quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

textos abortados

..Era um radiologista odontológico tarado e perfeccionista. Na verdade fotógrafo frustrado, agora contentava-se com o alinhamento adequado, o enquadramento perfeito e a exposição da chapa na medida pra ninguém botar defeito. Mas talvez tudo não passasse de balela. Desculpa pras sessões incessantes radioativas intermináveis com os pacientes inocentes mais dentuços. Excitava-se pra valer com os caninos e incisivos superiores, quase babava com os pré-molares da direita, e quando aparecia algum siso intrometido protuberante aí nem se fala.

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..Os mosquitos devoram os meus pés. Respiro com dificuldade, talvez por causa da grossa camada de poeira acumulado no pequeno cômodo ao longo dos anos. Os dias são quentes, as noites são frias, às vezes o contrário. Já eu sou sempre o mesmo, calado, asmático, coçando as feridas. Não me lembro quando foi a última vez em que pus os pés, picados de mosquito, na rua. Me lembro da partida final do campeonato belga, 1985. Não que estivesse lá, não estava, mas é a única coisa que passa nesta tevê velha, a qualquer hora, em todos os canais. E após tanto vê-la e revê-la em todos esses anos, perdeu para mim toda a surpresa da caixinha, a imprevisibilidade tão peculiar ao jogo da bola redonda, abrindo-se numa nova perspectiva analítica, não menos fascinante. Parece-me, hoje, mais próxima de uma obra de arte apagada pelo tempo, como um quadro velho pendurado na parede sem muito cuidado.
..Me foi mesmo possível apreciá-lo, após tanto tempo de observação, como um preciso jogo de xadrez, minuciosamente planejado pelos brilhantes técnicos das duas equipes, Mr. Houlot e Mr. Poirot, apesar de tratar-se de uma pelada das mais vulgares e desengonçadas, sem muito perigo de gol para qualquer dos lados, terminando em vergonhoso zero a zero que é decidido nos pênaltis quando a pelota acerta a trave esquerda do goleiro Mr. Abajour na terceira cobrança do Esportivo Rendezvous pela canhota do mexicano Hernandez, naturalizado belga, que na verdade estava no banco e só entrou nos minutos finais do segundo tempo.
..Com o passar dos anos, fui mesmo perdendo por completo o interesse no jogo em si, passando a me concentrar em uma pessoa por vez, analisando assim cada um dos jogadores, treinadores, comissão técnica, gandulas, bandeirinhas e metade dos 354 pagantes de ambas as torcidas, que são os que aparecem no vídeo. Fiquei mesmo tão fascinado com o espetáculo das ações e reações do ser humano no meu pequeno experimento e passei a perceber tamanha lógica e coerência naquela partida, até ela tornar-se, para mim, a metáfora definitiva do sentido da vida e do cosmos, além é claro do todo-poderoso, representado pelo árbitro, naturalmente. A indecifrável narração em um belo francês que eu não compreendo, apenas acentuou a aura mística da minha percepção do evento, e mesmo a pomba que cruza o canto da tela da transmissão momentos antes do quinto escanteio continha para mim a clara mensagem divina "mais vale um na mão do que dois voando", ao que os mosquitos prontamente corrigiam: "antes um na mão do que dois no pé".

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... de volta pra prancheta.

3 comentários:

Anônimo disse...

que texto redondo hein malandro...demais fi, abraço!

Daniel Reizenback

ê. disse...

foram umas experiências, mas me perdi pelo caminho. hehe

abraço!

Anônimo disse...

Mandou super bem, Stephen. Não tem nada de perdido no texto. Amei!
Liana