segunda-feira, 28 de março de 2011

volta

Tiramos os nossos disfarces estrangeiros e um cochilo no táxi até o aeroporto. Estávamos horas e horas adiantados, apesar do fuso horário que, segundo me informaram depois, não existe. Aproveitamos para tomar o café mais caro do mundo, passar trotes internacionais com as moedas do troco e cambiar o resto dos pesos em dólares, daí para francos, de volta para pesos, e finalmente para reais. Tudo isso graças às bóias de pato para câmbios flutuantes que adquiri de uma cartomante portenha que lia a sorte na borra do mate. Nos despedimos das malas prometendo mandar um cartão-postal. Brincamos de adivinhar os portões dos vôos para Paris e Hong Kong. Alguns mandavam consultar um agente da CIA. Fiquei me perguntando se os vôos marcados para o dia 27 sairiam apenas no dia seguinte ou eram mesmo para viagens temporais rumo ao futuro.

Na fila do controle de imigração, os alto-falantes tocavam a abertura de William Tell numa versão eletrônica-laranja-mecânica-walter-wendy-carlos. O carimbo de saída dava a largada da corrida para o free shop. Procurei uma garrafa de uísque entre os cigarros paraguaios e chineses, as carnes congeladas, os alfajores e as raquetes de tênis. Elas haviam encolhido e estavam escondidas no caixa.

Na segunda hora de vôo serviram o jantar. O piloto brincava de brecar e enfiar a cara dos passageiros nas tortas.

Nossa mala foi, sem sombra de dúvida, a de maior destaque e brilho na esteira de restituição de bagagem. Atravessou a cortina dando cambalhotas e piruetas e veio aterrissar aos meus pés com a maior cara de indiferente do mundo. Questionada sobre o pequeno espetáculo que acabara de proporcionar, foi sistemática:

- Nada a declarar.

Um comentário:

lenora disse...

Boa, muito boa sua palavra!