terça-feira, 19 de maio de 2009

sexta-feira, 8 de maio de 2009

cotidianus domesticus

Acordo com o canto das buzinas de automóvel, alimento as plantas, rego o gato e troco a areia do peixe. Meu ecossistema funciona como um relógio suíço, eliminadas as partes sobressalentes e dando-se corda ao contrário, naturalmente. Passo o café e as cuecas, penduro a conta no varal e preparo a minha própria comida, algo digno de estudos por parte da NASA e que qualquer dia ainda vai dar na pedra filosofal ou num cálculo renal de brinde. Arredonda-se para baixo, noves fora o cafezinho, e vamos do topo da cadeia alimentar para o trono de direito, que tudo o que sobe desce, o que entra sai, e é pela obra que se conhece o autor. Cantamos parabéns ontem — eu, o gato, o peixe e as plantas — para o frango no congelador, que está fazendo aniversário, e apesar de não botar ovos de ouro pelo menos não incomoda ninguém. À esta altura já deve pensar que é mesmo um pingüim de geladeira.

domingo, 3 de maio de 2009

retorno

...Apertando o passo para não passar aperto, cruzo a avenida agora vazia, cortando caminho por ruelas e becos imaginários, onde os assaltantes nos dão presentes de aniversário e os postes cospem notas de cem. Corro para alcançar o ônibus errado, que para a um quilômetro do ponto vazio. O motorista é dublê de cobrador, ou vice-versa, vai saber: manobrando com uma mão só, tira do bolso o troco exato, em moedas de cinco centavos, para a garoupa graúda em extinção — genial, além de tudo ainda são gênios da matemática.
...Sento-me ao fundo, único passageiro e testemunha do chofer solitário, que me conduz quase tão suavemente quanto uma britadeira pelas ruas desertas. O maldito corre como um louco, minha bexiga se contrai ainda mais, na esperança de esvaziar-se logo. O ônibus pula a cada irregularidade da pista, eu quicando no último banco como uma bola de tênis hiperativa num trampolim no meio de um terremoto japonês, cada vez mais alto. Me seguro como posso, com as mãos os pés e os dentes, tentando antecipar os saltos, mantendo os joelhos flexionados para não cair da sela do touro mecânico indomável.
...Me penduro na cordinha, o piloto passa do ponto mais uma vez. Grito para chamar-lhe a atenção: aí sim, freia tão brusca e subitamente, que atravesso voando o corredor, numa trajetória perfeita que cruza a roleta e termina no pára-brisa, esborrachado tal qual um inseto. Ding! Supa-Dupa-Mega-Combo, mil pontos para mim, a bola do pinball.
...Amaldiçôo o motorista e trato de dar o fora dali, atrás da primeira árvore que vir pela frente. Alivio-me enfim, regando as raízes de um poste qualquer. Vou-me embora assoviando, as mãos nos bolsos, e merda! perdi o telefone dela.

love scene

sexta-feira, 1 de maio de 2009

mudos imóveis

Mudou-se, foi dividir um apartamento com ela. Ficavam assim: ele com o quarto e o banheiro, ela com a sala, entretendo as visitas. Mas o relacionamento foi se complicando, problemas de comunicação. Ela não calava nunca a boca, além de não saber ouvir. Ele mal começava a contar sobre o seu dia, ela despejava o preço do dólar, a alta na cotação do petróleo, o pênalti roubado, o escândalo do senado, a receita de pato assado e o adultério da zona sul. Ele começou a chegar tarde, quando chegava. Quase não se viam, embora ainda lembrasse dela com certa melancolia nos botecos e nas salas de espera, às vezes nas lojas de eletrodomésticos. Numa dessas, conheceu a outra: trocou a televisão por uma geladeira, quinze prestações mais nova.

cartão-postal