terça-feira, 31 de março de 2009

diegese

...Acordei e ainda estava aqui, disfarçado de mim mesmo — o que é pior — com o espelho e a consciência por testemunhas, os óculos de míope astigmata apoiados no nariz, a barriga com um umbigo no meio. Mas amanhã mesmo acabo com esta farsa: engulo o frasco de vitaminas, arranco este bigode e estes dentes tortos que teimam em falar por mim o tempo inteiro, pelos cotovelos e pelas cáries, fazendo planos de cruzar o canal da mancha e as pontes de safena antes que os ambientalistas operem as cataratas do niágara e não se possa mais pular lá de cima num barril, numa canoa ou num transatlântico com bóia de pato.
...Banguela para que não me reconheçam mais em catástrofe ou multidão nenhuma, seja de chapéu, capa-de-chuva, óculos, bigode ou nariz postiço — o sorriso amarelo na identidade falsa de raio-x — saio de fininho do consultório sem pagar a conta, de broca e espelhinho nas mãos, as revistas de fofoca do século passado debaixo do braço, antes de ser fisgado pelo sugador de baba da assistente do dentista que, à esta altura deve estar soltando gases hilariantes e pedindo educadamente que eu diga trinta e três.
...Instaladas a dentadura e a coragem, compro uma luneta ou binóculos de longo alcance, corro pro ponto do ônibus espacial e me mando daqui para os anéis de saturno, na esquina da via láctea com os frutos do mar — aproveitando que nunca fui alérgico — pra recomeçar do zero à esquerda numa outra encarnação.

4 comentários:

Gabriel Renner disse...

ESTEVEZ? seria vc o célebre escrevente dos belos textos da BONGO?

ê. disse...

culpado de grande parte.

dani disse...

excelente. excelente. só digo que os mais sensatos não reparam em dentes alheios.

e coincidência: falei hoje pra alguém que sou míope astigmata, com essas palavras.

ê. disse...

acrescente telepata
;)