terça-feira, 4 de junho de 2013

uma teoria do riso

Arthur Koestler
O Fantasma da Máquina (1967)
Cap. XIII - A Glória do Homem


A Reação AHA

Desde Pitágoras, que reuniu a Aritmética e a Geometria, até Newton, que combinou os estudos do movimento dos projéteis de Galileu com as equações keplerianas das órbitas planetárias, e Einstein, que unificou a energia e a matéria em uma única e sinistra equação, o padrão é sempre o mesmo. O ato criador não cria algo a partir do nada, como o Deus do Antigo Testamento; ele combina, reembaralha e relaciona idéias, fatos, estruturas de percepção e contextos associativos já existentes, mas até então separados. Esse ato de fertilização cruzada — ou de autofertilização dentro de um único cérebro — parece ser a essência da criatividade e justificar o termo “bissociação”. 1
Tome-se o exemplo de Gutenberg, que inventou a prensa tipográfica (ou, pelo menos, inventou-a separadamente de outros). Sua primeira idéia foi fundir tipos de letras semelhantes a anéis de sinête ou selos. Mas como reunir milhares de pequenos selos de maneira que eles causassem uma impressão parelha sobre o papel? Ele lutou com o problema durante anos, até que um dia foi a uma festa de vinho em sua Renânia natal e presumivelmente embriagou-se. Escreveu numa carta: “Olhei o vinho a fluir e a voltar do efeito, para a causa; estudei o poder da prensa de vinho, a que nada pode resistir (...)” Naquele momento, a luz se fêz: selos e a prensa de vinho combinados resultaram na impressão de letras.
Os psicólogos gestaltistas cunharam uma palavra para esse momento da verdade, o relâmpago, da iluminação, quando os fragmentos do quebra-cabeça repentinamente entram no lugar; eles o chamam de experiência AHA. Mas esse não é o único tipo de reação que o estalo bissociativo pode produzir. Uma espécie inteiramente diferente de reação é despertada pelo relato de uma estória como a seguinte:



Um marquês da corte de Luís XV retornara inesperadamente de uma viagem e, ao entrar no boudoir de sua esposa, encontrou-a nos braços de um bispo. Após um momento de hesitação, o marquês caminhou calmamente até a janela, curvou-se para fora e começou a fazer os movimentos de abençoar o povo na rua.
— Que está fazendo? — gritou a mulher aflita.
Monseigneur está desempenhando minhas funções — respondeu o nobre — de maneira que desempenho as dele. 2

O riso pode ser chamado a reação de HAHA. 3 Discutamos rapidamente primeiro o aspecto lógico, dela e, depois, o emocional.


