sexta-feira, 21 de março de 2014

Dos enganos, cobranças e implicações metafísicas do gancho

Hipótese a.

Gostaria de deixar um recado pra Dona Iracy: seus cobradores mandam avisar, pela trigésima vez essa semana, que o nome da senhora está na lama, mais sujo que pau de galinheiro, e vai, definitivamente, entrar no Serasa no SPC e na boca do sapo caso não quite as parcelas eternas do crediário. Dos interlocutores já nem lembro mais. Light, Americanas, Casas Bahia, Net, Açougue do Nonô... De ampla gama, é fato, e leque farto: não importa o expediente, não têm o menor pudor em telefonar às 7 da manhã do sábado, às 16:20 de uma terça-feira ou no exato momento em que a panela está no fogo alto e a gente tem que sair correndo para atender e ainda ser paciente com a telefonista, para voltar correndo e encontrar o almoço irremediavelmente queimado. Credora em quinze estados, escapista sem-vergonha, Dona Iracy provavelmente haverá tomado chá de sumiço tão logo pôs os pés na rua, carregada de muamba ‒ não sem antes colocar justamente o número do meu telefone no formulário de cadastro de todas as vinte e sete filiais da loja de piscinas infláveis ou da revendedora de mobiletes usadas, no quinto andar de uma antiga fábrica de tapetes persas que agora funciona como locadora de vídeo. Mas existirá, de fato, Dona Iracy? Não fossem os enganos recorrentes, eu mesmo jamais teria tomado conhecimento de sua mal-falada serventia. Talvez o nome seja, também, falso como o número de telefone que ela inventou para fugir das dívidas. Dona Iracy, inadimplente e malandra, tomou banho de loja, parcelou deus e o mundo no cartão do Seu Gervásio e se mandou, sumiu do mapa. 




Hipótese b.

Dona Iracy é honesta e trabalhadora, mas tem problema de memória. Mudou-se há algum tempo, trocou de telefone e esqueceu de atualizar a lista telefônica. Os atendentes não têm culpa, apenas cumprem ordens. Ligam para cobrar, sim, mas pelo menos não ligam a cobrar. Divagações à parte: ela existe, o número existe, as dívidas e todos nós também, mas sobretudo o tempo. Iracy não foi a primeira, e tampouco serei eu o último detentor dessa sequência específica de algarismos relacionada a um aparelho telefônico. Culpa das privatizações, Fernando Henrique, o Plano Real e a queda do dólar, vai saber. Democratizado o acesso, anos depois, nunca me ligam atrás de mim. Desculpo-me de antemão, diariamente, não, não é do Mercury Hotel, muito menos da seguradora Vital, do açougue do Nonô nem pensar. Os "enganos" são rotineiros. Os horários variam, mas seguirão algum padrão oculto que me escapa? Por vezes curtos e grossos, sequer dão-se ao trabalho de pedir desculpas ou bater dois dedos de prosa. Por exemplo: hoje mesmo chamaram atrás de um certo Antônio, do qual obviamente nunca vi mais gordo, e, à minha negativa sobre ser este o número dele, solicitaram então o seu número e paradeiro atual, ao que foi preciso explicar e provar por a + b que, apesar de possuirmos o mesmo telefone, eu jamais tenha tomado contato ou nutrido qualquer relação (ou mesmo simpatia) com ele e que não, não adiantava ligar novamente, mais duas vezes para ser exato, na esperança de que pela simples repetição o número voltasse a ser dele, embora talvez nunca tivesse sido. O seguro de vida não pode esperar! O ouro está enterrado no... Bato o fone no gancho. Mentira, não o faço, mas deveria. Sou paciente e educado, como me ensinou minha mãezinha, antes de bater as botas no tapete para tirar a poeira. Com a Dona Iracy são ainda mais insistentes, afinal ela está devendo os olhos da cara, com juros e correção monetária, sabe-se lá desde que década. Mas ligam atrás dela com alguma razão, e era esse o ponto em que queríamos chegar, como bem afirmou o teórico Djavan: 

Aparelhos e respectivos proprietários de linhas telefônicas não passam de encarnações passageiras dessas mesmas linhas. Nós passamos, os números ficam. Simples assim. Quando o ponto a direciona uma ligação ao ponto b, ainda que, no momento, c seja o guardião e detentor da referida e hipotética linha, atinge-se, por intermédio e apesar de c, a conexão imaginária pretendida entre os dois espaço-tempos, embora às vezes em outro tempo.

