quarta-feira, 8 de julho de 2015

cinema


O MONSTRO DA LAGOA NEGRA (dir. Jack Arnold, 1954)

por Rubensvaldo Filho


Novamente o imperialismo vem dar as caras para tomar o que é nosso. A comitiva de cientistas americanos metidos a exploradores — e como —, invade a selva amazônica, em convênio com o Instituto de Biologia Marítima, apenas para causar o maior impacto possível ao meio ambiente. Uma escavação irregular — certamente em busca de minérios preciosos — desenterra o fóssil de uma espécie desconhecida, o possível elo perdido e ancestral anfíbio do ser humano. Movidos pelo prestígio que a descoberta causaria na comunidade científica do primeiro mundo, os americanos montam expedição para caçar seu último exemplar vivo. Contratam uma embarcação de pesca sem licença, cujo suspeito capitão se diverte em tocar o apito para espantar os animais ribeirinhos, e navegam rio adentro até o riquíssimo ecossistema onde vivem, além do espécime em questão, centenas de outras espécies não-classificadas pela ciência. Adentrando o habitat intocado, todos os guias indígenas são mortos de forma patética pelo ameaçado (e, por isso, ameaçador) "monstro", enquanto aos cientistas resta mergulhar na lagoa negra colhendo amostras geológicas e depredando a flora nativa. Ao se depararem com o triste animal, decidem envenenar a água — e consequentemente todos os peixes do local — para capturá-lo como prêmio. Enquanto isso, a mocinha contribui com o desastre ambiental atirando as bitucas de seus cigarros do barco. Após destruirem um dique de castores que represava o lago, os invasores perseguem o monstro até o seu ninho, alvejando-o em seguida com tiros de espingarda e levando, enfim, a raríssima espécie à extinção.




    Acima, o anfíbio antropomorfo ajuda a doutora Lawrence a se levantar
    Abaixo, os gananciosos cientistas capturam o espécime envenenado
    No fim, "o monstro da lagoa negra", uma espécie agora extinta





domingo, 10 de maio de 2015

a geração google não sabe
usar o google
é o que diz
a nova pesquisa do google

mas, por outro lado o google sabe
usar a geração google

e muito bem

segunda-feira, 20 de abril de 2015

o artista e a cidade

O artista e a cidade. Pois o artista, diferente do artesão concebido por Platão, não orienta seu trabalho em uma área limitada e definida, segundo o princípio inflexível da divisão do trabalho e do especialismo intransigente que inspira a cidade ideal. Mas, semelhante nisso a Proteo, muda constantemente de fazer, inclusive de ser, até o ponto em que pode definir-se como um indivíduo que pretende ser e fazer todas as coisas. Em razão dessa pretensão sugere o filósofo (Sócrates) sua expulsão da cidade, já que constitui um núcleo permanente de subversão na urbe em que cada indivíduo se acha submetido ao império de uma só atividade, de um só papel social, sem que lhe seja possível modificar essa fatalidade que o condena.
(...)

Apenas em uma cidade, não ideal como a platônica, mas real como a renascentista florentina, pôde-se pensar essa síntese em termos reais, de maneira que nela o artista passara a constituir a figura mesma do homem, o qual, semelhante a Proteo, aparece na filosofia da época como aquele ser que carece de identidade e essência definida. E que por essa razão pode construir, fazer, produzir consigo mesmo qualquer identidade. Na filosofia de Pico della Mirandola aparece implicitamente reintegrado o Artista na Cidade, alcançando-se assim uma síntese que em Platão havia sido cumprida em termos teóricos mas não em termos práticos.

Essa síntese tripla de Eros e Poíesis, de Alma e Cidade, de Arte e Sociedade, sugere assim uma ordem social em que todo homem é artista, e em consequência sujeito erótico e produtor ao mesmo tempo, sem que seja necessário então coroar essa ordem mediante uma superestrutura política e filosófica, desvinculada da base erótico-produtiva.

Quando essa síntese tripla se quebra aparece a esfera anímica desvinculada da esfera social, de maneira que Eros não se prolonga em produção nenhuma, de maneira que Poíesis não acha em Eros nem na Beleza seu princípio e seu fundamento. Surge então o Desejo, conceito moderno que implica essa prévia divisão traçada entre o subjetivo e o objetivo. Desejo o qual, ao não achar-se mediado com a Produção, perde também seu vínculo com o objeto que almeja, Bem ou Beleza. Essa perda faz com que o objeto que lhe é próprio apareça então como eternamente ausente e separado. Apenas mediante a dissolução do sujeito desejante - através da Morte ou da Loucura - resulta possível o reencontro do desejo com seu objeto. Correlativamente surge a Produção, conceito moderno que constitui o objetivo traduzido do Desejo. Essa Produção, esse Trabalho, ao perder seu vínculo com o fundamento, com o princípio, chame-se esse Bem ou Beleza, sofre destino análogo ao Desejo: se constitui em esfera autônoma e separada, sem vínculo com o mundo anímico do sujeito desejante. Em consequência, se torna uma esfera fundada em sua própria inanidade: produção que busca apenas a produção, precipitadamente e sem norte, achando-se nisto, igual ao Desejo, como último horizonte de sua busca também a Morte: horizonte de destruição e desperdício ao qual conduz a produção ensimesmada.

