma questão de segundos até que os seguranças recolhessem o líder transtornado dos holofotes, os assessores tomassem o seu lugar com explicações improvisadas, a polícia fosse acionada e todo o governo tentasse conter a situação ― o que, obviamente, não foi possível. Houve revolta nas ruas, saques e vandalismo. Atearam fogo à bandeira nacional e tentaram invadir o palácio, para realizar o derradeiro golpe de estado que extinguiria todas as instituições. O exército, a marinha e a força nacional, a duras penas, contiveram o levante. Mal se havia dissipado as nuvens de gás lacrimogênio, todos clamavam pelo impeachment, linchamento e execução sumária de Agnaldo. Achou-se mais prudente que fosse apenas afastado do cargo e encaminhado a um hospital psiquiátrico de localidade desconhecida, enquanto o vice assumiria o governo e tentaria acalmar os ânimos gerais, já absurdamente exaltados. A oposição insistiu em que fosse investigado o peixe e sua procedência, ao que se instaurou a famigerada CPI que duraria aproximadamente quatro anos, sendo posteriormente abandonada sem chegar a conclusões definitivas. 

Apesar das adversidades, fugas de investidores e quedas vertiginosas na bolsa de valores, o vice prosseguiu com o mandato, morno mas sem maiores problemas. Inaugurou os monumentos de praxe, compareceu às reuniões internacionais, beijou as mãos certas e gastou mais da metade do orçamento federal em publicidade pós-traumática, tudo para recuperar a auto-estima e o orgulho feridos do país (Chegou-se mesmo a reparar parte do dano, retratando Agnaldo como visionário incompreendido, e instituindo-se o surubim-chicote como prato simbólico nacional, aumentando consideravelmente o volume de exportações e a pesca esportiva dessa espécie). Ao deixar o cargo, lembraria que “abandonar a vida pública é um exercício de desapego”, e sua estátua ainda orna a praça central de Jabiratininga do Sul, sua terra natal, servindo de descanso aos pombos e pano de fundo aos selfies dos namorados em noite de São João.


vi.
Era novamente ano eleitoral, e, tão logo teve início a disputa, percebeu-se imediatamente o aumento significativo de candidaturas e partidos. Após a dissolução do PHB, os tribunais registraram alta de 254% nas inscrições de novas entidades e número recorde de filiações aleatórias. A propaganda eleitoral já tomava o horário nobre, e não se podia deixar de reparar no discurso familiar da maioria dos candidatos: cada um anunciando uma solução mais secreta e misteriosa que a outra para os problemas do país.




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Nota: Este conto não se trata de referência direta à atual conjuntura, tampouco análise ou especulação política de qualquer forma - embora eventuais semelhanças com a realidade possam vir a ocorrer, intencionalmente ou não, devido à peculiaridade intrínseca dos processos político-sociais e, porque não, humorísticos, do nosso país. Assume-se, aqui, o direito de livre-associação, licença poética e divagação imaginativa pura e simples, a nível de exercício literário individual e indissociável da obra do autor como um todo. Resumindo, isso aqui não passa de ficção. Não chega nem perto da realidade, naturalmente.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

indo ao dentista

Ir ao dentista é mais uma pequena experiência em que se deve participar esporadicamente para compreender por completo o escopo do ser humano. Trata-se não apenas de um doloroso – e caro –, mas entediante processo ao qual esses comparecem em troca de não passar o fio dental todo santo dia.

Para se ir ao dentista, primeiro é preciso passar por uma salinha pequena e de decoração duvidosa, com uma televisão ligada em algum canal chato e revistas velhas e amassadas de fofoca ou semanários de direita amontoadas dentro de uma cesta ou sobre uma mesinha baixa, ao lado de um sofá desconfortável. Deve-se sentar com estranhos no sofá, em silêncio constrangedor e evitando contato visual – para evitar suspeitas quanto à sua procedência geográfica ou preferência política –, e dirigir-se apenas à senhora do outro lado do balcão, também no recinto, que se encontrará lendo algum livro de auto-ajuda ou pintando as unhas enquanto atende ocasionais telefonemas.

Após um período que pode variar entre trinta e noventa minutos, em média, ao qual os pacientes vão entrando e saindo do consultório, se é chamado e deve-se largar, educadamente, o artigo sobre as férias da atriz da novela na Riviera francesa pela metade em cima do sofá, levantar-se e andar até a porta, onde o doutor (ou a doutora) estará nos esperando com a mão fria e macia estendida e um sorriso, ironicamente amarelo, no rosto. Após breves cumprimentos e saudações, ele (ou ela) nos guiará à cadeira odontológica e sua assistente (geralmente ela), à qual ainda não fomos sequer apresentados, irá prontamente se encarregar dos acessórios da sessão, a saber: um babador de criança, um guardanapo e um sugador de saliva com motorzinho. Não é preciso estranhar os objetos empregados neste tipo de ritual, que poderão ainda compreender uma escarradeira de platina, um espelhinho curvo e – caso você esteja sem sorte – uma broca de tamanhos variáveis. A partir desse ponto, reaja normalmente. Não é preciso conter os gritos e as contorções, já que o doutor e a sua assistente são profissionais tarimbados (espera-se) e estarão acostumados aos pacientes mais dramáticos. Deixe-os trabalhar e abstraia eventuais sangramentos e injeções.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

