quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Sendo Humano - Um Guia Para Visitantes

Cap.2 - Sobrevivência

O DINHEIRO

O dinheiro movimenta o mundo, disso não há dúvida. Sua força, aparentemente, suplanta a dos movimentos de rotação e translação da Terra combinados, colocando-o, virtualmente, no centro do nosso sistema planetário, quiçá universal. Comparado, no axioma popular, como equivalente ao próprio tempo, poderia mesmo tratar-se da quarta ou quinta dimensão, o que o posiciona mais no campo da física quântica do que da própria economia ou da fabricação de relógios.

Pode ser medido através de diversos e distintos mecanismos como a bolsa de valores, os índices de inflação e o preço do barril de petróleo, embora na prática seja de fácil compreensão: o dinheiro é uma espécie em extinção. Tende a desaparecer em questão de segundos de dentro do bolso das calças e da carteira do cidadão comum. Ou melhor, teletransporta-se em velocidade vertiginosa para os cofres das instituições bancárias multinacionais e para contas na Suíça ou nas Ilhas Caimã. Possui, está claro, propriedades magnéticas: muito dinheiro atrai mais ainda. Além disso, conclui-se que a bufunfa goste igualmente de esquiar nos alpes e de praias paradisíacas. Já de colchões velhos nem tanto.

Daí o velho e infalível ditado: “dinheiro não traz felicidade, manda trazer”.
Em todo caso, o fato é que sem dinheiro não se vive neste planeta. Então como consegui-lo? 
É o que veremos no capítulo a seguir.




A LOTERIA

Não é incomum, nos centros urbanos, observar a formação de aglomerações ordenadas sobre uma reta ou curva imaginária em convergência a certos estabelecimentos com guichês numerados, a maioria ostentando símbolos enigmáticos como trevos de quatro folhas ou ferraduras na fachada. A densidade destas aglomerações, invariavelmente, será diretamente proporcional ao número de zeros acumulados no letreiro da fachada, e o objetivo mais provável sempre o mesmo: fazer uma fezinha  embora nos dias iniciais de cada mês costume se somar aos boletos das contas de luz, água, telefone e crediário, dentre outras. Não à toa, mencionamos a estatística aplicada como fator fundamental para a compreensão do fenômeno observado em questão: contrariando a lógica pragmática, em uma extrapolação mesmo da mais otimista das probabilidades, os seres humanos apostarão, religiosamente, no jogo de azar institucionalizado e em suas variações  ora marginalizadas, ora elitizadas , seja através do jogo do bicho, do caça-níqueis, da sinuca, da porrinha1, dos cavalos, da roleta, da raspadinha, da rinha de galo ou do bolão da firma, dentre inúmeros outros exemplos, na tentativa ilusória de “se dar bem” e mandar o patrão2 definitivamente à merda. Nunca se sabe, vai que rola.

1. Por mais banal que possa parecer, e de fato o seja, a porrinha ainda causa reações coléricas que podem descambar para a morte aleatória, especialmente de não envolvidos, como se pôde notar pelo inexplicável caso ocorrido esta semana, em plena terça-feira,  no centro. Na tentativa de esfaquear o oponente, um mau perdedor foi impedido por um justiceiro anônimo que, não contente em interferir nos negócios alheios, terminou baleando um cliente do bar ao lado, que não tinha nada a ver com a história. O seu alvo, a salvo graças a essa “distração”, tenta fugir pulando do nono andar do prédio em que mora, sai ileso e é finalmente preso. O baleado morre, o esfaqueado vive e o justiceiro some. Fim.

2. Ver CHEFE.








O CRIME

Não demorou muito para um dos primeiros representantes da espécie humana constatar que poderia simplesmente tomar à força o que desejava de seu semelhante, instituindo assim o crime como prática ordinária já na pré-civilização. Na verdade, como é sempre o caso das vanguardas, o ato é criado antes de sua classificação. Levando isso em consideração, o crime como algo reprovável passa a existir no momento em que a primeira vítima resolveu ir à forra e tomar de volta o que era seu em primeiro lugar. Em plena evolução, e com assustadoras capacidades adaptativas, o crime tem se aprimorado e ramificado em categorias inesgotáveis desde então, com maior ou menor grau de sucesso.

