domingo, 19 de abril de 2009

beleza pouca é bobagem

...Voltamos ao vivo do planeta Terra, onde dentro de instantes iremos conhecer a próxima Miss Ser Humano deste século. Mas antes, a última candidata finalista: Esperança no palco e na passarela, pesando noventa toneladas — e mesmo assim mais leve que uma pluma —, medindo 15 centímetros de altura, 184 de busto, 32 de cintura, um quilômetro de quadril e meio metro de sorriso, ela é só simpatia e carisma. Formada em Educação Física Quântica pela Universidade do Sri Lanka, seus hobbies são derreter calotas polares e comer casquinhas de siri. Pretende descobrir a cura do câncer de dedão e o sentido da vida, assim que os porcos criarem asas na Malásia. Preenche um biquíni como ninguém e sabe a tabuada e a raiz quadrada da dívida externa de cor e salteado. Mantém o senso de humor bronzeado e radiante como uma bomba atômica de domingo e não está para brincadeira, decidida a vencer custe o que custar, ainda mais de barba feita.
...Os jurados consultam os astros pelo telescópio, a audiência pelos binóculos e a consciência no microscópio eletrônico de varredura. Os apostadores, à postos na platéia, apostam alto: o páreo é duro, apesar de Esperança ter matado todas as outras concorrentes. A campeã do mês passado já removeu cirurgicamente a coroa de espinhos, conformada, se prepara para passar a faixa de Gaza e o cinturão de peso morto sem cair do salto. A torcida delira com os anúncios dos patrocinadores, Esperança sapateia sobre os cadáveres das oponentes e assovia chupando manga e fumando cigarro sem filtro. Os jurados resolvem decidir no palitinho. Esperança roda a Bolsa de Valores debaixo do poste. A platéia aplaude a placa de aplauso, emocionada com o espetáculo — e com dois meses de atraso lá vem o envelope lacrado com o resultado e a conta de luz, senhoras e senhores: a grande vencedora você fica sabendo depois dos comerciais.

domingo, 12 de abril de 2009

urca


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CARTÃO-POSTAL :

Caríssimos(as),

até aqui tudo bem, tratei logo de arrumar moradia, alugando uma espaçosa e confortável caixa de papelão num bairro muito bem localizado. A vizinhança é agradável e educada, além de ser adubada pelo menos doze vezes ao dia, para que os belos canteiros e jardins das praças possam florescer assim tão vistosos. Há também fartura de bitucas, das mais finas marcas nacionais e importadas, disponíveis a qualquer hora, ao alcance das mãos. Ah, ia me esquecendo: a caixa que me aquece na verdade era de refrigerador. Irônico, não?

terça-feira, 7 de abril de 2009

6.

...Atchô! Hoje o meu nariz está disfarçado de torneira, gotejando e fungando a cada fôlego. Fuón! Devo estar enriquecendo as fábricas de lenços do país, não há dúvida: talvez seja uma boa hora para investir no mercado de ações.
...Pensando bem, é melhor ter cautela. Nada de riscos desmedidos, a advertência era claríssima — se ao menos não fosse aquele gato maldito brincando com a minha alergia... o que alguém pode ver num bicho desses?
...Vamos, gracinha. Mas que obra magnífica! Muito bem, a dieta deve estar funcionando, vou recomendar os serviços da nutricionista. Eu sei que você acha que caviar é uma ova, não se compara ao filé mignon, mas é para o seu próprio bem, meu amor. Agora vamos recolher esta belezura, para não poluir ainda mais a cidade, como estes indigentes sem-vergonha por aí.
...Hoje em dia não há mais sossego na vizinhança, graças a esse bando de desocupados imundos e mal-educados, usufruindo de graça das fontes e bancos de praça que pagamos com os nossos impostos. Já não se pode nem mesmo passear com o cachorro sem quase tropeçar num deles na primeira esquina. Aonde estão a polícia, a prefeitura, o presidente, as organizações não-governamentais? Os cidadãos de bem estão ficando acuados; a minha pobre cadelinha já andava com prisão de ventre, constipada, coitada.
...E eu aqui assoando o nariz em fá maior até agora — afinadíssima, por sinal —, alérgica à atual conjuntura, engulo logo uma cartela de comprimidos para ver se passa. O poodle apressa o passo, fantasiado de cão-guia, desviando dos obstáculos — as árvores e os mendigos, árvores e mendigos, mendigos e árvores. Decido voltar pela praia, o calçadão contorcendo-se sob os meus pés, os coqueiros dançando hula-hula e uivando para a lua, os banhistas de escafandro à prova de balas. É sem dúvida o quarteirão mais longo e peculiar que já percorri em todos esses anos — para piorar a situação, começa a chuviscar e esqueci a sombrinha.
...Cérbero abana os três rabos. Chegamos, sãs e salvas, eu e a cachorrinha: sem pestanejar, o porteiro abre prontamente os portões do prédio, deseja boa noite, se oferece para carregar as sacolas e chama o elevador da cobertura.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

8.

...Dariz endubido é voda. Quando chove é que o bicho pega quem corre e molha o cavalinho de quem fica marcando bobeira: eu que o diga, ensopado até os ossos moles e roídos, debaixo dos pés de guarda-chuva fora de época — torcendo para os raios caírem lá longe, que nunca fui vacinado e vai que a corrente elétrica, na falta de fusível, queima o meu único parafuso solto e ainda por cima sem porca nem cofrinho, que à essa altura já deve estar saindo da fábrica de salsichas siamesas e virando cachorro-quente na chapa de qualquer carrocinha.
...Pior que não se fazem mais xaropes para resfriado como antigamente, as vovós estão ficando ultrapassadas, obsoletas desde o advento do transplante de soluço e dos conselhos instantâneos de microondas — mas, de qualquer forma, ainda tossem e torcem o bigode entre um suéter tricotado e outro. Já eu, sem suéter nem xarope nem conselho nem soluço, aproveitei o vento poluído noroeste e a enxurrada das poças na rua para velejar o meu barquinho de papelão e ver se pescava algum par de botas em bom estado em qualquer boca-de-lobo-do-mar banguela.
...Infelizmente a empreitada terminou de forma trágica, ao passar a minha baleia nêmesis branca, fantasiada de transporte coletivo — de barriga cheia e levantando uma tremenda onda tsunami sem precedentes que virou o barco e me pôs de ponta-cabeça, tal qual os pedestres, que à esta altura já eram mergulhadores, atropelados pelos automóveis, que por sua vez eram submarinos amarelos: justo eu que nunca soube nadar e de salva-vidas mal salvo a minha própria.
...Os ratos, ingratos, foram os primeiros a abandonar o navio. Fui atrás como quem não quer nada, náufrago, perdido numa ilha deserta mais perdida ainda, no meio do nada mais cheio de que se tem notícia, contemplando a baía lá do topo do cartão-postal: enquanto deixava crescer a barba, descobri a rota de fuga pelo teleférico panorâmico que me trouxe de carona, dependurado de volta ao lar, doce lar, no quarto banco da praça, entre os pombos e as baratas, queimando de febre e tremendo de frio, sem canja de galinha nem termômetro debaixo do braço ou em qualquer outra cavidade ou orifício propriamente dito: a boca por exemplo, que no máximo segura o fantasma de um cigarro que me aquece o nariz e suas respectivas narinas, mais congestionadas que o trânsito à esta hora do progresso da civilização.