quinta-feira, 18 de setembro de 2014

a curiosidade matou o fato





i.
“Para presidente, vote Agnaldo Taumaturgo”. À primeira vista, nada muito original, é bem verdade. Mas ao longo (sic) dos seus 4 suados segundos no horário eleitoral, a única e curiosa proposta foi se revelando, no mínimo, inovadora. “Eu tenho um segredo”, dizia, “O maior dos segredos, a verdadeira solução para os problemas do país”. Era preciso, naturalmente, dizer tudo muito rápido. Praticamente cuspir as palavras para caber no curto espaço de tempo do quadro, o que a princípio apenas provocou, após a mais absoluta indiferença, uma estranheza momentânea nos lares da classse média. “Foi isso mesmo que eu ouvi?”, perguntariam-se as donas de casa entre uma garfada e outra do jantar, ao que os maridos provavelmente responderiam “Isso o quê? Passa o sal”, e assim em diante. Mas o incrível poder da repetição, aliado à simplicidade do discurso, bastaram para despertar a atenção e conquistar aos poucos, se não a confiança, a curiosidade dos eleitores para com o extravagante candidato. Sorrateiro como uma mensagem subliminar ― uma pérola bruta incrustada em pleno horário nobre, espremida entre os gigantes de campanhas multimilionárias e superproduzidas ―, seu exótico lema foi repetido à exaustão, a cada dia provocando o arquear de mais sobrancelhas incrédulas.



Talvez o aumento significativo e meteórico da sua popularidade deva-se ao fato de que Agnaldo não revelava, de jeito nenhum, do que afinal se tratava o tal segredo, o que inquietava a imaginação das pessoas ― graças ao desejo de desfecho narrativo, incontrolável no ser humano, como atestará a literatura psicológica em prosa e verso ao longo da história. Seu plano de governo trazia apenas algumas poucas linhas onde anunciava o misterioso conhecimento, que a tudo resolveria, e só poderia ser desvendado após o pleito. Curiosidade popular, aos poucos começou a despontar nas pesquisas, com 1% das intenções de voto, e em ritmo vertiginoso escalou os gráficos, estatísticas e margens de erro deixando estupefatos mesmo os mais calejados coordenadores de campanha e marqueteiros. 




ii.

Mas quem diabos era Agnaldo Taumaturgo, o leitor certamente estará se perguntando, como também o fizeram as manchetes vespertinas e posteriormente seus próprios oponentes, ambos sem muito sucesso, ao perceberem a irritante existência do seu nome nas pesquisas. Na tentativa desesperada de levantar qualquer suspeita quanto à sua imaculada índole e candidatura, após o inesperado e curioso bordão cair no gosto popular, apelaram para um único caso de suspensão no colégio Benedito II, durante o quinto ano colegial, por conta de um mal-entendido na aula de educação física. Foi o melhor que encontraram para tentar manchar a sua imagem, mas o suposto escândalo provou-se de ineficácia completa. Solteiro, de meia idade, nascido e criado em Piraçungatininga, arquivologista de formação e sem qualquer trajetória política, era ao menos de se admirar a ousadia ― ou completa ingenuidade ― daquele homem, que há poucos meses inscrevera-se por correspondência no recém-criado Partido Horizontal Brasileiro, de absoluta inexpressão no cenário nacional, e cuja única norma explícita era a descentralização total e ausência de hierarquia dentro de seu quadro ― mas que apesar dos comentários irônicos quanto ao amadorismo político praticado por sua pífia militância, atraía alguns simpatizantes graças ao slogan involuntário “Deitado eternamente em berço esplêndido”, estampado em uma matéria pouco lisonjeira do semanário humorístico Seja, quando de sua fundação (do partido, não do semanário). O vice de Agnaldo, sorteado dentre os afiliados, não se mostrava mais esclarecido quanto ao possível conteúdo de suas propostas. “Eu também não sei do que se trata, mas apóio”, era o seu tímido posicionamento.



iii.
Conforme crescia nas pesquisas, foi tachado de charlatão, louco, mais um querendo aparecer, um palhaço gozando das instituições e do sagrado exercício democrático ― para ficar nos títulos mais amenos ―, mas não se deixava abalar e persistia repetindo o mantra “Meu segredo irá resolver tudo, não se preocupem”, o que não convenceu o âncora encarregado das perguntas na primeira entrevista para um noticiário televisivo, que, a princípio jocoso ante o singelo candidato, foi se tornando visivelmente irritadiço e contrariado como uma criança birrenta, após as evasivas de Agnaldo, que a tudo respondia com a mesma ladainha, como uma criança sapeca que inventa as regras do próprio jogo e acredita, de fato, na sua imaginação. Tampouco ganharia a confiança dos conglomerados e multinacionais, dos banqueiros e grandes financiadores de campanhas, ou dos setores conservadores em geral. Tentando desgastar a sua imagem, já exaustivamente ridicularizada internet afora e jornais adentro, a grande mídia esperneou mas foi obrigada a constatar sua impotência perante a ascensão meteórica da campanha de Agnaldo. Com a súbita exposição, ele apenas subia mais e mais nas intenções de voto, e já praticamente empatava a disputa com o candidato favorito. “Muita saúva e pouca saúde mental”, atacavam os editoriais.

