terça-feira, 2 de setembro de 2014

indo ao dentista

Ir ao dentista é mais uma pequena experiência em que se deve participar esporadicamente para compreender por completo o escopo do ser humano. Trata-se não apenas de um doloroso – e caro –, mas entediante processo ao qual esses comparecem em troca de não passar o fio dental todo santo dia.

Para se ir ao dentista, primeiro é preciso passar por uma salinha pequena e de decoração duvidosa, com uma televisão ligada em algum canal chato e revistas velhas e amassadas de fofoca ou semanários de direita amontoadas dentro de uma cesta ou sobre uma mesinha baixa, ao lado de um sofá desconfortável. Deve-se sentar com estranhos no sofá, em silêncio constrangedor e evitando contato visual – para evitar suspeitas quanto à sua procedência geográfica ou preferência política –, e dirigir-se apenas à senhora do outro lado do balcão, também no recinto, que se encontrará lendo algum livro de auto-ajuda ou pintando as unhas enquanto atende ocasionais telefonemas.

Após um período que pode variar entre trinta e noventa minutos, em média, ao qual os pacientes vão entrando e saindo do consultório, se é chamado e deve-se largar, educadamente, o artigo sobre as férias da atriz da novela na Riviera francesa pela metade em cima do sofá, levantar-se e andar até a porta, onde o doutor (ou a doutora) estará nos esperando com a mão fria e macia estendida e um sorriso, ironicamente amarelo, no rosto. Após breves cumprimentos e saudações, ele (ou ela) nos guiará à cadeira odontológica e sua assistente (geralmente ela), à qual ainda não fomos sequer apresentados, irá prontamente se encarregar dos acessórios da sessão, a saber: um babador de criança, um guardanapo e um sugador de saliva com motorzinho. Não é preciso estranhar os objetos empregados neste tipo de ritual, que poderão ainda compreender uma escarradeira de platina, um espelhinho curvo e – caso você esteja sem sorte – uma broca de tamanhos variáveis. A partir desse ponto, reaja normalmente. Não é preciso conter os gritos e as contorções, já que o doutor e a sua assistente são profissionais tarimbados (espera-se) e estarão acostumados aos pacientes mais dramáticos. Deixe-os trabalhar e abstraia eventuais sangramentos e injeções.

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