Eugenio Trías
El Artista y la Ciudad, 1976.

domingo, 18 de janeiro de 2015

via burocrática

A essa altura, já estará claro para o leitor que um carimbo com números e brasões tem o poder de oficializar qualquer coisa. Sendo datado, melhor ainda. Conforme o tempo que se tenha esperado na fila por ele, além, é claro, da quantidade de etapas percorridas no caminho e do montante de papelada preenchida — no máximo de vias possível —, valerá mais quanto mais difícil for obtê-lo.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

cocada preta




novo single do próximo disco do chapa mamba, a ser lançado muito em breve.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

MMXIV

BREVE RETROSPECTIVA DE 2014

Apesar de cansativo, 2014 foi um ano produtivo. Pude me dedicar um pouco mais à música (cumprindo a resolução do ano anterior), e lancei três discos do Chapa Mamba: o primeiro, auto-intitulado; Le Lab de Lux Sessions, um single gravado em Brasília; e Ipsilone, um split em vinil com a Treli Feli Repi; além de gravar o próximo disco cheio, Banda Forra, que sai em Janeiro. Criei o meu próprio selo, Chupa Manga Recs.; terminei a estréia do projeto Quadrúpede Orquestra, Esculpindo Vento, com meu amigo Mallogro; e lancei alguns trabalhos experimentais: One Band Man e Música de Computador vol.5.

Editei o livro Erre Balada do meu chapa Biu; o FIM de Rafael Sica; dois volumes do Claviculário; ganhamos um HQ Mix pelo Friquinique, do ano anterior; inauguramos a nova sede da Beleléu; publiquei as tiras do Recruta Zero para o Capitão América e seus Amigos; a série Cabeceira, para a Rocco; algumas tiras para a Revista da Cultura; terminei o único exemplar do livro A Humanidade É Um Bêbado Chato Que Não Vai Embora, em carimbo de tipos móveis; e voltei a escrever algumas coisas que se encaminham para um novo projeto.

Muita coisa por vir ainda, mas estamos aí.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

banda forra // teaser

Em janeiro tem disco novo do Chapa Mamba, assista o teaser!




Lançamento em Janeiro / 2015

Chupa Manga Records
chupamanga.bandcamp.com

Desenho | Fabio Zimbres
Animação | Stêvz


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

até o ano que vem

Plantado na fila do supermercado, meus pés começam a doer após algumas horas. A lista é curta, mas feriado de páscoa é assim mesmo, todo mundo comemorando, bacalhau em alta, chocolate por todos os lados. No segundo dia, já desidratado e com câimbras pelo corpo, me vejo forçado a consumir os iogurtes de banana do refrigerador ao lado. Envio uma carta para a patroa, avisando que irei chegar atrasado para a ceia de natal, e que cuide bem dos nossos filhos. Ela promete me visitar diariamente, mas isso não dura mais de algumas semanas. Já com meu endereço atualizado para "fila do caixa vinte e seis", seus cartões-postais começam a rarear e, por fim, cessam após três longos meses. Fico sabendo, depois, que se casou novamente e mudou para o interior. Ao completar o primeiro ano, tive de me ausentar, temporariamente, para trocar alguns itens que já estavam vencidos. Cinco anos depois, chega, afinal, a minha vez. A moça do caixa começa a empacotar as coisas, com muita eficiência, quando me dou conta de que esqueci as batatas.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

ipsilone

IPSILONE é o nome do split Treli Feli Repi / Chapa Mamba que vamos lançar agora em dezembro. São 3 músicas inéditas de cada banda, em um vinil 7 polegadas lindão, prensado na Polysom.
Esse é o primeiro lançamento em vinil do meu selo Chupa Manga Recs., criado esse ano.

Não é por nada não, mas dá um belo presente de natal. E já está a venda aqui!

O lançamento no Rio é dia 19/12, às 19h, no Escritório (Rua da Constituição, 64 - Centro)





Aproveitando, nosso primeiro disco foi citado nessas listas de melhores do ano:

As melhores músicas de 2014 - Amplificador / O Globo
Melhores álbuns de estréia - Amplificador / O Globo
14 Melhores discos nacionais do ano - O Inimigo / MTV


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Sendo Humano - Um Guia Para Visitantes

Cap.2 - Sobrevivência

O DINHEIRO

O dinheiro movimenta o mundo, disso não há dúvida. Sua força, aparentemente, suplanta a dos movimentos de rotação e translação da Terra combinados, colocando-o, virtualmente, no centro do nosso sistema planetário, quiçá universal. Comparado, no axioma popular, como equivalente ao próprio tempo, poderia mesmo tratar-se da quarta ou quinta dimensão, o que o posiciona mais no campo da física quântica do que da própria economia ou da fabricação de relógios.

Pode ser medido através de diversos e distintos mecanismos como a bolsa de valores, os índices de inflação e o preço do barril de petróleo, embora na prática seja de fácil compreensão: o dinheiro é uma espécie em extinção. Tende a desaparecer em questão de segundos de dentro do bolso das calças e da carteira do cidadão comum. Ou melhor, teletransporta-se em velocidade vertiginosa para os cofres das instituições bancárias multinacionais e para contas na Suíça ou nas Ilhas Caimã. Possui, está claro, propriedades magnéticas: muito dinheiro atrai mais ainda. Além disso, conclui-se que a bufunfa goste igualmente de esquiar nos alpes e de praias paradisíacas. Já de colchões velhos nem tanto.

Daí o velho e infalível ditado: “dinheiro não traz felicidade, manda trazer”.
Em todo caso, o fato é que sem dinheiro não se vive neste planeta. Então como consegui-lo? 
É o que veremos no capítulo a seguir.




