sexta-feira, 20 de março de 2009

2.

...Alguém aí conhece o itinerário?
...É o meu primeiro dia no serviço e na verdade pouco me importa o caminho, todos eles levam ao meu magro contra-cheque, à minha cama e ao dia seguinte. Na dúvida, sigo o ônibus da frente, vai que a linha é a mesma. Quanto ao pontos, não me perguntem. Pára-se em qualquer canto, os passageiros que se virem e olhem para os dois lados da rua, para cima que lá vem chuva e para baixo que o bueiro está aberto. O cobrador se faz de desentendido, conta os trocados como quem não quer nada. Para ele também dá na mesma, desde que a roleta continue girando: o que vier é lucro, quem sabe até a sorte grande qualquer dia lhe sorria, tropece nos cadarços desamarrados e caia indefesa no seu colo. Só que isso nunca acontece. Eles começam a descer antes da hora, gritam, xingam, vociferam, esbravejam, amaldiçoam. A mim só interessa o ronco do motor.
...Mas que diabos! Sinto muito, mas é pedir demais que em tão pouco tempo alguém conheça esta cidade de cabo a rabo ou como a palma da mão direita. Invento então minha própria rota quiromântica, pela linha da vida e da morte a cada esquina, quem não gostou que saia da frente. A buzina é alta, cômica também: toca a musiquinha da novela com voz de ganso rouco. As multas encaminhem lá pra casa, que não estou já há uns trinta anos, e mesmo quando estava nunca estive por inteiro.
...Não adianta, é inútil acreditar nos mapas. Incluam-se aí os atlas e enciclopédias. Das placas de rua nem se fala, convenções baratas e homenagens descabidas, resumem-se a isso. Perdido — aliás, perdido não! achado — em pensamentos, dobrei uma esquerda aonde não devia, furei meia dúzia de sinais fechados e agora me encontro na contramão da avenida, abrindo caminho com a minha buzininha de fuororó. Parece funcionar, melhor assim. Parar a esta altura dos acontecimentos já não é opção, na metade da rota para sabe deus lá onde. Os passageiros fugiram faz tempo. O cobrador, esse me abandonou três quarteirões atrás. Ele é que não sabe o que está perdendo: essa voltinha pelo avesso do trânsito, contra a maré, rumo ao oceano.

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