Do humilde ladrão de galinhas ao batedor de carteiras, passando pelos colarinhos brancos, ilusionistas e tele-evangelistas, a lista se estende além da capacidade espacial deste guia, mas está claro que o crime pode ocasionalmente compensar. Que o digam os políticos de alto ou médio escalão, a portas fechadas, no pé do ouvido dos assessores, com um copo de uísque numa mão e uma maleta recheada na outra, não sem antes checar debaixo da mesa e atrás das cortinas do gabinete por grampos ou escutas telefônicas, naturalmente.

É claro que o crime nem sempre será utilizado com o intuito de se obter dinheiro mas, de qualquer forma, caso a fuga não seja bem sucedida, o resultado poderá ser o mesmo: a prisão.




A PRISÃO

ver ANEXO 1




A HERANÇA

Para se evitar aborrecimentos, o mais recomendável mesmo é já nascer rico. Como todo mundo sabe, dinheiro não dá em árvores, a não ser nas de tipo genealógico raríssimo e literalmente bem afortunadas.

Para a maior parcela da população, resta o trabalho.




O TRABALHO

Dizer que o trabalho dignifica o homem é, no mínimo, uma proposição incompleta. Seria preciso, antes de mais nada, definir de que homem estamos falando. Afinal, abre-se margem para interpretar que o autor do trabalho não seria, necessariamente, o dignificado, mas um segundo sujeito que se aproveitaria do esforço do anterior. E isso seria simplesmente inconcebível, não é mesmo? Provavelmente a vaguidade do termo  digno de quê? ㅡ acentue, propositalmente, o intuito manipulador do lema em questão. Ao não definir o sujeito de nenhuma das ações, cria-se uma polarização óbvia entre ambas: o trabalhador e o dignificado poderão nem sempre ser a mesma pessoa. Ao afirmar, ainda, que o trabalho (de quem?) teria o poder de, por si só, dignificar alguém, ignora-se a parcela de responsabilidade humana nesse processo, afinal só se é dignificado em relação a si mesmo ou a outrem, como forma de reconhecimento ou merecimento dentro de um sistema de códigos pré-estabelecido. Seria mais correto afirmar, pura e simplesmente: o trabalho paga o homem, ou ainda: o trabalho dá dinheiro ao homem. Ou deveria. Alguns mais, outros menos, é bem verdade, mas divagamos.

Caso você não se encaixe em alguma das categorias anteriores, certamente precisará de um. É de praxe começar com uma consulta minuciosa aos classificados do jornal do vizinho, de lupa e caneta em punho, tendo-se o cuidado de observar os requerimentos necessários a cada cargo e não deixando-se distrair pelos prognósticos horoscópicos do dia. Após algumas chamadas telefônicas, certamente se terá marcado uma entrevista, onde você demonstrará todas as suas capacidades e aptidões, obviamente muito acima das dos demais candidatos e de acordo com a posição disponível, seja ela qual for, e por mais desconfortável que pareça.




O (A) CHEFE

Caso a posição disponível não seja a de chefe, você certamente terá que lidar com um. O chefe é alguém que entende e sabe conciliar as necessidades da empresa com as dos funcionários, e coordena a linda coreografia dos cronogramas, prazos, metas e desafios que serão facilmente superados por todos, juntos, e depois remuneradas de forma generosa. 




ALTERNATIVAS

Visando a praticidade deste guia, providenciamos na lista a seguir algumas profissões de prestígio comprovado, para facilitar a escolha dos leitores e não despertar suspeitas:

Astronauta
Padeiro
Cientista Espacial
Advogado Criminalista
Médico Legista
Cargos Públicos (ver CRIME)
Dentista (ver INDO AO DENTISTA)
Auxiliar de Almoxarifado
Desenhista Industrial
Psicanalista
Alfaiate
Playboy (ver HERANÇA)


Tentamos generalizar, na medida do possível, mas o mercado de trabalho é mais amplo do que se imagina. O ser humano expandiu os seus conhecimentos e distrações a tal nível, que não seria exagero afirmar ser possível, hoje, inventar a sua própria profissão em questão de segundos.

Acima de tudo, lembre-se de que você sempre poderá se tornar o mais novo rockstar de fama internacional ou escritor de best-sellers renomado, tudo depende da sua insistência (e de alguns outros pequenos fatores sem importância em conjunção com a órbita solar e uns poucos cálculos elementares).


................................................................................................




ANEXO 1


Caso termine no xadrez, você provavelmente falhou no objetivo deste guia. Contrate um bom advogado, caso não seja um.




Um comentário:

Liana disse...

Excelente, sobrinho. Como sempre!!! Parabéns!