A LOTERIA

Não é incomum, nos centros urbanos, observar a formação de aglomerações ordenadas sobre uma reta ou curva imaginária em convergência a certos estabelecimentos com guichês numerados, a maioria ostentando símbolos enigmáticos como trevos de quatro folhas ou ferraduras na fachada. A densidade destas aglomerações, invariavelmente, será diretamente proporcional ao número de zeros acumulados no letreiro da fachada, e o objetivo mais provável sempre o mesmo: fazer uma fezinha  embora nos dias iniciais de cada mês costume se somar aos boletos das contas de luz, água, telefone e crediário, dentre outras. Não à toa, mencionamos a estatística aplicada como fator fundamental para a compreensão do fenômeno observado em questão: contrariando a lógica pragmática, em uma extrapolação mesmo da mais otimista das probabilidades, os seres humanos apostarão, religiosamente, no jogo de azar institucionalizado e em suas variações  ora marginalizadas, ora elitizadas , seja através do jogo do bicho, do caça-níqueis, da sinuca, da porrinha1, dos cavalos, da roleta, da raspadinha, da rinha de galo ou do bolão da firma, dentre inúmeros outros exemplos, na tentativa ilusória de “se dar bem” e mandar o patrão2 definitivamente à merda. Nunca se sabe, vai que rola.

1. Por mais banal que possa parecer, e de fato o seja, a porrinha ainda causa reações coléricas que podem descambar para a morte aleatória, especialmente de não envolvidos, como se pôde notar pelo inexplicável caso ocorrido esta semana, em plena terça-feira,  no centro. Na tentativa de esfaquear o oponente, um mau perdedor foi impedido por um justiceiro anônimo que, não contente em interferir nos negócios alheios, terminou baleando um cliente do bar ao lado, que não tinha nada a ver com a história. O seu alvo, a salvo graças a essa “distração”, tenta fugir pulando do nono andar do prédio em que mora, sai ileso e é finalmente preso. O baleado morre, o esfaqueado vive e o justiceiro some. Fim.

2. Ver CHEFE.






O CRIME

Não demorou muito para um dos primeiros representantes da espécie humana constatar que poderia simplesmente tomar à força o que desejava de seu semelhante, instituindo assim o crime como prática ordinária já na pré-civilização. Na verdade, como é sempre o caso das vanguardas, o ato é criado antes de sua classificação. Levando isso em consideração, o crime como algo reprovável passa a existir no momento em que a primeira vítima resolveu ir à forra e tomar de volta o que era seu em primeiro lugar. Em plena evolução, e com assustadoras capacidades adaptativas, o crime tem se aprimorado e ramificado em categorias inesgotáveis desde então, com maior ou menor grau de sucesso.

Do humilde ladrão de galinhas ao batedor de carteiras, passando pelos colarinhos brancos, ilusionistas e tele-evangelistas, a lista se estende além da capacidade espacial deste guia, mas está claro que o crime pode ocasionalmente compensar. Que o digam os políticos de alto ou médio escalão, a portas fechadas, no pé do ouvido dos assessores, com um copo de uísque numa mão e uma maleta recheada na outra, não sem antes checar debaixo da mesa e atrás das cortinas do gabinete por grampos ou escutas telefônicas, naturalmente.

É claro que o crime nem sempre será utilizado com o intuito de se obter dinheiro mas, de qualquer forma, caso a fuga não seja bem sucedida, o resultado poderá ser o mesmo: a prisão.




A PRISÃO

ver ANEXO 1




A HERANÇA

Para se evitar aborrecimentos, o mais recomendável mesmo é já nascer rico. Como todo mundo sabe, dinheiro não dá em árvores, a não ser nas de tipo genealógico raríssimo e literalmente bem afortunadas.

Para a maior parcela da população, resta o trabalho.




O TRABALHO

Dizer que o trabalho dignifica o homem é, no mínimo, uma proposição incompleta. Seria preciso, antes de mais nada, definir de que homem estamos falando. Afinal, abre-se margem para interpretar que o autor do trabalho não seria, necessariamente, o dignificado, mas um segundo sujeito que se aproveitaria do esforço do anterior. E isso seria simplesmente inconcebível, não é mesmo? Provavelmente a vaguidade do termo  digno de quê? ㅡ acentue, propositalmente, o intuito manipulador do lema em questão. Ao não definir o sujeito de nenhuma das ações, cria-se uma polarização óbvia entre ambas: o trabalhador e o dignificado poderão nem sempre ser a mesma pessoa. Ao afirmar, ainda, que o trabalho (de quem?) teria o poder de, por si só, dignificar alguém, ignora-se a parcela de responsabilidade humana nesse processo, afinal só se é dignificado em relação a si mesmo ou a outrem, como forma de reconhecimento ou merecimento dentro de um sistema de códigos pré-estabelecido. Seria mais correto afirmar, pura e simplesmente: o trabalho paga o homem, ou ainda: o trabalho dá dinheiro ao homem. Ou deveria. Alguns mais, outros menos, é bem verdade, mas divagamos.

Caso você não se encaixe em alguma das categorias anteriores, certamente precisará de um. É de praxe começar com uma consulta minuciosa aos classificados do jornal do vizinho, de lupa e caneta em punho, tendo-se o cuidado de observar os requerimentos necessários a cada cargo e não deixando-se distrair pelos prognósticos horoscópicos do dia. Após algumas chamadas telefônicas, certamente se terá marcado uma entrevista, onde você demonstrará todas as suas capacidades e aptidões, obviamente muito acima das dos demais candidatos e de acordo com a posição disponível, seja ela qual for, e por mais desconfortável que pareça.




O (A) CHEFE

Caso a posição disponível não seja a de chefe, você certamente terá que lidar com um. O chefe é alguém que entende e sabe conciliar as necessidades da empresa com as dos funcionários, e coordena a linda coreografia dos cronogramas, prazos, metas e desafios que serão facilmente superados por todos, juntos, e depois remuneradas de forma generosa. 