chupa manga records

quinta-feira, 31 de julho de 2014

elevadores


Para evitar a fadiga, o ser humano eventualmente desenvolveu um mecanismo destinado a substituir as arcaicas “escadas”1 nos edifícios de mais de dois pavimentos. Trata-se de uma micro ecossistema suspenso no ar por cordas de aço, em sistema de contrapeso, para elevação vertical mediante operação de botões e interação social indesejada. Dito assim, soa complicado, mas o procedimento é simples: apertar o botão, esperar o elevador, aguardar a porta se abrir e as pessoas saírem, entrar, descobrir o andar no painel, apertar-se no recinto com um punhado de desconhecidos, evitar puxar assunto, suar frio, observar o itinerário indicado no visor, torcer para o elevador não quebrar, pedir licença para passar quando chegar a sua vez, desviar dos passageiros no sentido contrário e desembarcar são e salvo alguns metros acima ou abaixo do ponto de partida, de preferência no andar certo.

1. Devidamente decifradas pelo teórico J. Cortázar, no tratado "Instruções para subir uma escada" (1964)

segunda-feira, 21 de julho de 2014

auto-arqueologia sonoro-biográfica


Por muitos anos gravei obsessivamente horas e horas de música, idéias, ensaios, conversas de bar e ruídos em geral, em fitas k7 raramente rotuladas e posteriormente esquecidas no fundo de uma gaveta. O surrado AIWA TP-VS470 resistiu bravamente até o fim de 2013, quando foi aposentado por invalidez. Nesse meio tempo, arquitetei diversas tentativas de formar bandas (algumas, de um dia só), que criaram repertório, em maior ou menor grau, e fizeram parte da minha formação e aprendizado na arte de tocar com outras pessoas - contraponto ao apreço pela solidão e isolamento. Uma dessas tentativas eventualmente se tornaria o Chapa Mamba, outras transmutaram-se em projetos paralelos, e a maioria ficou apenas na lembrança e nesses pobres registros resgatados de HDs antigos - por vezes apenas fragmentos e cortes arbitrários, de baixíssima fidelidade.

Contexto é tudo. São gravações precárias de performances por vezes inseguras, obviamente de alto valor sentimental, mas que também demonstram a vontade e urgência juvenis depositadas em milhares de ensaios, encontros, tentativa e erro de se criar algo único. Essa seleção traz algumas composições que em algum momento foram importantes para mim, e que de alguma forma atingem memórias nostálgicas de uma cena imaginária da qual fizemos parte. Talvez não interessem a mais ninguém, mas propus a mim mesmo reavaliar esses arquivos com ouvido crítico, apenas para constatar que sim, havia algo latente ali, de alto potencial, algo que espero continuar desenvolvendo enquanto puder.

Obrigado Paulo Mello, André Borges, Guilherme Souto, Yuri Mello, Daniel Guedes, Endrigo Bastos, André "Pâncreas" Campos, Iano Fazio, André Costa e Bruno Lima por terem tocado comigo nessas faixas, desculpem expô-los dessa forma. (Éramos jovens e inocentes, é a desculpa perfeita.) Obrigado aos outros amigos que infelizmente não apareceram nessa tosca seleção.




ONE-BAND-MAN (2005 - 2012)

A
de ontem em diante o amanhã é hoje
dança do intestino
passarinho
flauta doce *
quem não chora não mama
aquela do três-três
a vida é bélica *

B
pássaro de fogo
a propaganda da televisão *
metal
quem não chora não mama
orangotango-marimbondo
dança do destino
o fantasma da máquina
quem não chora não mama

Gravado em cassete, exceto quando indicado (*)




quarta-feira, 9 de julho de 2014

parada gráfica 2014

Estarei em Porto Alegre no fim do mês, para participar da Parada Gráfica, que acontece no Museu do Trabalho nos dias 26 e 27 de julho. O frio deve estar de lascar, mas faz tempo que quero conhecer a cidade, habitada por monstros como Fabio Zimbres e Rafael Sica, só para citar dois.






Além do material da Beleléu, dividiremos a mesa com o Selo Rabanete, da Clara, e daremos uma oficina de quadrinhos no domingo. As inscrições estão abertas e a oficina, assim como o evento, é gratuita.



Pra completar, toco com o Chapa Mamba na festa de abertura, no sábado! Barba, cabelo e bigode.
Mais informações sobre isso em breve.


PARADA GRÁFICA 2014
@ Museu do Trabalho
26 e 27 de julho

+infos
paradagrafica.tumblr.com
fb.com/aparadagrafica 


terça-feira, 27 de maio de 2014

domingo, 20 de abril de 2014

cabeceira



o dinossauro arrumou um emprego, em cores, e está dando as caras no facebook/instagram da editora rocco em uma campanha para desmistificação do universo dos e-books.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Dos enganos, cobranças e implicações metafísicas do gancho

Hipótese a.