Ora, a telefonia vernacular, por definição, é baseada em sistemas eletro-sonoros, como bem pôde constatar D. Pedro II ao receber o pedido de uma calabresa média sem cebola, enquanto esperava uma ligação de Graham Bell. Feito que as ondas sonoras, apesar de perderem corpo, não dissipam-se completamente no espaço ao longo do tempo; o engano da pizzaria e os cobradores de Dona Iracy atingem as mesmas conexões todas as vezes, em ambos os sentidos, em uma rede intrincada multi-dimensional através do tempo, apesar dos receptores trocados. Dito isso, talvez o meu número de telefone possa ser uma reencarnação direta da mesmíssima linha de D. Pedro II, com toda pompa e circunstância, embora o seu uso tenha sido pateticamente banalizado pelos cobradores de Dona Iracy e o péssimo sistema de reservas do Mercury ‒ apesar de muito possivelmente o verdadeiro número do imperador ter sido "dois", já que recebia a ligação de Graham Bell no aparelho número "um", e caso não se tratasse de trote do inventor concorrente¹, em busca da primeira patente. Por mais lógicas que aparentem ser essas constatações, é curioso notar que me ligam do açougue atrás de Iracy, mas também me ligam (sabe-se lá de onde) atrás do açougue. Esta é, sobretudo, a exceção que comprova a regra, o paradoxo pulsante da digitação telefônica, e minha sina enquanto dono-de-casa. Meu número de telefone teve vidas passadas de glórias, apólices, alcatras. Nos últimos tempos, telemarketing. Nesse caso, ligarão atrás de mim ou de quem for que atenda  não importando a encarnação, seja o hotel, a seguradora, o açougue ou a pobre Dona Iracy , tentando empurrar o novo pacote de canais da tevê sobre a vida dos pinguins em alta definição, 24 horas de gincana e tapetes persas falsificados desde que o mundo é mundo. Não, obrigado, não tenho interesse, veja bem, eu não fico importunando os senhores às 8 da manhã, sim, eu sei, não interessa que seja promoção, por favor não me liguem mais, obrigado, você também, até logo. 




Hipótese c.

Confirmar todos os enganos, anotar as reservas, oferecer a suíte presidencial, ser simpático, dizer que infelizmente só aceitamos rúpias. 




Hipóteses d., e., f., g., h. e i.

Trotar em meio ao caos temporal evidente no sistema telefônico brasileiro  e sequer mencionamos as implicações na telefonia móvel. Discar a esmo e perguntar "quer falar com quem?", ou: tocar o bolero de Ravel sem dizer uma palavra. Quem ouvir até o final certamente haverá de ter algo a dizer. Descobrir o endereço de Dona Iracy. Entregar a pizza a D. Pedro. Deixar o aparelho fora do gancho. Mudar o número do telefone.





* * *



Apêndice: A fenomenologia da linha cruzada

Gilmar pediu a pizzaria em casamento, enquanto Vilma achava "uma calabresa grande" o pior pedido de desculpas que já ouvira, além de proposta muito indecente. Desde este popular conto hindu, é possível perceber a frequência e fascinação exercidas pelo fenômeno conhecido como linha cruzada. De alta ocorrência em construções de uso readaptado pelo advento de "gambiarras" ou ditos "gatos" no sistema telefônico, não serão essas estatísticas, aqui, nosso objetivo de estudo. A linha cruzada de raiz não pode ser explicada e seu interesse metafísico provém, justamente, da ausência de causalidade. Tendo apontado, nos capítulos anteriores, a hipótese da reencarnação de canais telefônicos através do tempo, é de se esperar que listemos o que os teóricos da transcomunicação instrumental chamariam de "ruído gasparzinho" dentre as possíveis explicações para o fenômeno ‒ mas nada disso vem ao caso. O que realmente devemos nos perguntar, diante da observação de algo do tipo, certamente é: por que nunca dizem nada de interessante do outro lado?



Juan Carlos L'Embroma, Costumes Indígenas e Obsolescência Pós-Apocalíptica (1967)

Um comentário:

Liana disse...

Genial!!! Estava precisando ler um texto assim inteligente e engraçado neste final de terça!