sexta-feira, 24 de outubro de 2008

gaveta

Encontrei aqui esse texto, feito prum extinto concurso da extinta "bizz". Se não me engano, o tema era "música e tecnologia". Relendo agora, onde é que eu estava com a cabeça?

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..Desde que o homem descobriu o fogo, sua vida e a arte que a imita nunca mais foram as mesmas. Depois inventaram o palito de fósforo e, consequentemente, a caixinha de fósforo. Aí nasceu o samba, mas essa é outra história.
..Desde que acendeu-se a lâmpada elétrica na cabeça de Thomas Edison e ele girou os cilindros da repetição em nem-tão-alto nem-tão-bom som para todos os ouvidos, a música nunca mais foi a mesma. Em pouco mais de um século, a revolução tecnológica da captação, armazenamento e transmissão de ondas sonoras talvez tenha mais importância do que o próprio desenvolvimento do tonalismo. Podemos sentar-nos no quarto barato de hotel ouvindo o blues de Robert Johnson executado por ele mesmo. Embebedarmos-nos ao tango de Gardel ou do bandoneón de Piazzolla. Amar a voz sussurrada da Billie Holiday no pé do ouvido ou, vá lá, balançar o esqueleto e cantar junto com os garotos do Dominó. Podemos conhecer os sons folclóricos mais remotos do Brasil recolhidos por Mário de Andrade. O que de certa forma democratiza o acesso à música popular não-escrita, desnecessária que se torna a presença física do autor. Aquela performance mágica, única, beirando a perfeição pode ser gravada e reproduzida quantas vezes o ouvinte desejar. O que às vezes torna eventuais erros parte integrante e inseparável da composição!
..A tecnologia nos permite ouvir melhor. Que o digam os amplificadores, captadores e microfones. A tecnologia de gravação do último século até hoje permitiu, ainda, uma mudança na forma de se pensar e executar música. Os overdubs tornam possíveis, por exemplo, discos inteiros em que uma só pessoa toca todos os instrumentos. Além de outras infinitas possibilidades. O advento do som estéreo e, mais recentemente, surround modifica totalmente a percepção da obra pelo ouvinte. O que nos leva à obra. Nascida com o tonalismo, tira a música dos rituais modais percussivos e vocais para as salas e câmaras de concerto. Transforma a música em material de consumo, como a tela leva a pintura para as paredes das salas de jantar e museus. O fonograma é a tela da música a partir do final do século XIX. E o disco, nosso velho conhecido, sua moldura. Como já dizia o Zappa: “A moldura é a coisa mais importante na arte. Sem ela não de pode saber aonde termina a arte e começa o mundo real. Você precisa colocá-la numa caixa, senão: ‘Que merda é aquela na parede?’ ” A tecnologia disponível pode modificar a forma de se criar e executar música de diferentes maneiras, seja permitindo novas possibilidades de timbre, de aprendizado e acesso, operação manual, ou simplesmente de marketing.
..O computador pode executar música impossível com sons inexistentes na natureza com extrema precisão e repeti-la quantas vezes necessário. O ser humano pode criar música incrível no computador, ou simplesmente lixo. O computador não cria nada sozinho. O ser humano pode usar a internet para aprender a receita de uma torta de maçã ou aprender a fabricar uma bomba caseira. Porém, se tudo isto está lá, é porque alguém botou. Podemos utilizar a internet para conferir o resultado da loteria e do bicho, aprender outra língua, ver as pirâmides do Egito, ou procurar material de zoofilia necrófila homossexual. Encontrar o último sucesso do Zeca Baleiro, a composição da banda de speed glam metal dum camarada do sul do Nepal, ou aquela gravação rara do “Concerto nº13 Em Sol Menor Para Bicicleta” executada pela Filarmônica Real de Maracangalha.


Sugestões de leitura e audição sobre o tema:
O SOM E O SENTIDO, do brasileiro José Miguel Wisnik.
A PIOR BANDA DO MUNDO, história em quadrinhos do português José Carlos Fernandes.

EDISON MUSEUM: http://www.nps.gov/archive/edis/edisonia/sounds.html

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