sexta-feira, 24 de outubro de 2014

complexo de épico*


Na noite da última quinta-feira, a sociedade carioca pôde deleitar-se com mais um espetáculo de altíssimo nível nos átrios do glorioso Theatro Municipal. E ponha alto nisso, como pude constatar empoleirado nos fundos da galeria. Se passei incólume à vertigem bamboleante da vista, o mesmo não se pode dizer do inevitável torcicolo provocado pelo ângulo agudo em declínio. É estranho que se reservem assentos tão desconfortáveis para a tribuna de honra, mas talvez não tenham me reconhecido. No convite constava, erroneamente, o nome de um tal candidato a vereador, mas o equívoco parece ter se estendido a todos os presentes. Achei mesmo curioso que se estivessem distribuindo as entradas na porta do teatro, justo enquanto eu passava, coincidentemente, de fraque e cartola, a caminho da lotérica.

Mais uma vez, o majestoso palco do Municipal esteve repleto de boa música. A sinfônica, tão logo pôs-se em seus lugares, tratou logo de improvisar uma curiosa peça dissonante enquanto o regente não chegava. A obra, de extrema vanguarda, causou-me profunda comoção intelectual especialmente pela inserção da pulsante ala de celulares em uníssono, estabelecendo de vez o vínculo muitas vezes subestimado da música erudita com a pós-modernidade. Finda a precisa execução, mal pude me conter e saudei a platéia com um bravo! inevitável. A beleza da música contemporânea, sem dúvida, está na sua imprevisibilidade; no uso dos timbres, texturas e contexto espacial como elementos indissociáveis da obra.

Curiosamente, o programa não revelava a autoria da magistral composição. Tampouco constava no menu de canapés do intervalo. Pensando neles, preparava-me para levantar quando o maestro resolveu aparecer, provavelmente atrasado devido ao demorado processo de afinação da batuta. Retornei ao assento no momento em que seus braços descreviam uma parábola perfeita e vigorosa rumo às primeiras notas, como só se vê nos profissionais mais tarimbados e de excelência incontestável. Infelizmente era visível, além da reluzente coroinha, a absoluta miopia do nobre regente, que, para conseguir reger a obra, teve de ter a pauta soprada pela senhora de binóculo da terceira fileira. Nesse morno quase-andante do século dezenove, só não me tornei mais entendiado do que o abatido timpanista, que trocava mensagens com o segundo violino enquanto não chegavam os dois últimos compassos. O marasmo do clássico revisitado foi salvo pela excelente participação em tosse-solo do senhor da décima quarta fileira, impecavelmente afinado ㅡ embora a cada movimento o autor provavelmente se revirasse na tumba. A escolha do repertório revelou-se um tanto quanto eclética, atravessando períodos distintos da história musical e culminando no ronco atento do meu estômago, em aprovação à alta cultura a que fora submetido ㅡ em côro com o ronco da velhinha ao lado, sem dúvida pelo mesmo motivo.

Em poucas horas, o rangido das cadeiras e uma selva de palmas anunciaram o fim de mais um espetáculo sublime, ao qual o público seguiu para o Salão de Selfies e posteriormente para as carruagens coletivas da Praça Floriano. 

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Um comentário:

Liana disse...

Amei!! Baseado em alguma experiência su(real)?