Porém, mesmo rechaçado nas publicações especializadas, meios acadêmicos e veículos de comunicação internacionais, ou talvez devido a isso, criou-se uma espécie de mitificação em torno de sua figura que envolvia, sem exceção, dos mais esclarecidos cientistas políticos às velhinhas nas filas de supermercado. Todos queriam saber o que diabos, afinal, era o tal segredo tão bem guardado e exaustivamente repetido, que, apesar de única proposta e promessa de campanha do candidato, não podia ser revelado até a definitiva apuração dos votos. Agnaldo não atacava ou defendia coisa alguma, e era visto com desconfiança tanto pela direita quanto pela esquerda, de leste a oeste e outros pontos cardeais. Mas seu rosto estampava inúmeras camisetas e gifs animados, com todas as especulações possíveis, pastiches, exageros e suposições relacionadas à sua solucionática misteriosa. Tornou-se um ícone pop de influência incontestável, porém continuava reservado e low-profile a ponto de sequer contratar um assessor de imprensa ou uma dupla de guarda-costas. Não possuía conta em twitter, linkedin ou qualquer rede social relevante, mas proliferavam os memes a seu respeito. Amontoavam-se as conjecturas em torno do misterioso segredo, desdobrando-se em teses e tratados. Nem todos compraram o apelo fácil do seu discurso, é claro: cautelosos, os formadores de opinião opinavam, os analistas analisavam e os comentaristas comentavam. Nas ruas não se falava em outra coisa.

Durante o debate final, Agnaldo foi o único alvo de todos os candidatos e entrevistadores, que deixaram de lado até mesmo as denúncias de corrupção no governo atual ou os escândalos envolvendo a fábrica de salsichas de um dos candidatos da oposição, na tentativa de escrutinar-lhe definitivamente a retórica, mas perdendo-se, naturalmente, na sua própria, da qual transcrevemos o seguinte trecho:


[Candidato 1]: O Senhor está ciente de que um governo se faz com propostas e ações, não apenas com promessas vazias como esse suposto “segredo milagroso” que o senhor sequer tem a coragem de revelar, para devida análise de especialistas financeiros e da sociedade em geral, como o fizemos minha equipe e eu desde o princípio de minha carreira política há 45 anos, sempre às claras e jamais desamparando a pobre Dona Cotinha que não tem dinheiro para comprar os seus remédios de memória?


[Agnaldo]: Sim.


[Candidato 1]: Eu nunca roubei ou pratiquei qualquer corrupção fora do aceito socialmente, fui sempre fiel aos meus eleitores e seus votos, e agora venho ser ameaçado por um populista apelativo, de inexperiência política comprovada e que sequer realiza comícios em qualquer região devastada pela seca ou distribui uma cesta básica como prova de boas intenções. É por isso que o país encontra-se afogado na dívida externa e nos casamentos sem marcha nupcial, o que no meu governo não será admitido sob hipótese alguma. Obrigado.


Demonstrava tamanha calma nas réplicas e originalidade em seu modus operandi, que seria uma tarefa praticamente impossível desacreditá-lo. Trazia na ponta da língua a resposta que a tudo resolveria, no seu devido tempo, sem maiores explicações. A crise do petróleo, os índices de desemprego, a dívida externa, a saúde, a educação e os direitos civis, não havia tema que o abalasse e que não pudesse ser perfeitamente solucionado no seu mandato. Por mais que os outros o pintassem de fanático ou lunático, também era carismático, passava mesmo uma boa impressão. Era o tipo de senhor que conquistava a simpatia das tias beatas da gente, sempre muito educado e sereno, mas deliciosamente enigmático.

iv.
No dia das eleições, o povo compareceu em massa. Compelidos pela possibilidade assustadora de não saber o final da história, os votos registraram um recorde em número de nulos e abstenções próximo do zero. A boca de urna ainda tentava dissuadir os curiosos, mas à boca pequena comentava-se com entusiasmo por todos os cantos: “Finalmente vamos saber que merda de segredo é esse”. O desfecho ocorreu como antecipado: o único candidato que não fizera comícios, passeatas ou corpo-a-corpo, que não beijara bebês alheios nem imprimira um santinho ou outdoor sequer, havia sido eleito. Toda a sua divulgação tinha se dado espontânea e gradativamente, aquecida pelo rebuliço em torno do misterioso segredo que seria agora, enfim, revelado. Elevado ao cargo máximo da nação pela curiosidade mórbida do eleitorado, Agnaldo tinha o mundo a seus pés. 