Gostaria de deixar um recado pra Dona Iracy: seus cobradores mandam avisar, pela trigésima vez essa semana, que o nome da senhora está na lama, mais sujo que pau de galinheiro, e vai, definitivamente, entrar no Serasa no SPC e na boca do sapo caso não quite as parcelas eternas do crediário. Dos interlocutores já nem lembro mais. Light, Americanas, Casas Bahia, Net, Açougue do Nonô... De ampla gama, é fato, e leque farto: não importa o expediente, não têm o menor pudor em telefonar às 7 da manhã do sábado, às 16:20 de uma terça-feira ou no exato momento em que a panela está no fogo alto e a gente tem que sair correndo para atender e ainda ser paciente com a telefonista, para voltar correndo e encontrar o almoço irremediavelmente queimado. Credora em quinze estados, escapista sem-vergonha, Dona Iracy provavelmente haverá tomado chá de sumiço tão logo pôs os pés na rua, carregada de muamba ‒ não sem antes colocar justamente o número do meu telefone no formulário de cadastro de todas as vinte e sete filiais da loja de piscinas infláveis ou da revendedora de mobiletes usadas, no quinto andar de uma antiga fábrica de tapetes persas que agora funciona como locadora de vídeo. Mas existirá, de fato, Dona Iracy? Não fossem os enganos recorrentes, eu mesmo jamais teria tomado conhecimento de sua mal-falada serventia. Talvez o nome seja, também, falso como o número de telefone que ela inventou para fugir das dívidas. Dona Iracy, inadimplente e malandra, tomou banho de loja, parcelou deus e o mundo no cartão do Seu Gervásio e se mandou, sumiu do mapa. 




Hipótese b.

Dona Iracy é honesta e trabalhadora, mas tem problema de memória. Mudou-se há algum tempo, trocou de telefone e esqueceu de atualizar a lista telefônica. Os atendentes não têm culpa, apenas cumprem ordens. Ligam para cobrar, sim, mas pelo menos não ligam a cobrar. Divagações à parte: ela existe, o número existe, as dívidas e todos nós também, mas sobretudo o tempo. Iracy não foi a primeira, e tampouco serei eu o último detentor dessa sequência específica de algarismos relacionada a um aparelho telefônico. Culpa das privatizações, Fernando Henrique, o Plano Real e a queda do dólar, vai saber. Democratizado o acesso, anos depois, nunca me ligam atrás de mim. Desculpo-me de antemão, diariamente, não, não é do Mercury Hotel, muito menos da seguradora Vital, do açougue do Nonô nem pensar. Os "enganos" são rotineiros. Os horários variam, mas seguirão algum padrão oculto que me escapa? Por vezes curtos e grossos, sequer dão-se ao trabalho de pedir desculpas ou bater dois dedos de prosa. Por exemplo: hoje mesmo chamaram atrás de um certo Antônio, do qual obviamente nunca vi mais gordo, e, à minha negativa sobre ser este o número dele, solicitaram então o seu número e paradeiro atual, ao que foi preciso explicar e provar por a + b que, apesar de possuirmos o mesmo telefone, eu jamais tenha tomado contato ou nutrido qualquer relação (ou mesmo simpatia) com ele e que não, não adiantava ligar novamente, mais duas vezes para ser exato, na esperança de que pela simples repetição o número voltasse a ser dele, embora talvez nunca tivesse sido. O seguro de vida não pode esperar! O ouro está enterrado no... Bato o fone no gancho. Mentira, não o faço, mas deveria. Sou paciente e educado, como me ensinou minha mãezinha, antes de bater as botas no tapete para tirar a poeira. Com a Dona Iracy são ainda mais insistentes, afinal ela está devendo os olhos da cara, com juros e correção monetária, sabe-se lá desde que década. Mas ligam atrás dela com alguma razão, e era esse o ponto em que queríamos chegar, como bem afirmou o teórico Djavan: 

Aparelhos e respectivos proprietários de linhas telefônicas não passam de encarnações passageiras dessas mesmas linhas. Nós passamos, os números ficam. Simples assim. Quando o ponto a direciona uma ligação ao ponto b, ainda que, no momento, c seja o guardião e detentor da referida e hipotética linha, atinge-se, por intermédio e apesar de c, a conexão imaginária pretendida entre os dois espaço-tempos, embora às vezes em outro tempo.

Ora, a telefonia vernacular, por definição, é baseada em sistemas eletro-sonoros, como bem pôde constatar D. Pedro II ao receber o pedido de uma calabresa média sem cebola, enquanto esperava uma ligação de Graham Bell. Feito que as ondas sonoras, apesar de perderem corpo, não dissipam-se completamente no espaço ao longo do tempo; o engano da pizzaria e os cobradores de Dona Iracy atingem as mesmas conexões todas as vezes, em ambos os sentidos, em uma rede intrincada multi-dimensional através do tempo, apesar dos receptores trocados. Dito isso, talvez o meu número de telefone possa ser uma reencarnação direta da mesmíssima linha de D. Pedro II, com toda pompa e circunstância, embora o seu uso tenha sido pateticamente banalizado pelos cobradores de Dona Iracy e o péssimo sistema de reservas do Mercury ‒ apesar de muito possivelmente o verdadeiro número do imperador ter sido "dois", já que recebia a ligação de Graham Bell no aparelho número "um", e caso não se tratasse de trote do inventor concorrente¹, em busca da primeira patente. Por mais lógicas que aparentem ser essas constatações, é curioso notar que me ligam do açougue atrás de Iracy, mas também me ligam (sabe-se lá de onde) atrás do açougue. Esta é, sobretudo, a exceção que comprova a regra, o paradoxo pulsante da digitação telefônica, e minha sina enquanto dono-de-casa. Meu número de telefone teve vidas passadas de glórias, apólices, alcatras. Nos últimos tempos, telemarketing. Nesse caso, ligarão atrás de mim ou de quem for que atenda  não importando a encarnação, seja o hotel, a seguradora, o açougue ou a pobre Dona Iracy , tentando empurrar o novo pacote de canais da tevê sobre a vida dos pinguins em alta definição, 24 horas de gincana e tapetes persas falsificados desde que o mundo é mundo. Não, obrigado, não tenho interesse, veja bem, eu não fico importunando os senhores às 8 da manhã, sim, eu sei, não interessa que seja promoção, por favor não me liguem mais, obrigado, você também, até logo. 




