terça-feira, 10 de dezembro de 2013

T.O.C.

tenho mania de ler os meus textos traduzidos porcamente pelo google
rever possibilidades de interpretação
e significados ocultos

ouvir as minhas gravações aceleradas, ao contrário, do avesso
em outros tempos e outros tons
enxergar tudo por todos os lados


inverter os arquivos de imagem
as cores os traços
a figura e o fundo

pirar na gestaltung das minhas coisas
os universos paralelos possíveis

dimensões habitáveis inexploradas
diferentes, mas semelhantes
versões alternativas de ideias materializadas em algo
os dois, os vários lados da moeda

rever com o outro lado do cérebro
anagramas espelhados da minha própria criação

decifrar tudo
analisar
se o conteúdo permanece ou se esvai
sob outra perspectiva

e que novos sentidos emergem
na sopa de letrinhas
nas peças do quebra-cabeça

talvez daí minha necessidade 
de dar sentido às coisas
editar
montar ordens arbitrárias
procurar as ligações
ligar os pontos

quando eu era moleque tinha o costume
e talvez ainda tenha
de ficar repetindo as palavras, baixinho
ao contrário
letra por letra
das frases que ouvia
e que quase não falava, ocupado em que estava repetindo
e repetindo
e parecia que se eu parasse de repetir e inverter as letras
as sílabas
o mundo iria ruir,
eu mesmo iria
cair
romper
en trar trar rart em cri se cri irc se es

anos mais tarde, aprendi o dialeto
da turma
que consistia em inverter as sílabas
das palavras
a-ti-sis-con em ter-ver-in as bas-la-si
das vra-la-pas

mais uma regra para a minha obsessão

agora
vou rever
esse texto
ao contrário
e de cabeça pra baixo
travestido no google translator
em inglês francês e espanhol
quiçá em esperanto
toranpees
espanto
espeto
espelho
bedelho

a fonética das palavras também me atrai
magnética
uma palavra puxa
a outra
que puxa
a seguinte

requinte
requente
requebre
rebente
repente
relento
relato

a sequência resultante acaba contando uma história
involuntária

narrativas
de livre associação
como método científico e psicológico
diriam

mas aí acaba a graça

Um comentário:

Liana disse...

Fantástico, sobrinho!! Vou repassar para amigos apreciadores da palavra e das interpretações.