Após a cerimônia de posse, à qual compareceram as mais distintas autoridades, penetras e corpos diplomáticos, o novo presidente agendara um pronunciamento oficial, onde esperava-se que pusesse um fim aos altos índices de inquietação e coceira auricular da população, botando a boca no trombone e contando, de uma vez por todas, tudo o que guardara para si durante os meses de campanha certamente por estratégica cautela, devido ao magistral poder transformador que a revelação acarretaria. Instituiu-se feriado nacional, enquanto a população se voltava para os televisores e rádios de pilha, à espera do grande momento. 

v.
À hora marcada, Agnaldo subiu ao pódio, devidamente enfaixado com os louros presidenciais. Trazia uma chama no olhar como antes não se havia notado, e poderia se dizer que caminhava com extrema convicção, aqueles poucos mas intermináveis passos. “Prezados cidadãos e cidadãs”, começou, “a voz do povo é a voz de Deus, embora ele não exista. E Deus, digo, o povo clamou por mudança, por novos ares, ao me eleger a este nobre cargo. Não os decepcionarei, vou lhes contar um segredo”. O silêncio mais profundo tomou conta do país, enquanto milhões de pessoas prendiam a respiração. O que se sucedeu certamente constará nos livros de história: Agnaldo colocou a mão no bolso interno do paletó e puxou pelo rabo, de sopetão, um longo e lustroso surubim-chicote, prosseguindo a batê-lo repetidamente contra o palanque, aos gritos de “Esse aqui é o segredo, a solução de todos os nosso problemas!”. Trazia o semblante transfigurado, os dentes à mostra, e continuava: “Obrigado pelos votos! Agora tudo será solucionado, seremos a nação mais próspera da Terra, quiçá de todo o sistema solar!”. O público assistia estupefato, mas a cena não durou muito. Após o choque inicial, foi uma questão de segundos até que os seguranças recolhessem o líder transtornado dos holofotes, os assessores tomassem o seu lugar com explicações improvisadas, a polícia fosse acionada e todo o governo tentasse conter a situação ― o que, obviamente, não foi possível. Houve revolta nas ruas, saques e vandalismo. Atearam fogo à bandeira nacional e tentaram invadir o palácio, para realizar o derradeiro golpe de estado que extinguiria todas as instituições. O exército, a marinha e a força nacional, a duras penas, contiveram o levante. Mal se havia dissipado as nuvens de gás lacrimogênio, todos clamavam pelo impeachment, linchamento e execução sumária de Agnaldo. Achou-se mais prudente que fosse apenas afastado do cargo e encaminhado a um hospital psiquiátrico de localidade desconhecida, enquanto o vice assumiria o governo e tentaria acalmar os ânimos gerais, já absurdamente exaltados. A oposição insistiu em que fosse investigado o peixe e sua procedência, ao que se instaurou a famigerada CPI que duraria aproximadamente quatro anos, sendo posteriormente abandonada sem chegar a conclusões definitivas. 

Apesar das adversidades, fugas de investidores e quedas vertiginosas na bolsa de valores, o vice prosseguiu com o mandato, morno mas sem maiores problemas. Inaugurou os monumentos de praxe, compareceu às reuniões internacionais, beijou as mãos certas e gastou mais da metade do orçamento federal em publicidade pós-traumática, tudo para recuperar a auto-estima e o orgulho feridos do país (Chegou-se mesmo a reparar parte do dano, retratando Agnaldo como visionário incompreendido, e instituindo-se o surubim-chicote como prato simbólico nacional, aumentando consideravelmente o volume de exportações e a pesca esportiva dessa espécie). Ao deixar o cargo, lembraria que “abandonar a vida pública é um exercício de desapego”, e sua estátua ainda orna a praça central de Jabiratininga do Sul, sua terra natal, servindo de descanso aos pombos e pano de fundo aos selfies dos namorados em noite de São João.


vi.
Era novamente ano eleitoral, e, tão logo teve início a disputa, percebeu-se imediatamente o aumento significativo de candidaturas e partidos. Após a dissolução do PHB, os tribunais registraram alta de 254% nas inscrições de novas entidades e número recorde de filiações aleatórias. A propaganda eleitoral já tomava o horário nobre, e não se podia deixar de reparar no discurso familiar da maioria dos candidatos: cada um anunciando uma solução mais secreta e misteriosa que a outra para os problemas do país.




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Nota: Este conto não se trata de referência direta à atual conjuntura, tampouco análise ou especulação política de qualquer forma - embora eventuais semelhanças com a realidade possam vir a ocorrer, intencionalmente ou não, devido à peculiaridade intrínseca dos processos político-sociais e, porque não, humorísticos, do nosso país. Assume-se, aqui, o direito de livre-associação, licença poética e divagação imaginativa pura e simples, a nível de exercício literário individual e indissociável da obra do autor como um todo. Resumindo, isso aqui não passa de ficção. Não chega nem perto da realidade, naturalmente.

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