Hipótese c.

Confirmar todos os enganos, anotar as reservas, oferecer a suíte presidencial, ser simpático, dizer que infelizmente só aceitamos rúpias. 




Hipóteses d., e., f., g., h. e i.

Trotar em meio ao caos temporal evidente no sistema telefônico brasileiro  e sequer mencionamos as implicações na telefonia móvel. Discar a esmo e perguntar "quer falar com quem?", ou: tocar o bolero de Ravel sem dizer uma palavra. Quem ouvir até o final certamente haverá de ter algo a dizer. Descobrir o endereço de Dona Iracy. Entregar a pizza a D. Pedro. Deixar o aparelho fora do gancho. Mudar o número do telefone.





* * *



Apêndice: A fenomenologia da linha cruzada

Gilmar pediu a pizzaria em casamento, enquanto Vilma achava "uma calabresa grande" o pior pedido de desculpas que já ouvira, além de proposta muito indecente. Desde este popular conto hindu, é possível perceber a frequência e fascinação exercidas pelo fenômeno conhecido como linha cruzada. De alta ocorrência em construções de uso readaptado pelo advento de "gambiarras" ou ditos "gatos" no sistema telefônico, não serão essas estatísticas, aqui, nosso objetivo de estudo. A linha cruzada de raiz não pode ser explicada e seu interesse metafísico provém, justamente, da ausência de causalidade. Tendo apontado, nos capítulos anteriores, a hipótese da reencarnação de canais telefônicos através do tempo, é de se esperar que listemos o que os teóricos da transcomunicação instrumental chamariam de "ruído gasparzinho" dentre as possíveis explicações para o fenômeno ‒ mas nada disso vem ao caso. O que realmente devemos nos perguntar, diante da observação de algo do tipo, certamente é: por que nunca dizem nada de interessante do outro lado?



Juan Carlos L'Embroma, Costumes Indígenas e Obsolescência Pós-Apocalíptica (1967)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

CHAPA MAMBA - S/T (2014) TNR.064






Finalmente saiu o primeiro disco da minha banda, Chapa Mamba, via Transfusão Noise Records.
Ele foi praticamente gravado em 3 dias de 2013, no Interestellar Lo-Fi, mas só agora vê a luz do dia.

É engraçado como, mesmo depois de gravadas, as músicas nunca estão, de fato, prontas. 
Alguns arranjos estão sempre em evolução, e vamos descobrindo novas sutilezas e possibilidades. 
Dito isso, é o que temos pra hoje.

São 10 faixas, algumas delas bem antigas, num total de 31 minutos, e dá pra ouvir tudo aqui: chapamamba.bandcamp.com

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No dia 2 de março tem show no Escritório, pra comemorar o disco e, de quebra, o carnaval.

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ps: saiu uma resenha bem legal no site Miojo Indie


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Música de Computador vol.5



    1. Freelancer Dilema
    2. Coentro É Bom
    3. Dipirona Cafeína
    4. Vibe Enferrujado
    5. Aquilo Roxo
    6. Eu Não Quero Dizer Nada
    7. Tudo É Dor
    (21:21)

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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Música de Computador vol.4





Terminando as pendências do ano, aí vai o quarto volume da série.
Esse disco está um pouco mais lo-fi do que os outros, tem uns trechos experimentais, mas na sua maioria são músicas até bonitinhas (na medida do possível).
Toda a coleção requer uma certa persistência do ouvinte, especialmente no que diz respeito ao timbre das obras. Não espere nada que tocaria no rádio.

Dito isso, ouve quem quer:
Música de Computador vol.4 (2013)

O próximo deve sair em breve, é um pouco mais agitado e bem diferente desse.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

arqueologia musical







Escavando velhos HDs, encontrei uma penca de arquivos de composições pré-históricas, experimentos sonoros e primeiras tentativas de gravação em midi. Achei que dariam um bom contraponto à série Música de Computador, apresentando os primórdios dessa onda torta e solitária que, apesar de estimulante, me impulsiona a tocar de verdade, com outros seres humanos. De qualquer forma, uma parcela importante da minha "formação" enquanto músico obscuro, mas esforçado. E de alto valor sentimental, vá lá. Chuif.

Para os bravos:
Música de Computador - Early Works vol.1 (2002-2008)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

FRIQUINIQUE + BARATÃO 66 em Brasília



domingo
22 de dezembro
a partir das 15h
no Sindicato
705 sul bloco A casa 35
>> facebook

Stravinsky, música e processo criativo

Prosseguindo na leitura do livro Poética Musical em 6 lições - transcrição de uma série de palestras de Stravinsky na universidade de Harvard em 1939, traduzido por Luiz Paulo Horta -, achei de bom tom compartilhar outros trechos, que tratam desde o processo criativo da composição musical (ou de qualquer outra área) à crítica especializada, além da performance versus a reprodução mecânica, tema já abordado nesse post sobre um texto de Charles Rosen.

