terça-feira, 16 de julho de 2013

aula de piano


     Quando menos se esperava, lá vinham madame Só-Só e a filha dobrando uma esquina: os passos muito cadenciados, os da filha sobretudo, davam-lhe a corda cada manhã até a noite – valendo um sorriso permanente. E às quartas-feiras havia a aula de música.
     Andréa sentada ao piano, eu ficava em frente àquela Coisa, nem era uma moça nem deixava de ser, sempre de branco, a combinação em branco, a calça de rendas brancas – madame Só-Só muito positiva repetindo o solfejo, a vareta na mão, si-lá-sol, também ela toda de branco, branca a sala, e as cortinas e até o piano: o gato sobre o tapete – tinha-se a idéia de um pesadelo, era o que era. A filha não tinha um nome, era como uma boneca com a sua corda, agora imóvel no sofá, as coxas belíssimas: a clave de fá e a clave de sol: eu em frente mudo e fazendo de conta, durava uma hora a lição e eu era quem aprendia maravilhas, pouco me importava que fosse imbecil e que sorrisse o sorriso de sempre. Às vezes levava um caderno para disfarçar, mas nem era preciso – as mínimas e as semínimas, colcheias e semicolcheias, Für Elise –: a um menino é permitido ver coisas que não se permitem a um adulto, eu ou o gato era a mesma coisa, o relógio branco na parede pulsando os segundos, os minutos, coxas como aquelas eu nunca tinha visto, jamais veria, o começo do sexo dando-me um comichão entre as pernas, as minhas, subitamente minhas. Quando caía a chuva os acordes se prolongavam, de novo vinha a Für Elise, a vareta branca batendo o compasso, o gato espiando-me cúmplice, as pernas no sofá cruzando-se e descruzando-se, e o sorriso de sempre, eu rilhando os dentes para que a chuva não passassse, sorria também o meu sorriso para a idiota e para o gato: uma cumplicidade completa. Às vezes, com tanta chuva, vinha um cafezinho, não sei se branco, com biscoitos ou sem biscoitos, Andréa se aproveitava para voltar à infância, UFF!, madame Só-Só indo e vindo, a filha acompanhando-a com os olhos, o gato à espreita: Andréa chegava-se a mim e apontava com os olhos o mistério daquelas coxas: eu me mostrava surpreso, ensaiava um assobio para dentro.
     Assim descobri o sexo ao som de escalas e mais escalas, Beethoven e suas jubas protegendo-me de olhares indiscretos, também ele cúmplice como a chuva e o resto, sou-lhe eternamente grato por isso, a ponto de Für Elise despertar-me, esteja onde esteja, uma ereção repentina como dizem ocorrer à rã decapitada quando lhe tocam com um fio elétrico, ou se não é bem isso fica sendo isso. 


CAMPOS DE CARVALHO, A Chuva Imóvel (1963)

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