quinta-feira, 5 de março de 2009

nocaute nada

às vezes o rei tem de fingir um ataque cardíaco infarto para escapar do vexame de um xeque-mate prematuro

antes de ser encurralado no canto
e apanhar escorado nas cordas até beijar a lona

aí o juiz precisava intervir, soando o gongo, separando os lutadores suando e sangrando bicas

senta no banquinho
cospe no balde
ouve as instruções do treinador
tonto tonto
arfando
segundo round
volta ao ringue cambaleante
socando o vazio
esquiva
jogo de pés

até tomar uma em cheio no pé da orelha
jab jab
gancho
cruzado de direita
queixo de vidro
arrebenta o supercílio
quebra o nariz
cospe os dentes

os apostadores todos em polvorosa

derrota, humilhação

o que os vizinhos vão dizer lá em casa?

bom jogo, boa luta
o que importa é competir
e não perder os dentes da frente
que os outros a gente nem repara

mas a platéia gosta do espetáculo
já de fora, os bispos com os coroinhas
as rainhas ciumentas
os peões de obra
comentando a sequência matadora
bêbados eufóricos

aí o rei, pra terminar a noite,
pendura as luvas
monta no cavalo em disparada e salva a donzela aflita no alto da torre

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