Grande parte das considerações do texto, a meu ver, não se aplica exclusivamente à música.
Stravinsky discorre sobre a feitura da arte em geral, e mais especificamente da música, colocando a inspiração em seu devido lugar, como consequência de um envolvimento anterior com o fazer. Defende a importância de regras particulares, limitações auto-impostas para a amplificação da liberdade criadora, e desdenha da aura sobre-humana delegada à figura do artista. É interessante notar, também, a preocupação que ele demonstra com a passividade do ouvinte gerada pelo "excesso de informação" com a difusão musical via rádio, em detrimento da educação musical, isso há mais de 70 anos.

É longo, mas vale a pena.






* * *

Souvtchinsky nos apresenta dois tipos de música: uma deles evolui paralelamente ao processo do tempo ontológico, envolvendo-o e penetrando-o, introduzindo na mente do ouvinte um sentimento de euforia, o que se poderia chamar de "calma dinâmica". O outro tipo vai à frente, ou em direção contrária, desse processo. Não está encerrado em cada unidade total momentânea. Desloca os centros de atração e gravidade, e se estabelece no instável. Esse fato torna-o particularmente adaptável à transposição dos impulsos emotivos do compositor. Toda música em que o desejo de expressão predomina pertence ao segundo tipo. (...) A música que se apóia no tempo ontológico é geralmente dominada pelo princípio da similaridade. A música que adere ao tempo psicológico tende a proceder por contraste. A esses dois princípios que dominam o processo criativo correspondem os conceitos fundamentais de variedade e unidade. Todas as artes recorrem a esse princípio. (...) De minha parte, sempre considerei que, de maneira geral, é mais satisfatório proceder por similaridade do que por contraste. Assim a música ganha força na medida em que não sucumbe às tentações da variedade. O que ela perde em riquezas questionáveis ela ganha em solidez efetiva. O contraste produz um efeito imediato. A similaridade só satisfaz a longo prazo. (...) O contraste está em toda parte. Temos apenas de registrar a sua presença. A similaridade está oculta; é preciso procurar por ela, e ela só se deixa encontrar depois de exaustivos esforços. Quando a variedade me tenta, fico inseguro quanto às soluções fáceis que ela me oferece. A similaridade, por outro lado, coloca problemas mais difíceis mas também oferece resultados mais sólidos e, portanto, mais valiosos para mim. 

(...) A harmonia, tal como é ensinada hoje nas escolas, dita regras que não foram fixadas senão muito tempo depois da publicação das obras em que elas se baseiam, regras que eram desconhecidas para os compositores dessas obras. Daí nossos tratados de harmonia tomarem como ponto de partida Mozart e Haydn, nenhum dos quais jamais ouviu falar em tratados de harmonia.

(...) A maioria dos amantes de música acredita que o que põe em movimento a imaginação criadora de um compositor é um certo distúrbio emotivo geralmente designado pelo nome de inspiração. (...) a inspiração não é de forma alguma condição prévia do ato criativo, e sim uma manifestação cronologicamente secundária. (...) Não está claro que tal emoção é apenas uma reação da parte do criador às voltas com essa entidade desconhecida que ainda é apenas o objeto de sua função criativa, e que deverá tornar-se uma obra de arte? Passo a passo, elo a elo, ele terá a oportunidade de descobrir a obra. (...) Toda criação pressupõe, em sua origem, uma espécie de apetite provocado pela antevisão da descoberta. Esse gosto antecipado do ato criativo acompanha a captação intuitiva de uma entidade desconhecida já possuída mas ainda não inteligível, uma entidade que só tomará forma definitiva pela ação de uma técnica constantemente vigilante. Esse apetite despertado em mim pela simples idéia de colocar em ordem elementos musicais que atraíram a minha atenção não é absolutamente uma coisa fortuita como a inspiração, mas algo de tão habitual e periódico, mesmo não sendo tão constante, quanto uma necessidade natural. 

(...) A palavra artista, que, bastante incompreendida hoje, confere ao que a carrega o imenso prestígio intelectual, o privilégio de ser aceito como puro espírito - esse termo pretensioso é, a meu ver, inteiramente incompatível com a função do homo faber. (...) A idéia de um trabalho a ser feito está, para mim, tão estreitamente ligada à idéia do arranjo dos materiais e do prazer que a confecção concreta da obra proporciona que, se o impossível acontecesse, e a obra de repente me fosse dada numa forma perfeita e completa, eu ficaria embaraçado e perplexo com isso, como ficaria com uma fraude. Temos um dever em relação à música, que é inventá-la. (...) Assim, o que nos interessa aqui não é a imaginação em si mesma, mas antes a imaginação criativa: a faculdade que nos ajuda a passar do nível da concepção para o da realização. Ao longo de meus trabalhos, muitas vezes esbarro em algo inesperado. Esse elemento inesperado me atinge. Tomo nota do que ocorreu, e, no devido tempo, transformo isso em alguma coisa de útil. O dom do acaso não deve ser confundido com aquele lado caprichoso da imaginação que em geral chamamos fantasia. A fantasia implica o desejo prévio de nos abandonarmos a um capricho. Mas a ajuda do inesperado a que acabo de fazer alusão é algo de bastante diferente. É uma colaboração intimamente ligada à inércia do processo criativo, e está repleta de possibilidades que não foram solicitadas e que vêm apropriadamente temperar o inevitável excesso da vontade pura. E é bom que seja assim.

