quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

+soma

tem quadrinho meu na revista +soma desse mês!
e ainda: rafael sica, nik neves, e entrevista com robert crumb.

clique na imagem para baixar gratuitamente.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

vida acadêmica

(...) A mão mais rápida que os olhos, o que os olhos não vêem nem os ouvidos ouvem o coração não sente. O montador é o prestidigitador que distrai a platéia com uma das mãos na assistente enquanto a outra puxa o coelho da cartola. Montar é organizar e desorganizar o tempo. Saber a hora de cortar e de estender o momento. É deixar claro que o filme não passa de um filme, ou iludir o espectador com cortes invisíveis e raccords perfeitos. O bom montador é um compositor que sabe a hora das pausas, que percebe e trabalha a harmonia, espacial, e a melodia temporal do filme. Montagem é ritmo. É saber a hora do tango, da valsa, do forrobodó. É determinar intenções, acrescentando ou suprimindo um levantar de sobrancelhas, uma respiração, uma hesitação do personagem ou do próprio ambiente. É saber perceber as coincidências, as semelhanças, ecos e tonalidades de planos diferentes, preparar o espectador para algo que ainda está por vir, lembrar o espectador do que já veio, mentir descaradamente, suspender tensões, trapacear. (...) Também é experimentar, desrespeitar a lógica, saber dar chance ao acaso e à coincidência, reconhecer boas idéias no erro. É fazer associações estapafúrdias. Sintetizar sentidos ocultos. Tirar leite de pedra. Às vezes montar é repetir. Às vezes montar é repetir. Às vezes montar é repetir. Às vezes montar é quase repetir, mas um pouco diferente. É puxar a atenção para o que interessa, mesmo que não seja o óbvio. Montar é hipnotizar. Esconder e mostrar. Montar é rimar. Ou bagunçar, jogar a merda no ventilador. Ser açougueiro, e cirurgião plástico nas horas vagas. É deixar para a imaginação do espectador o espaço entre os quadros. Tirar o tempo morto, poupar a paciência, inventar elipses. Mover-se no tempo. Mover-se a tempo. É deixar o filme com a duração necessária, o comercial com os 30 segundos aceitáveis no intervalo do jornal. É desapegar-se do que não funciona. É perseguir um sentimento a qualquer custo. Criar verdades a partir de mentiras, e vice-versa. É como aquele filme ruim baseado numa idéia boa, em que o Robin Williams é o editor do chip das memórias dos mortos, e transforma vilões em heróis para o filme do velório. Montar é cortar a hora em que o noivo cutuca o nariz e a noiva tropeça. É reduzir o discurso do padrinho bêbado e pular logo para a piada do final. É guardar o melhor para o final. Montar é dominar o cavalo mas deixá-lo comer uma graminha de vez em quando. É obsessivo e trabalhoso. Demora. Pelo menos com o advento dos computadores as possibilidades tornaram-se realmente infinitas. Mas eles não tomam decisões por ninguém, ainda bem. Por um lado, democratizaram o acesso às ferramentas de edição - por outro, qualquer dia explodem entupindo o planeta de filmagens caseiras de youtube e pornografia barata. Aí era uma vez um montador. Ou vários. Montar é escolher a ordem dos ingredientes, dosar a quantidade, adaptando a receita, que é o roteiro. É juntar as peças do quebra-cabeça. Seja com cutelo, guilhotina, bisturi, estilete, alicate, ou até mesmo a marretadas. É amarrar as pontas e o nó do cadarço para o filme não tropeçar. Os russos brincaram a valer com a montagem. Eles não tinham computador nem bomba atômica. Também não tinham mandado nenhum cachorro para o espaço. Hoje em dia, cachorros são o de menos. As ameaças espaciais alienígenas estão em alta, na verdade sempre estiveram - até quando o negócio era o rádio e os locutores ainda não tinham dirigido filme nenhum. Os extraterrestres e os terroristas, que compraram as bombas atômicas desativadas dos russos. Mas isso não nos interessa porque os dois só atacam os Estados Unidos, ainda bem. Pelo menos eles têm os efeitos especiais para se defender de qualquer ameaça. Montar é organizar as idéias, mesmo que de forma caótica. É encher o papo da galinha de grão em grão. É segurar o suspense da última cena, logo que o filho bastardo da protagonista descobre que o pai é o padeiro careca do outro canal, para segurar a audiência angustiada até o próximo capítulo. É fazer uma pessoa conversar com a outra ao telefone, alternando o plano do rosto de cada um, e tornar isto plausível e aceitável, mesmo que seja engano. É fazer o público acreditar que o Steven Seagal realmente é um exímio bailarino e o Fred Astaire faixa preta em artes marciais tailandesas. Ou que os caras do CQC sejam mesmo engraçados. Fumaça e espelhos. O velho truque da mulher-gorila Monga. Talvez mais sutil, mas não menos enganador. Que o digam os telejornais, de preferência com o semblante sério e pesado como uma âncora, música triste ao fundo. Boa noite. Corta para o comercial. A Fátima errou a entrada, o Bonner olhou para a câmera errada, quem sabe faz ao vivo, agora só na retrospectiva de fim de ano. É o cúmulo do absurdo. “Isto é uma vergonha”, já diria o Boris com aquele narigão, olhos nos olhos, sem titubear. A vida é só um intervalo entre um jornal e outro, um capítulo da novela e outro, uma partida do campeonato e outra. Mas elipse só quando a gente dorme, e se sonhar já era. Mentira, quando se fica de porre também. E é aí que acontecem as reviravoltas imprevisíveis do enredo. Puxando pra comédia ou pra tragédia, quem sabe. Dizem que antes de morrer a nossa vida passa diante dos olhos em um segundo. Isto é que é síntese, a montagem mais objetiva do mundo, sem direito a replay nem super câmera lenta. Aí sobem os créditos. É isso, montar também é saber encher lingüiça com estilo. Pelo menos tem dado certo pra muita gente. Concluímos, portanto, que a montagem coloca cada coisa no seu devido lugar. Obrigado.

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O primeiro, ensaio sobre montagem. O segundo, panfletagem sobre as eztetykas de Glauber Rocha.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

lançamento

Sábado agora é o lançamento oficial do Pindura 2010 em Brasília!
Garanta o seu!

E em breve, lançamento no Rio.

cartaz por Caio Gomez