A Reação HAHA

O comportamento do marquês é ao mesmo tempo inesperado e perfeitamente lógico, mas de uma lógica que não é geralmente aplicada a esse tipo de situação. É a lógica da divisão do trabalho, onde a regra do jogo é o quid pro quo, o dar-e-tomar. Mas esperávamos, naturalmente, que suas reações fossem governadas por um cânone inteiramente diferente, o da moralidade sexual. É a interação entre esses dois contextos associativos mutuamente exclusivos que produz o efeito cômico. Ela nos força a perceber a situação, ao mesmo tempo, em duas estruturas de referência autocoerentes, mas habitualmente incompatíveis; faz-nos funcionar simultaneamente em dois comprimentos de onda. Enquanto essa condição inusitada perdura, o acontecimento não é, como normalmente acontece, percebido sob uma estrutura única de referência, mas bissociado em duas.
Mas a condição inusitada não dura muito tempo. O ato da descoberta conduz a uma síntese permanente, a uma fusão das duas estruturas de referência anteriormente não-relacionadas; na bissociação cômica temos uma colisão entre estruturas incompatíveis que, por um breve momento, cruzam o caminho uma da outra. Contudo, a diferença não é absoluta. Serem ou não compatíveis as estruturas, colidirem ou fundirem-se depende de fatores subjetivos, porque, afinal de contas, a colisão ou fusão se realiza na mente dos ouvintes. Na mente de Kepler, os movimentos da Lua e os movimentos das marés fundiram-se, tornaram-se ramos da mesma hierarquia causativa. Mas Galileu tratou a teoria de Kepler literalmente como uma piada — chamou-a de “fantasia esotérica”. A história da ciência abunda em exemplos de descobertas acolhidas com uivantes gargalhadas, porque elas pareciam ser um matrimônio de incompatibilidades, até que o casamento produziu frutos, e a alegada incompatibilidade dos participantes mostrou ser derivada dos preconceitos. O humorista, por outro lado, escolhe deliberadamente códigos de conduta ou universos de explanação discordantes, a fim de expor suas incongruências ocultas no embate resultante. A descoberta cômica é o paradoxo declarado; a descoberta científica é o paradoxo resolvido.
Encarado sob esse ponto de vista, o gesto do marquês foi uma inspiração verdadeiramente original. Se houvesse seguido as regras convencionais do jogo, teria de ter espancado ou matado o bispo. Na corte de Luís XV, porém, assassinar um Monseigneur teria sido considerado, se não exatamente um crime, mesmo assim de muito mau gosto; não podia ser feito. Para solucionar o problema, isto é, para salvar a dignidade e ao mesmo tempo humilhar seu oponente, uma segunda estrutura de referência, governada por regras diferentes do jogo, tinha de ser trazida à situação e combinada, bissociada, com a primeira. Toda invenção cômica original é um ato criador, uma descoberta maliciosa.


Riso e Emoção

A ênfase está no malicioso, e isso nos conduz da lógica do humor para o fator emocional na reação, HAHA. Quando o contador de anedotas perito conta uma piada, êle cria certa tensão que aumenta à medida que a narrativa progride. Mas ela nunca atinge o seu clímax esperado. A frase final do impacto atua como uma guilhotina que corta o desenvolvimento lógico da situação; ela desmascara nossas expectativas dramáticas, a tensão torna-se redundante e explode em risada. Para dizê-lo de outro modo, o riso dá aplicação à tensão emocional que se tornou sem sentido, que é negada pela razão e tem de ser de algum modo descarregada ao longo dos canais fisiológicos de menor resistência.
Se olharmos para a brutal alegria das pessoas numa cena de taverna pintada por Hogarth ou Rawlinson, compreendemos em seguida que elas estão descarregando seu excesso de adrenalina pelas contrações dos músculos faciais, pelas palmadas nas coxas e pelas explosivas exaltações respiratórias saídas da glote meio fechada. As emoções descarregadas na risada são a agressão, a cobiça sexual, o sadismo consciente ou inconsciente —; todos operando através do sistema simpático-supra-renal. Entretanto, quando olhamos para um inteligente cartoon do New Yorker, a risada homérica cede lugar a um sorriso divertido e rarefeito; a grande torrente de adrenalina foi destilada em um grão de sal ático. Tomemos, por exemplo, aquela definição clássica: “Que é um sadista? — Uma pessoa que é bondosa para com um masoquista...” A palavra witticism (chiste, dito espirituoso) deriva-se de wit (espírito, engenho) em seu sentido original de engenhosidade; os dois domínios são contínuos, sem uma linha divisória nítida. À medida que nos movemos das formas grosseiras para as formas mais sutis de humor, a piada se matiza em epigrama e adivinhação, o símile cômico na analogia oculta, e as emoções envolvidas mostram uma transição semelhante. A descarga emotiva descarregada na risada grosseira é agressão, esbulhada em seu propósito; a tensão descarregada na reação AHA deriva-se de um desafio intelectual. Ela estala no momento em que a luz se faz — quando solvemos o enigma escondido no cartoon do New Yorker, num quebra-cabeça ou num problema científico.
Permitam-me repetir que os dois domínios do humor e da descoberta formam um continuum. À medida que viajamos através dele, da esquerda para o centro, por assim dizer, o clima emocional transforma-se gradualmente da malícia do bufão na objetividade desprendida do sábio. E, se então continuarmos a jornada na mesma direção, encontraremos transições igualmente graduais no terceiro domínio da criatividade, o domínio do artista. O artista, também, mais insinua do que afirma, e propõe enigmas. Assim, obtemos uma transição simetricamente invertida em direção à outra extremidade do espectro, de formas artísticas altamente intelectualizadas para mais sensuais e emotivas, terminando na beatitude livre de pensamentos do místico.