(...) A faculdade de criar nunca nos é dada com exclusividade. Vem sempre acompanhada pelo dom da observação. E o verdadeiro criador pode ser reconhecido por sua capacidade de sempre encontrar à sua volta, nas coisas mais simples e humildes, detalhes dignos de nota. Ele não tem de preocupar-se com uma bela paisagem, não precisa cercar-se de objetos raros e preciosos. Não tem de se pôr a caminho em busca de descobertas: elas estão sempre ao seu alcance. Ele só tem de olhar em volta. Coisas familiares, coisas que estão por toda parte, atraem sua atenção. O menor incidente prende seu interesse e guia suas operações.

(...) Um modo de composição que não estabelece limites a si mesmo torna-se pura fantasia. (...) Vamos chegar a um acordo quanto a essa palavra fantasia. Não pretendo usá-la no sentido associado a uma forma musical definida, mas na acepção que pressupõe um abandono do próprio eu aos caprichos da imaginação. E isso pressupõe que a vontade do compositor esteja voluntariamente paralisada. Pois a imaginação é não apenas a mãe do capricho, como também a serva da vontade criativa. A função do criador é selecionar os elementos que ele recebe daí, pois a atividade humana deve impor limites a si mesma. Quanto mais a arte é controlada, limitada, trabalhada, mais ela é livre. Quanto a mim, sinto uma espécie de terror quando, no momento de começar a trabalhar e de encontrar-me ante as possibilidades infinitas que se me apresentam, tenho a sensação de que tudo é possível. Se tudo é possível para mim, o melhor e o pior, se nada me oferece qualquer resistência, então qualquer esforço é inconcebível, não posso usar coisa alguma como base, e consequentemente todo empreendimento se torna fútil. (...) Superarei esse terror, e encontrarei segurança no pensamento de que tenho à minha disposição as sete notas da escala e seus intervalos cromáticos, que tempos fortes e fracos estão a meu alcance, e que em tudo isso eu possuo elementos sólidos e concretos que me oferecem um campo de experiência tão vasto quanto a perturbação e a vertigem infinita que me assustavam. É nesse terreno que aprofundarei minhas raízes, plenamente convencido de que combinações que têm a seu dispor doze sons em cada oitava e todas as possibilidades rítmicas me prometem riquezas que toda a atividade do gênio humano jamais será capaz de exaurir. (...) Não tenho uso para um liberdade teórica. Dêem-me algo de finito, definido - matéria que pode prestar-se à minha operação apenas na medida em que é proporcional às minhas possibilidades. E essa matéria se apresenta a meu exame acompanhada de suas limitações. Devo, de minha parte, impor minhas próprias regras. (...) No entanto, quem de nós ouviu falar de arte como outra coisa senão o reino da liberdade? Essa espécie de heresia está uniformemente difundida, porque se imagina que a arte está fora dos limites da atividade ordinária. Bem, em arte, como em tudo o mais, só se pode construir sobre uma fundação resistente: aquilo que cede constantemente à pressão acaba por tornar o movimento impossível. Minha liberdade, portanto, consiste em mover-me dentro da estreita moldura que estabeleci parar mim mesmo em cada um de meus empreendimentos. (...) Toda arte pressupõe um trabalho de seleção. Normalmente, quando começo a trabalhar, meu objetivo ainda não está definido. Se me perguntassem o que quero nesse estágio do processo criativo, teria dificuldade em responder. Mas sempre daria uma reposta exata se me perguntassem o que eu não queria.

(...) O perigo, portanto, não reside em copiar clichês. Reside, sim, em fabricá-los e atribuir-lhes força de lei, uma tirania que é simples manifestação de um romantismo decrépito.






* * *

Não pretendo questionar os direitos dos críticos. Ao contrário, o que lamento é que eles o exerçam tão pouco, e muitas vezes de modo tão inapropriado. (...) Na verdade, queremos que ela seja inteiramente livre em seu terreno próprio, que consiste em julgar obras existentes, e não em divagar sobre a legitimidade de suas origens ou intenções. (...) Qual a utilidade, em suma, de atormentá-lo com o por que em vez de procurar por si mesmo o como, e assim estabelecer as razões de seu sucesso ou de seu fracasso? (...) Minha convicção é que o público sempre de mostra mais honesto em sua espontaneidade do que aqueles que se estabelecem oficialmente como juízes das obras de arte. (...) Tenho observado, em meu duplo papel de compositor e intérprete, que quanto menos o público estava predisposto favorável ou desfavoravelmente em relação a uma obra musical, mais saudável eram suas reações à obra, e mais propícias ao desenvolvimento da arte musical.

(...) Por que sempre falamos em música russa em termos de seu caráter russo, em vez de simplesmente em termos de música? Porque é sempre o pitoresco - os ritmos estranhos, os timbres da orquestra, o orientalismo, em suma, a cor local - o que atrai a atenção; porque as pessoas estão interessadas em tudo o que possa compor aquilo que se imagina ser o contexto russo: troïka, vodka, isba, balalaika, pope, boiardo, samovar, nitchevo, e até bolchevismo.