ALTERNATIVAS

Visando a praticidade deste guia, providenciamos na lista a seguir algumas profissões de prestígio comprovado, para facilitar a escolha dos leitores e não despertar suspeitas:

Astronauta
Padeiro
Cientista Espacial
Advogado Criminalista
Médico Legista
Cargos Públicos (ver CRIME)
Dentista (ver INDO AO DENTISTA)
Auxiliar de Almoxarifado
Desenhista Industrial
Psicanalista
Alfaiate
Playboy (ver HERANÇA)


Tentamos generalizar, na medida do possível, mas o mercado de trabalho é mais amplo do que se imagina. O ser humano expandiu os seus conhecimentos e distrações a tal nível, que não seria exagero afirmar ser possível, hoje, inventar a sua própria profissão em questão de segundos.

Acima de tudo, lembre-se de que você sempre poderá se tornar o mais novo rockstar de fama internacional ou escritor de best-sellers renomado, tudo depende da sua insistência (e de alguns outros pequenos fatores sem importância em conjunção com a órbita solar e uns poucos cálculos elementares).


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ANEXO 1

Caso termine no xadrez, você provavelmente falhou no objetivo deste guia. Contrate um bom advogado, caso não seja um.




quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

lavando louça

Lavar a louça é uma tarefa doméstica corriqueira, a qual os seres humanos postergam na medida do possível e do limite de armazenamento da pia. Quando a situação torna-se enfim insustentável, é hora de arregaçar as mangas e enfrentar as pilhas de panelas, talheres, copos e potinhos de plástico engordurados com os restos das refeições anteriores e novas formas de vida em desenvolvimento e plena evolução. Certamente deve-se menos à diversidade gastronômica do que a esse momento, o advento dos restaurantes e tele-entregas. Porém, uma vez iniciado o procedimento, até que não é tão ruim. É possível observar o aguçamento das capacidades abstrativas, o que vem a calhar no desenvolvimento e prática de assobio solo. Deve ser isso o que chamam musa, ou inspiração: uma pilha de louça suja. Em devaneios profundos, gerados pela fricção espumante entre a bucha e os utensílios, tem-se relatado sistematicamente a criação de sinfonias, operetas e antologias completas de poesia altamente inspiradas, embora de qualidade questionável. Mas nem tudo são flores. Finda a sua execução, as travessas pingando sobre o escorredor, resta ao nobre cidadão pedir uma pizza pelo telefone e resignar-se com relutância, adiando o futuro inevitável da prataria reluzente.


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

complexo de épico*


Na noite da última quinta-feira, a sociedade carioca pôde deleitar-se com mais um espetáculo de altíssimo nível nos átrios do glorioso Theatro Municipal. E ponha alto nisso, como pude constatar empoleirado nos fundos da galeria. Se passei incólume à vertigem bamboleante da vista, o mesmo não se pode dizer do inevitável torcicolo provocado pelo ângulo agudo em declínio. É estranho que se reservem assentos tão desconfortáveis para a tribuna de honra, mas talvez não tenham me reconhecido. No convite constava, erroneamente, o nome de um tal candidato a vereador, mas o equívoco parece ter se estendido a todos os presentes. Achei mesmo curioso que se estivessem distribuindo as entradas na porta do teatro, justo enquanto eu passava, coincidentemente, de fraque e cartola, a caminho da lotérica.

Mais uma vez, o majestoso palco do Municipal esteve repleto de boa música. A sinfônica, tão logo pôs-se em seus lugares, tratou logo de improvisar uma curiosa peça dissonante enquanto o regente não chegava. A obra, de extrema vanguarda, causou-me profunda comoção intelectual especialmente pela inserção da pulsante ala de celulares em uníssono, estabelecendo de vez o vínculo muitas vezes subestimado da música erudita com a pós-modernidade. Finda a precisa execução, mal pude me conter e saudei a platéia com um bravo! inevitável. A beleza da música contemporânea, sem dúvida, está na sua imprevisibilidade; no uso dos timbres, texturas e contexto espacial como elementos indissociáveis da obra.

Curiosamente, o programa não revelava a autoria da magistral composição. Tampouco constava no menu de canapés do intervalo. Pensando neles, preparava-me para levantar quando o maestro resolveu aparecer, provavelmente atrasado devido ao demorado processo de afinação da batuta. Retornei ao assento no momento em que seus braços descreviam uma parábola perfeita e vigorosa rumo às primeiras notas, como só se vê nos profissionais mais tarimbados e de excelência incontestável. Infelizmente era visível, além da reluzente coroinha, a absoluta miopia do nobre regente, que, para conseguir reger a obra, teve de ter a pauta soprada pela senhora de binóculo da terceira fileira. Nesse morno quase-andante do século dezenove, só não me tornei mais entendiado do que o abatido timpanista, que trocava mensagens com o segundo violino enquanto não chegavam os dois últimos compassos. O marasmo do clássico revisitado foi salvo pela excelente participação em tosse-solo do senhor da décima quarta fileira, impecavelmente afinado ㅡ embora a cada movimento o autor provavelmente se revirasse na tumba. A escolha do repertório revelou-se um tanto quanto eclética, atravessando períodos distintos da história musical e culminando no ronco atento do meu estômago, em aprovação à alta cultura a que fora submetido ㅡ em côro com o ronco da velhinha ao lado, sem dúvida pelo mesmo motivo.

Em poucas horas, o rangido das cadeiras e uma selva de palmas anunciaram o fim de mais um espetáculo sublime, ao qual o público seguiu para o Salão de Selfies e posteriormente para as carruagens coletivas da Praça Floriano. 