A Reação AH

Mas como se define o clima emocional da arte? Como se classificam as emoções que dão origem à experiência da beleza? Se folhearmos livros didáticos de Psicologia experimental, não encontraremos muita coisa sobre o assunto. Quando os behavioristas usam a palavra “emoção”, quase sempre se referem à fome, ao sexo, à raiva e ao medo e aos efeitos correlatos da libertação de adrenalina. Não têm explicações a oferecer para a curiosa reação que se experimenta quando se escuta Mozart, se olha o oceano, ou se lê pela primeira vez os Holy Sonnets, de John Donne. Tampouco encontraremos nos compêndios uma descrição do processo; fisiológico que acompanha a reação: umedecimento dos olhos, retenção do fôlego, seguidos por uma espécie de embevecida tranqüilidade, o esvaziamento de todas as tensões. Chamemos a isso de reação AH — e assim completamos a trindade.

O riso e o choro, as máscaras gregas da Comédia e da Tragédia, marcam os extremos de um espectro contínuo; ambos são reflexos transbordantes, mas sob todos os outros aspectos constituem opostos psicológicos. A risada é mediada pelo ramo simpático-supra-renal do sistema nervoso autônomo; o choro, pelo ramo parassimpático. A primeira tende a galvanizar o corpo em ação; o segundo tende para a passividade e a catarse. Olhemo-nos a nós próprios quando rimos; longas e profundas inalações de ar, seguidas por jatos de sopros exalatórios — ha, ha, ha! No choro, fazemos o oposto: inspirações curtas e arquejantes — soluços — são seguidas por longas e suspirantes expirações — a-a-h, aah. . .
De acordo com isso, as emoções que transbordam na reação AH são os opostos diretos daquelas que explodem na risada. A última pertence ao tipo de emoções adrenérgicas, agressivas-defensivas. Em nossa teoria, são manifestações da tendência auto-afirmativa. Chamarei os seus opostos de emoções autotranscendentes, derivadas da tendência integrativa. Elas estão sintetizadas naquilo que Freud chamou de sentimento oceânico: aquela expansão da consciência que se experimenta ocasionalmente numa catedral vazia, quando a eternidade está olhando através dos vitrais do tempo, expansão na qual o ego parece dissolver-se como um grão de sal num pouco de água.


1 Opiniões semelhantes foram expressas, entre outros, pelo matemático Henri Poincaré, que numa conferência muito citada explicou a descoberta como sendo o feliz encontro de “átomos de pensamento dotados de ganchos” na mente inconsciente. De acordo com Sir Frederick Bartlett, “a característica mais importante do pensamento experimental original é a descoberta da sobreposição parcial (...) onde anteriormente se identificava apenas isolamento e diferença”. Jerome Bruner considera todas as formas de criatividade como sendo um resultado de “atividade combinatória”. McKellar fala da “fusão” das percepções; Kubie, da “descoberta de ligações inesperadas entre as coisas” e assim por diante, recuando até o “unir, unir sempre” de Goethe.

2 Já usei esta mesma estória em The Act of Creation e estou usando-a novamente por causa de seu padrão nítido. A maior parte das anedotas necessita de prolongadas explicações para tornar clara a sua estrutura lógica.

3 Fico agradecido ao Dr. Brennig James por haver sugerido este termo como gêmeo da reação AHA.

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