* * *

É necessário distinguir dois momentos, ou melhor, dois estados da música: música potencial e música real. Tendo sido fixada no papel ou retida na memória, a música já existe antes de sua performance efetiva (...) A entidade musical apresenta assim a notável singularidade de englobar dois aspectos, de existir sucessiva e distintamente em duas formas separadas uma da outra pelo hiato do silêncio. (...) O compositor corre um risco inegável a cada vez que sua música é tocada, já que, a cada vez, uma competente apresentação de sua obra depende de fatores imprevisíveis e imponderáveis, que se combinam para produzir as qualidades de fidelidade e simpatia sem as quais a obra será irreconhecível em determinada ocasião, inerte em outra, e, em qualquer situação, traída. (...) Obviamente, não é sem razão que os piores intérpretes normalmente se agarram aos românticos. Os elementos extramusicais espalhados através dessas obras são um convite à traição, ao passo que uma partitura na qual a música parece não expressar nada além de si mesma resiste melhor a tentativas de deformações literárias.

(...) O dançarino é um orador que fala uma linguagem muda. O instrumentista é um orador que fala uma linguagem não articulada. A um, como a outro, a música impõe um comportamento estrito. Pois a música não se move no abstrato. Sua tradução em termos práticos exige precisão e beleza: os exibicionistas sabem disso muito bem.






* * *

Infelizmente, ainda existe uma outra atitude em relação à música, que difere tanto da do ouvinte que se entrega à co-elaboração da música - participando do processo de criação e seguindo-o passo a passo - quanto da atitude do ouvinte que tenta docilmente caminhar junto à música: pois agora precisamos falar da apatia ou da indiferença. Esta é a atitude dos esnobes, dos falsos entusiastas que vêem num concerto ou numa interpretação exclusivamente uma oportunidade de aplaudir um grande regente ou um famoso virtuose. Temos apenas de olhar um momento para aqueles rostos "cinzentos de tédio", segundo a expressão de Debussy, para medir o poder que tem a música de induzir a uma espécie de idiotia aqueles infelizes que escutam sem ouvir. Aqueles de vocês que me deram a honra de ler as Chroniques de ma vie talvez se lembrem de que acentuo esse aspecto em relação à música mecanicamente reproduzida. A difusão da música por todos os meios possíveis é, em si mesma, uma coisa excelente; mas espalhando-a em todas as direções sem tomar certas precauções, oferecendo-a displicentemente a um público que não está preparado para isso, deixa-se esse público exposto a uma saturação mortal.

(...) Hoje, o rádio faz a música invadir os lares a todas as horas do dia ou da noite. Poupa o ouvinte de qualquer esforço que não seja o de girar um botão. Ora, o sentido musical não pode ser adquirido ou desenvolvido sem exercício. Em música, como em tudo o mais, a inatividade leva pouco a pouco à paralisia, à atrofia das faculdades. Entendida dessa maneira, a música se transforma numa espécie de droga que, longe de estimular a mente, só consegue paralisá-la e embotá-la. Assim, ocorre que o próprio esforço de fazer as pessoas gostarem de música, proporcionando-lhes uma oferta cada vez mais vasta, muitas vezes não faz senão essas pessoas perderem o seu apetite pela música para a qual se pretendia despertar o interesse e o gosto.






quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

T.O.C.

tenho mania de ler os meus textos traduzidos porcamente pelo google
rever possibilidades de interpretação
e significados ocultos

ouvir as minhas gravações aceleradas, ao contrário, do avesso
em outros tempos e outros tons
enxergar tudo por todos os lados

inverter os arquivos de imagem
as cores os traços
a figura e o fundo

pirar na gestaltung das minhas coisas
os universos paralelos possíveis

dimensões habitáveis inexploradas
diferentes, mas semelhantes
versões alternativas de ideias materializadas em algo
os dois, os vários lados da moeda

rever com o outro lado do cérebro
anagramas espelhados da minha própria criação

decifrar tudo
analisar
se o conteúdo permanece ou se esvai
sob outra perspectiva

e que novos sentidos emergem
na sopa de letrinhas
nas peças do quebra-cabeça

talvez daí minha necessidade 
de dar sentido às coisas
editar
montar ordens arbitrárias
procurar as ligações
ligar os pontos

quando eu era moleque tinha o costume
e talvez ainda tenha
de ficar repetindo as palavras, baixinho
ao contrário
letra por letra
das frases que ouvia
e que quase não falava, ocupado em que estava repetindo
e repetindo
e parecia que se eu parasse de repetir e inverter as letras
as sílabas
o mundo iria ruir,
eu mesmo iria
cair
romper
en trar trar rart em cri se cri irc se es

anos mais tarde, aprendi o dialeto
da turma
que consistia em inverter as sílabas
das palavras
a-ti-sis-con em ter-ver-in as bas-la-si
das vra-la-pas

mais uma regra para a minha obsessão

agora
vou rever
esse texto
ao contrário
e de cabeça pra baixo
travestido no google translator
em inglês francês e espanhol
quiçá em esperanto
toranpees
espanto
espeto
espelho
bedelho

a fonética das palavras também me atrai
magnética
uma palavra puxa
a outra
que puxa
a seguinte

requinte
requente
requebre
rebente
repente
relento
relato

a sequência resultante acaba contando uma história
involuntária

narrativas
de livre associação
como método científico e psicológico
diriam

mas aí acaba a graça

domingo, 1 de dezembro de 2013

todos na rua, 2ª edição




Para além do velho papinho de que não há espaço para se tocar no Rio de Janeiro, ou de que nada acontece fora dos parcos holofotes do independente legalizado e bonitinho new-mpb, ou do experimentalismo hermético (isso sem mencionar o samba, o mainstream-mainstream, o funk e o radinho de pilha), o Todos na Rua explora o caminho do meio e mostra a cara de uma cena rock quase invisível -  mas com fiéis apreciadores -, no Rio de Janeiro, sem o aval de ois efe-emes, deques discos, estúdios erre-jotas, circos voadores ou de pautas no segundo caderno (nada contra, não é esse o ponto).