*

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

nota de rodapé


1. Não demorou muito para que a tecnologia evoluísse até o ponto dos implantes cerebrais. O novo iBrain trazia não apenas atualizações automáticas ㅡ para não dizer obrigatórias ㅡ a cada 15 segundos, como passou a vir instalado de fábrica em todos os bebês a partir da geração Z, incluindo um manual de instruções e termo de adesão em nanotipografia. Provia acesso ilimitado a todo o acervo musical, pornográfico, literário, científico e meteorológico da humanidade ㅡ mediante cobrança imediata em cartão de crédito, naturalmente. Os algoritmos não ficaram pra trás: todo o conteúdo disponibilizado era previamente calculado de acordo com o perfil socioeconômico, cultural e ontogênico dos usuários. De forma imperceptível, seus feeds pessoais e prováveis interesses passaram a ser gentilmente sugeridos a cada piscar de olhos, embora a tênue linha entre a sugestão e a imposição fosse cada vez mais desfocada. Não que alguém se importasse com isso. Conveniência acima de tudo, convenhamos. “Keep it greasy, so it will go down easy”, já dizia aquela canção. Mas como o sistema funcionava, na prática? Digamos que você passaria a gostar de música pós-pop industrial-eletrônica sem saber porque, mesmo sempre tendo sido um fervoroso ouvinte de tangos e boleros. Quando menos percebesse, estaria assobiando o último e recém-lançado sucesso das paradas, talvez perguntando-se inconscientemente “de onde eu conheço essa merda?”, e sendo cobrado por isso. Aquela música grudenta, que não saía da cabeça por nada, não apenas tocava em intervalos programados ㅡ intercalada com a sua programação pessoal, o que provia a sensação ilusória de controle e liberdade totais ㅡ, como passava a influenciar, de fato, os seus gostos e decisões. O novo sistema de Mind Royalties provou-se o mais eficiente modo de cobrança e fonte de receita para a indústria musical desde a invenção do tonalismo, mas felizmente não duraria muito, como veremos a seguir.



sexta-feira, 19 de setembro de 2014

quadrúpede orquestra - esculpindo vento



disco novo de canções velhas, gravado ao longo de 3 anos em encontros esporádicos com meu chapa pâncreas em brasília. 10 faixas, 24 minutos. se preferir, ouça aqui.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

a curiosidade matou o fato





i.
“Para presidente, vote Agnaldo Taumaturgo”. À primeira vista, nada muito original, é bem verdade. Mas ao longo (sic) dos seus 4 suados segundos no horário eleitoral, a única e curiosa proposta foi se revelando, no mínimo, inovadora. “Eu tenho um segredo”, dizia, “O maior dos segredos, a verdadeira solução para os problemas do país”. Era preciso, naturalmente, dizer tudo muito rápido. Praticamente cuspir as palavras para caber no curto espaço de tempo do quadro, o que a princípio apenas provocou, após a mais absoluta indiferença, uma estranheza momentânea nos lares da classse média. “Foi isso mesmo que eu ouvi?”, perguntariam-se as donas de casa entre uma garfada e outra do jantar, ao que os maridos provavelmente responderiam “Isso o quê? Passa o sal”, e assim em diante. Mas o incrível poder da repetição, aliado à simplicidade do discurso, bastaram para despertar a atenção e conquistar aos poucos, se não a confiança, a curiosidade dos eleitores para com o extravagante candidato. Sorrateiro como uma mensagem subliminar ― uma pérola bruta incrustada em pleno horário nobre, espremida entre os gigantes de campanhas multimilionárias e superproduzidas ―, seu exótico lema foi repetido à exaustão, a cada dia provocando o arquear de mais sobrancelhas incrédulas.

Talvez o aumento significativo e meteórico da sua popularidade deva-se ao fato de que Agnaldo não revelava, de jeito nenhum, do que afinal se tratava o tal segredo, o que inquietava a imaginação das pessoas ― graças ao desejo de desfecho narrativo, incontrolável no ser humano, como atestará a literatura psicológica em prosa e verso ao longo da história. Seu plano de governo trazia apenas algumas poucas linhas onde anunciava o misterioso conhecimento, que a tudo resolveria, e só poderia ser desvendado após o pleito. Curiosidade popular, aos poucos começou a despontar nas pesquisas, com 1% das intenções de voto, e em ritmo vertiginoso escalou os gráficos, estatísticas e margens de erro deixando estupefatos mesmo os mais calejados coordenadores de campanha e marqueteiros. 




ii.

Mas quem diabos era Agnaldo Taumaturgo, o leitor certamente estará se perguntando, como também o fizeram as manchetes vespertinas e posteriormente seus próprios oponentes, ambos sem muito sucesso, ao perceberem a irritante existência do seu nome nas pesquisas. Na tentativa desesperada de levantar qualquer suspeita quanto à sua imaculada índole e candidatura, após o inesperado e curioso bordão cair no gosto popular, apelaram para um único caso de suspensão no colégio Benedito II, durante o quinto ano colegial, por conta de um mal-entendido na aula de educação física. Foi o melhor que encontraram para tentar manchar a sua imagem, mas o suposto escândalo provou-se de ineficácia completa. Solteiro, de meia idade, nascido e criado em Piraçungatininga, arquivologista de formação e sem qualquer trajetória política, era ao menos de se admirar a ousadia ― ou completa ingenuidade ― daquele homem, que há poucos meses inscrevera-se por correspondência no recém-criado Partido Horizontal Brasileiro, de absoluta inexpressão no cenário nacional, e cuja única norma explícita era a descentralização total e ausência de hierarquia dentro de seu quadro ― mas que apesar dos comentários irônicos quanto ao amadorismo político praticado por sua pífia militância, atraía alguns simpatizantes graças ao slogan involuntário “Deitado eternamente em berço esplêndido”, estampado em uma matéria pouco lisonjeira do semanário humorístico Seja, quando de sua fundação (do partido, não do semanário). O vice de Agnaldo, sorteado dentre os afiliados, não se mostrava mais esclarecido quanto ao possível conteúdo de suas propostas. “Eu também não sei do que se trata, mas apóio”, era o seu tímido posicionamento.



