sexta-feira, 3 de outubro de 2014

nota de rodapé


1. Não demorou muito para que a tecnologia evoluísse até o ponto dos implantes cerebrais. O novo iBrain trazia não apenas atualizações automáticas ㅡ para não dizer obrigatórias ㅡ a cada 15 segundos, como passou a vir instalado de fábrica em todos os bebês a partir da geração Z, incluindo um manual de instruções e termo de adesão em nanotipografia. Provia acesso ilimitado a todo o acervo musical, pornográfico, literário, científico e meteorológico da humanidade ㅡ mediante cobrança imediata em cartão de crédito, naturalmente. Os algoritmos não ficaram pra trás: todo o conteúdo disponibilizado era previamente calculado de acordo com o perfil socioeconômico, cultural e ontogênico dos usuários. De forma imperceptível, seus feeds pessoais e prováveis interesses passaram a ser gentilmente sugeridos a cada piscar de olhos, embora a tênue linha entre a sugestão e a imposição fosse cada vez mais desfocada. Não que alguém se importasse com isso. Conveniência acima de tudo, convenhamos. “Keep it greasy, so it will go down easy”, já dizia aquela canção. Mas como o sistema funcionava, na prática? Digamos que você passaria a gostar de música pós-pop industrial-eletrônica sem saber porque, mesmo sempre tendo sido um fervoroso ouvinte de tangos e boleros. Quando menos percebesse, estaria assobiando o último e recém-lançado sucesso das paradas, talvez perguntando-se inconscientemente “de onde eu conheço essa merda?”, e sendo cobrado por isso. Aquela música grudenta, que não saía da cabeça por nada, não apenas tocava em intervalos programados ㅡ intercalada com a sua programação pessoal, o que provia a sensação ilusória de controle e liberdade totais ㅡ, como passava a influenciar, de fato, os seus gostos e decisões. O novo sistema de Mind Royalties provou-se o mais eficiente modo de cobrança e fonte de receita para a indústria musical desde a invenção do tonalismo, mas felizmente não duraria muito, como veremos a seguir.