A Transfusão Noise Records, em 10 anos de estrada e mais de 60 discos no catálogo - muitos deles inteiramente gravados no Interstellar Lo-fi, o lendário estúdio em um pequeno quarto em São João de Meriti -,  conta com uma infinidade de bandas em seu elenco e promove, nesse domingo, a segunda edição desse evento com palco ao ar livre e entrada franca. No melhor estilo faça-você-mesmo, independente de apoio governamental, de casas de show, patrocinadores, modinhas ou qualquer mídia tradicional; depende-se aqui, exclusivamente, das condições meteorológicas, da vontade do público, e do suor e equipamentos das próprias bandas. Na raça, fera. O evento traz muita música e boas vibes para os ares abandonados do domingo no Saara, pertinho da Praça Tiradentes.
Quem for, verá.




domingo
08/dez, 14h
Todos na Rua / Transfusão Noise Records
Rua Luis de Camões esquina com Gonçalves Lêdo
(próximo à praça Tiradentes)
Centro
Rio de Janeiro (RJ)




poética musical

Vivemos um período em que a condição humana passa por profundas transformações. O homem moderno vem perdendo progressivamente a sua compreensão dos valores e o seu senso de proporções. Essa inaptidão para entender realidades essenciais é extremamente séria, levando de modo infalível à violação das leis fundamentais do equilíbrio humano. No domínio da música, as consequências desse equívoco são as seguintes: por um lado, existe a tendência de afastar o espírito do que chamarei de alta matemática da música, de modo a degradá-la a uma utilização servil, de vulgarizá-la adaptando-a às exigências de um utilitarismo elementar - como logo veremos ao examinar a música soviética. Por outro lado, como o próprio espírito está enfermo, a música de nosso tempo, especialmente a música que advém de si mesma e que se crê pura, traz com ela os sintomas de um defeito patológico, e espalha os germes de um novo pecado original. (...)

Vamos lembrar o que está escrito: Spiritus ubi vult spirat (São João 3:8); "O espírito sopra onde quer". O que é preciso reter nessa proposição é sobretudo a palavra QUER. O espírito está, assim, dotado da capacidade de querer. O princípio da volição especulativa é um fato.

Ora, é justamente esse fato que se pretende agora contestar. As pessoas questionam a direção que o vento do Espírito está tomando, não a correção do trabalho do artista. Assim fazendo, sejam quais forem os seus sentimentos para com a ontologia, sejam quais forem as filosofias e as crenças que abracem, vocês devem admitir que estão realizando um ataque à própria liberdade do espírito - quer vocês escrevam essa grande palavra com letra maiúscula ou não. (...)

Seria bom observar que nunca há qualquer discussão quando o ouvinte extrai prazer da obra que está ouvindo. O menos informado dos melômanos apega-se de bom grado à periferia de uma obra; ela lhe agrada por motivos que, na maioria das vezes, são totalmente alheios à essência da música. Esse prazer lhe basta, e não demanda qualquer explicação. Mas caso aconteça de a música lhe causar desprazer, nosso melômano lhe pedirá uma explicação para o seu desconforto. Pedirá que expliquemos algo que é, em sua essência, inefável.

Pelo fruto nós julgamos a árvore. Julguem, então, a árvore por seus frutos, e ignorem as raízes. A função justifica o órgão, por estranho que o órgão possa parecer aos olhos dos que não estão acostumados a vê-lo funcionar. Os círculos esnobes estão recheados de pessoas que, como um dos personagens de Montesquieu, se admiram de que alguém possa ser persa. Eles sempre me fazem pensar na história do camponês que, vendo um dromedário no zoológico pela primeira vez, examina-o cuidadosamente, balança a cabeça e, já a ponto de sair, diz, para grande diversão dos presentes: "Não é verdadeiro".

É assim, através do pleno exercício de suas funções, que uma obra se revela e se justifica. Estamos livres para aceitar ou rejeitar esse exercício, mas ninguém tem o direito de questionar o fato de sua existência.

Igor Stravinsky, Poética Musical (em 6 Lições), Jorge Zahar, 1996; cap. 3, A Composição da Música.

domingo, 10 de novembro de 2013

FIQ 2013


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Parto essa semana para o FIQ 2013, em Belo Horizonte, representando a Beleléu junto com os amigos da Samba, Prego e A Bolha, na versão atual do já clássico estande DEPENDENTES. Procurem pelo brilho de neon vermelho (é sério!). De lançamentos, Friquinique e Baratão 66, para fechar o ano com chave de ouro e elevar nosso suado catálogo à décima primeira publicação. Vai ser bonito, e além disso, nossos amigos mineiros já preparam o concorrido baile dos dependentes deste ano, onde haverá, dentre outras coisas, uma possível aparição do excêntrico Jerônimo Johnson, diretamente de 2008.

Entre os dias 23 e 25 será a vez de lançarmos os livros em São Paulo (data exata a confirmar).
Stay tuned.