iii.
Conforme crescia nas pesquisas, foi tachado de charlatão, louco, mais um querendo aparecer, um palhaço gozando das instituições e do sagrado exercício democrático ― para ficar nos títulos mais amenos ―, mas não se deixava abalar e persistia repetindo o mantra “Meu segredo irá resolver tudo, não se preocupem”, o que não convenceu o âncora encarregado das perguntas na primeira entrevista para um noticiário televisivo, que, a princípio jocoso ante o singelo candidato, foi se tornando visivelmente irritadiço e contrariado como uma criança birrenta, após as evasivas de Agnaldo, que a tudo respondia com a mesma ladainha, como uma criança sapeca que inventa as regras do próprio jogo e acredita, de fato, na sua imaginação. Tampouco ganharia a confiança dos conglomerados e multinacionais, dos banqueiros e grandes financiadores de campanhas, ou dos setores conservadores em geral. Tentando desgastar a sua imagem, já exaustivamente ridicularizada internet afora e jornais adentro, a grande mídia esperneou mas foi obrigada a constatar sua impotência perante a ascensão meteórica da campanha de Agnaldo. Com a súbita exposição, ele apenas subia mais e mais nas intenções de voto, e já praticamente empatava a disputa com o candidato favorito. “Muita saúva e pouca saúde mental”, atacavam os editoriais.

Porém, mesmo rechaçado nas publicações especializadas, meios acadêmicos e veículos de comunicação internacionais, ou talvez devido a isso, criou-se uma espécie de mitificação em torno de sua figura que envolvia, sem exceção, dos mais esclarecidos cientistas políticos às velhinhas nas filas de supermercado. Todos queriam saber o que diabos, afinal, era o tal segredo tão bem guardado e exaustivamente repetido, que, apesar de única proposta e promessa de campanha do candidato, não podia ser revelado até a definitiva apuração dos votos. Agnaldo não atacava ou defendia coisa alguma, e era visto com desconfiança tanto pela direita quanto pela esquerda, de leste a oeste e outros pontos cardeais. Mas seu rosto estampava inúmeras camisetas e gifs animados, com todas as especulações possíveis, pastiches, exageros e suposições relacionadas à sua solucionática misteriosa. Tornou-se um ícone pop de influência incontestável, porém continuava reservado e low-profile a ponto de sequer contratar um assessor de imprensa ou uma dupla de guarda-costas. Não possuía conta em twitter, linkedin ou qualquer rede social relevante, mas proliferavam os memes a seu respeito. Amontoavam-se as conjecturas em torno do misterioso segredo, desdobrando-se em teses e tratados. Nem todos compraram o apelo fácil do seu discurso, é claro: cautelosos, os formadores de opinião opinavam, os analistas analisavam e os comentaristas comentavam. Nas ruas não se falava em outra coisa.

Durante o debate final, Agnaldo foi o único alvo de todos os candidatos e entrevistadores, que deixaram de lado até mesmo as denúncias de corrupção no governo atual ou os escândalos envolvendo a fábrica de salsichas de um dos candidatos da oposição, na tentativa de escrutinar-lhe definitivamente a retórica, mas perdendo-se, naturalmente, na sua própria, da qual transcrevemos o seguinte trecho:


[Candidato 1]: O Senhor está ciente de que um governo se faz com propostas e ações, não apenas com promessas vazias como esse suposto “segredo milagroso” que o senhor sequer tem a coragem de revelar, para devida análise de especialistas financeiros e da sociedade em geral, como o fizemos minha equipe e eu desde o princípio de minha carreira política há 45 anos, sempre às claras e jamais desamparando a pobre Dona Cotinha que não tem dinheiro para comprar os seus remédios de memória?


[Agnaldo]: Sim.


[Candidato 1]: Eu nunca roubei ou pratiquei qualquer corrupção fora do aceito socialmente, fui sempre fiel aos meus eleitores e seus votos, e agora venho ser ameaçado por um populista apelativo, de inexperiência política comprovada e que sequer realiza comícios em qualquer região devastada pela seca ou distribui uma cesta básica como prova de boas intenções. É por isso que o país encontra-se afogado na dívida externa e nos casamentos sem marcha nupcial, o que no meu governo não será admitido sob hipótese alguma. Obrigado.


Demonstrava tamanha calma nas réplicas e originalidade em seu modus operandi, que seria uma tarefa praticamente impossível desacreditá-lo. Trazia na ponta da língua a resposta que a tudo resolveria, no seu devido tempo, sem maiores explicações. A crise do petróleo, os índices de desemprego, a dívida externa, a saúde, a educação e os direitos civis, não havia tema que o abalasse e que não pudesse ser perfeitamente solucionado no seu mandato. Por mais que os outros o pintassem de fanático ou lunático, também era carismático, passava mesmo uma boa impressão. Era o tipo de senhor que conquistava a simpatia das tias beatas da gente, sempre muito educado e sereno, mas deliciosamente enigmático.

iv.
No dia das eleições, o povo compareceu em massa. Compelidos pela possibilidade assustadora de não saber o final da história, os votos registraram um recorde em número de nulos e abstenções próximo do zero. A boca de urna ainda tentava dissuadir os curiosos, mas à boca pequena comentava-se com entusiasmo por todos os cantos: “Finalmente vamos saber que merda de segredo é esse”. O desfecho ocorreu como antecipado: o único candidato que não fizera comícios, passeatas ou corpo-a-corpo, que não beijara bebês alheios nem imprimira um santinho ou outdoor sequer, havia sido eleito. Toda a sua divulgação tinha se dado espontânea e gradativamente, aquecida pelo rebuliço em torno do misterioso segredo que seria agora, enfim, revelado. Elevado ao cargo máximo da nação pela curiosidade mórbida do eleitorado, Agnaldo tinha o mundo a seus pés. 

