sexta-feira, 19 de março de 2010

espanha

Outro dia recebi, finalmente, o livro Digestión Figurada, do qual participei com 3 páginas de quadrinhos: La Basura Del Bar, que veio de uma idéia para a monografia de um amigo; e Eres Lo Que Comes, que também esteve na exposição OuBaPo - Quadrinhos à Máxima Potência, na Academia Brasileira de Letras e na Livraria da Travessa.

Organizado pelo argentino Elenio Pico, o livro é sobre comida/bebida e também tem o trabalho de vários brasileiros, como Allan Sieber, Alex Vieira, Guido Imbrosi, Ricardo Sanchez, Guazzelli e Fabio Zimbres.




fotos afanadas do blog da revista Prego

terça-feira, 2 de março de 2010

vôo 6796

Perdi os compromissos, a paciência e a hora da janta, devido às condições climáticas e a frente fria do atlântico sul. Espero chegar ainda hoje. Espero encontrar a minha bagagem do outro lado. Talvez seja melhor esperá-la com uma plaquinha de boas vindas. A companhia aérea não tem nem revista de bordo, só revista íntima. Pelo menos a aeromoça é bonita. Espero que tenham cerveja. Ainda chove lá fora, mas agora brincamos de esperar no avião. Já passei por um elevador, um táxi, uma van, dois aeroportos, um ônibus e agora um Boeing 737. Isso sem falar nas escadas rolantes e analógicas. Espero que chegue. Espero não desenvolver nenhum câncer ou anomalia com a quantidade de detectores de metal pela qual passei hoje. Não detectaram metal nenhum, eu ouvia Nat King Cole. Quase perco as calças, tendo que tirar o cinto todas as vezes. A minha mala já está praticamente invisível depois de tanto raio-x. Estão tentando enfiar os passageiros de 3 vôos em um só. Desculpe senhora, você vai ter que viajar no colo daquele senhor. Me recusei a pagar os olhos da cara num misto-quente frio. Cadê o Concorde nessas horas? Ou uma máquina do tempo. Teletransporte no mínimo. Parece que o aeroporto está fechado. É tudo uma piada de mau gosto. Péssimo. Os ânimos estão exaltados. Uma velhinha pulou no pescoço da comissária. Acho que vamos passar a noite no avião. Cadê o serviço de bordo? Culpa da situação do tempo no Rio de Janeiro hoje. Mentira, o tempo passa como antes. O comandante está cantando um bolero no rádio, para tentar acalmar a situação. Agora conta uma piada. Todos aplaudem. Era melhor ter ido a pé. Ou de bicicleta. Se a comissária tirar a roupa eu não me importo. Todas as luzinhas acendem de uma vez. Sem previsão, sem previsão. Cadê as videntes cartomantes desse país? Ou o homem do tempo weather man, meteorologistas fajutos de gel no cabelo, com seus mapinhas animados e nuvenzinhas de mentira. Sirvam o almoço, jantar, ou a cabeça do imperador, por favor. Chicken, beef or turkey. Estou ficando claustrofóbico. Hiperventilação. Caiam as máscaras! Rarará. O carnaval já acabou, pô. Senso de humor microscópico. Onde processa essa porra? A companhia, o aeroporto, a chuva, todo mundo de uma vez. A mesinha do avião é pequena para a comida parecer grande. O problema de voar não é o avião, e sim o chão. Estamos ilhados, mas os assentos são flutuantes. Ainda bem. Lalala-lala, perdemos o jornal nacional. As aeromoças deviam mesmo é trazer uns jogos de tabuleiro e acender a lareira, numa noite chuvosa como esta. Daqui a pouco vou pelo menos peidar na cabine e trancar a tripulação lá dentro. Isso é uma aeronave ou um barco, afinal? Bate-boca. Quase quatro horas de atraso. E já apertei os cintos, subi o encosto da poltrona. É melhor pagarem logo um cinco estrelas pra todo mundo, e não se fala mais nisso. Pode até ter beliche e barata. Ou pelo menos ir pra casa e tentar de novo amanhã. O saquinho de vômito veio vazio, como é que pode? O comandante recita sonetos e anedotas para distrair os passageiros. As aeromoças brincam de mímica. Tudo vai dar certo, tenho um colete salva-vidas debaixo do banco. Pelo menos me trouxeram um copo d'água, e só precisei pedir cinco vezes. Porra, se eu mandasse nessa josta já tinha arrumado pizza pra todo mundo e posto um disco dos Stones pra tocar. Webjet abjeta. O FIM ESTÁ PRÓXIMO, passa um velhinho barbudo com a placa, pelo corredor. Parece que a cidade também parou. Chuva de merda. Pelo menos não tem nenhuma cobra a bordo. As atendentes estão ríspidas, fingem que não é com elas. Ignoram as luzinhas e o dim-dom das campainhas. Ainda há 12 aeronaves em fila indiana à nossa frente. Muitas gente já desceu, e nem precisaram de páraquedas. As despachantes despacham com um pé na bunda. Voltem sempre, paspalhos. O problema é a chuva, o mandachuva, o guardachuva. Da próxima vez vou de patinete. Qualquer coisa. Já podia estar chegando no Japão. Decorei as posições de impacto, as saídas de emergência, contei as flores do vestido da moça ao lado. Pelo menos fiquei com a janela, nada como a vista da pista. Depois de tanto tempo, a gente quase esquece o medo de avião. Agora tenho medo é da companhia. Os passageiros criam teia de aranha. Pelo menos quando chove. Decolamos. Acabaram de servir um galeto com lagostas fritas e vinho da casa. Estava divino, agora até posso esticar um centímetro de pernas e tirar um cochilo merecido, contando carneirinhos. O lixo vai pra reciclagem, que bonito. Turbulência não é nada. Ração com vitaminas. Olha o aviãozinho! Reduziremos as luzes da cabine, utilizem as luzes individuais de leitura.



Manuseado com carinho.

segunda-feira, 1 de março de 2010