Após a cerimônia de posse, à qual compareceram as mais distintas autoridades, penetras e corpos diplomáticos, o novo presidente agendara um pronunciamento oficial, onde esperava-se que pusesse um fim aos altos índices de inquietação e coceira auricular da população, botando a boca no trombone e contando, de uma vez por todas, tudo o que guardara para si durante os meses de campanha certamente por estratégica cautela, devido ao magistral poder transformador que a revelação acarretaria. Instituiu-se feriado nacional, enquanto a população se voltava para os televisores e rádios de pilha, à espera do grande momento. 

v.
À hora marcada, Agnaldo subiu ao pódio, devidamente enfaixado com os louros presidenciais. Trazia uma chama no olhar como antes não se havia notado, e poderia se dizer que caminhava com extrema convicção, aqueles poucos mas intermináveis passos. “Prezados cidadãos e cidadãs”, começou, “a voz do povo é a voz de Deus, embora ele não exista. E Deus, digo, o povo clamou por mudança, por novos ares, ao me eleger a este nobre cargo. Não os decepcionarei, vou lhes contar um segredo”. O silêncio mais profundo tomou conta do país, enquanto milhões de pessoas prendiam a respiração. O que se sucedeu certamente constará nos livros de história: Agnaldo colocou a mão no bolso interno do paletó e puxou pelo rabo, de sopetão, um longo e lustroso surubim-chicote, prosseguindo a batê-lo repetidamente contra o palanque, aos gritos de “Esse aqui é o segredo, a solução de todos os nosso problemas!”. Trazia o semblante transfigurado, os dentes à mostra, e continuava: “Obrigado pelos votos! Agora tudo será solucionado, seremos a nação mais próspera da Terra, quiçá de todo o sistema solar!”. O público assistia estupefato, mas a cena não durou muito. Após o choque inicial, foi uma questão de segundos até que os seguranças recolhessem o líder transtornado dos holofotes, os assessores tomassem o seu lugar com explicações improvisadas, a polícia fosse acionada e todo o governo tentasse conter a situação ― o que, obviamente, não foi possível. Houve revolta nas ruas, saques e vandalismo. Atearam fogo à bandeira nacional e tentaram invadir o palácio, para realizar o derradeiro golpe de estado que extinguiria todas as instituições. O exército, a marinha e a força nacional, a duras penas, contiveram o levante. Mal se havia dissipado as nuvens de gás lacrimogênio, todos clamavam pelo impeachment, linchamento e execução sumária de Agnaldo. Achou-se mais prudente que fosse apenas afastado do cargo e encaminhado a um hospital psiquiátrico de localidade desconhecida, enquanto o vice assumiria o governo e tentaria acalmar os ânimos gerais, já absurdamente exaltados. A oposição insistiu em que fosse investigado o peixe e sua procedência, ao que se instaurou a famigerada CPI que duraria aproximadamente quatro anos, sendo posteriormente abandonada sem chegar a conclusões definitivas. 

Apesar das adversidades, fugas de investidores e quedas vertiginosas na bolsa de valores, o vice prosseguiu com o mandato, morno mas sem maiores problemas. Inaugurou os monumentos de praxe, compareceu às reuniões internacionais, beijou as mãos certas e gastou mais da metade do orçamento federal em publicidade pós-traumática, tudo para recuperar a auto-estima e o orgulho feridos do país (Chegou-se mesmo a reparar parte do dano, retratando Agnaldo como visionário incompreendido, e instituindo-se o surubim-chicote como prato simbólico nacional, aumentando consideravelmente o volume de exportações e a pesca esportiva dessa espécie). Ao deixar o cargo, lembraria que “abandonar a vida pública é um exercício de desapego”, e sua estátua ainda orna a praça central de Jabiratininga do Sul, sua terra natal, servindo de descanso aos pombos e pano de fundo aos selfies dos namorados em noite de São João.


vi.
Era novamente ano eleitoral, e, tão logo teve início a disputa, percebeu-se imediatamente o aumento significativo de candidaturas e partidos. Após a dissolução do PHB, os tribunais registraram alta de 254% nas inscrições de novas entidades e número recorde de filiações aleatórias. A propaganda eleitoral já tomava o horário nobre, e não se podia deixar de reparar no discurso familiar da maioria dos candidatos: cada um anunciando uma solução mais secreta e misteriosa que a outra para os problemas do país.




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Nota: Este conto não se trata de referência direta à atual conjuntura, tampouco análise ou especulação política de qualquer forma - embora eventuais semelhanças com a realidade possam vir a ocorrer, intencionalmente ou não, devido à peculiaridade intrínseca dos processos político-sociais e, porque não, humorísticos, do nosso país. Assume-se, aqui, o direito de livre-associação, licença poética e divagação imaginativa pura e simples, a nível de exercício literário individual e indissociável da obra do autor como um todo. Resumindo, isso aqui não passa de ficção. Não chega nem perto da realidade, naturalmente.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

indo ao dentista

Ir ao dentista é mais uma pequena experiência em que se deve participar esporadicamente para compreender por completo o escopo do ser humano. Trata-se não apenas de um doloroso – e caro –, mas entediante processo ao qual esses comparecem em troca de não passar o fio dental todo santo dia.

Para se ir ao dentista, primeiro é preciso passar por uma salinha pequena e de decoração duvidosa, com uma televisão ligada em algum canal chato e revistas velhas e amassadas de fofoca ou semanários de direita amontoadas dentro de uma cesta ou sobre uma mesinha baixa, ao lado de um sofá desconfortável. Deve-se sentar com estranhos no sofá, em silêncio constrangedor e evitando contato visual – para evitar suspeitas quanto à sua procedência geográfica ou preferência política –, e dirigir-se apenas à senhora do outro lado do balcão, também no recinto, que se encontrará lendo algum livro de auto-ajuda ou pintando as unhas enquanto atende ocasionais telefonemas.

Após um período que pode variar entre trinta e noventa minutos, em média, ao qual os pacientes vão entrando e saindo do consultório, se é chamado e deve-se largar, educadamente, o artigo sobre as férias da atriz da novela na Riviera francesa pela metade em cima do sofá, levantar-se e andar até a porta, onde o doutor (ou a doutora) estará nos esperando com a mão fria e macia estendida e um sorriso, ironicamente amarelo, no rosto. Após breves cumprimentos e saudações, ele (ou ela) nos guiará à cadeira odontológica e sua assistente (geralmente ela), à qual ainda não fomos sequer apresentados, irá prontamente se encarregar dos acessórios da sessão, a saber: um babador de criança, um guardanapo e um sugador de saliva com motorzinho. Não é preciso estranhar os objetos empregados neste tipo de ritual, que poderão ainda compreender uma escarradeira de platina, um espelhinho curvo e – caso você esteja sem sorte – uma broca de tamanhos variáveis. A partir desse ponto, reaja normalmente. Não é preciso conter os gritos e as contorções, já que o doutor e a sua assistente são profissionais tarimbados (espera-se) e estarão acostumados aos pacientes mais dramáticos. Deixe-os trabalhar e abstraia eventuais sangramentos e injeções.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

chupa manga records

quinta-feira, 31 de julho de 2014

elevadores


Para evitar a fadiga, o ser humano eventualmente desenvolveu um mecanismo destinado a substituir as arcaicas “escadas”1 nos edifícios de mais de dois pavimentos. Trata-se de uma micro ecossistema suspenso no ar por cordas de aço, em sistema de contrapeso, para elevação vertical mediante operação de botões e interação social indesejada. Dito assim, soa complicado, mas o procedimento é simples: apertar o botão, esperar o elevador, aguardar a porta se abrir e as pessoas saírem, entrar, descobrir o andar no painel, apertar-se no recinto com um punhado de desconhecidos, evitar puxar assunto, suar frio, observar o itinerário indicado no visor, torcer para o elevador não quebrar, pedir licença para passar quando chegar a sua vez, desviar dos passageiros no sentido contrário e desembarcar são e salvo alguns metros acima ou abaixo do ponto de partida, de preferência no andar certo.

1. Devidamente decifradas pelo teórico J. Cortázar, no tratado "Instruções para subir uma escada" (1964)

segunda-feira, 21 de julho de 2014

auto-arqueologia sonoro-biográfica


Por muitos anos gravei obsessivamente horas e horas de música, idéias, ensaios, conversas de bar e ruídos em geral, em fitas k7 raramente rotuladas e posteriormente esquecidas no fundo de uma gaveta. O surrado AIWA TP-VS470 resistiu bravamente até o fim de 2013, quando foi aposentado por invalidez. Nesse meio tempo, arquitetei diversas tentativas de formar bandas (algumas, de um dia só), que criaram repertório, em maior ou menor grau, e fizeram parte da minha formação e aprendizado na arte de tocar com outras pessoas - contraponto ao apreço pela solidão e isolamento. Uma dessas tentativas eventualmente se tornaria o Chapa Mamba, outras transmutaram-se em projetos paralelos, e a maioria ficou apenas na lembrança e nesses pobres registros resgatados de HDs antigos - por vezes apenas fragmentos e cortes arbitrários, de baixíssima fidelidade.

Contexto é tudo. São gravações precárias de performances por vezes inseguras, obviamente de alto valor sentimental, mas que também demonstram a vontade e urgência juvenis depositadas em milhares de ensaios, encontros, tentativa e erro de se criar algo único. Essa seleção traz algumas composições que em algum momento foram importantes para mim, e que de alguma forma atingem memórias nostálgicas de uma cena imaginária da qual fizemos parte. Talvez não interessem a mais ninguém, mas propus a mim mesmo reavaliar esses arquivos com ouvido crítico, apenas para constatar que sim, havia algo latente ali, de alto potencial, algo que espero continuar desenvolvendo enquanto puder.

Obrigado Paulo Mello, André Borges, Guilherme Souto, Yuri Mello, Daniel Guedes, Endrigo Bastos, André "Pâncreas" Campos, Iano Fazio, André Costa e Bruno Lima por terem tocado comigo nessas faixas, desculpem expô-los dessa forma. (Éramos jovens e inocentes, é a desculpa perfeita.) Obrigado aos outros amigos que infelizmente não apareceram nessa tosca seleção.




ONE-BAND-MAN (2005 - 2012)

A
de ontem em diante o amanhã é hoje
dança do intestino
passarinho
flauta doce *
quem não chora não mama
aquela do três-três
a vida é bélica *

B
pássaro de fogo
a propaganda da televisão *
metal
quem não chora não mama
orangotango-marimbondo
dança do destino
o fantasma da máquina
quem não chora não mama

Gravado em cassete, exceto quando indicado (*)




quarta-feira, 9 de julho de 2014

parada gráfica 2014

Estarei em Porto Alegre no fim do mês, para participar da Parada Gráfica, que acontece no Museu do Trabalho nos dias 26 e 27 de julho. O frio deve estar de lascar, mas faz tempo que quero conhecer a cidade, habitada por monstros como Fabio Zimbres e Rafael Sica, só para citar dois.






Além do material da Beleléu, dividiremos a mesa com o Selo Rabanete, da Clara, e daremos uma oficina de quadrinhos no domingo. As inscrições estão abertas e a oficina, assim como o evento, é gratuita.



Pra completar, toco com o Chapa Mamba na festa de abertura, no sábado! Barba, cabelo e bigode.
Mais informações sobre isso em breve.


PARADA GRÁFICA 2014
@ Museu do Trabalho
26 e 27 de julho

+infos
paradagrafica.tumblr.com
fb.com/aparadagrafica