domingo, 13 de dezembro de 2015

onde está o riso?

Nas breves alusões a respeito do constructo cômico, a Poética e a Retórica aristotélicas afirmam que são matérias de sustentação do cômico aquelas de natureza infamante. Porém advertem que nem tudo que é ignóbil deve servir ao riso. Dependendo de sua extração e natureza, as matérias baixas servem mais ao horror do que à graça. “A Comédia é Imitação dos Piores; não segundo todo gênero de vício, contudo, ainda que o Ridículo tenha origem no Feio. Pois o Ridículo é, por certa convenção, erro e feiúra sem dor e com o mínimo prejuízo; e a face deformada, distorcida sem dor, surge imediatamente como ridícula.” Contudo, a dificuldade de se estabelecer o que é exatamente “uma deformidade sem dor” levou o próprio Aristóteles, na sua Ética em Nicômaco, a colocar em dúvida se se pode mesmo definir o que seja o ridículo, especialmente porque muitos riem de coisas, na verdade, dolorosas. A resposta a si próprio veio no mesmo livro, na alusão a que algo pode ser doloroso para alguns sem que seja para outros, e o que determina isto é a disposição dos ânimos em cada audiência.

Geraldo Noel Arantes
CAMPOS DE CARVALHO: INÉDITOS, DISPERSOS E RENEGADOS
Dissertação de mestrado em Teoria e História Literária - Unicamp, 2004.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

plunderphonics




Plunderphonics, ou audio-pirataria como uma prerrogativa composicional, foi um termo criado pelo artista John Oswald para seus experimentos sonoros em que desmembrava canções pop, trilhas de cinema e balés famosos utilizando gavadores e técnicas de reprodução alterada para criar novos sons "com a fonte ainda reconhecível".


Para saber mais, leia o artigo Do Dada ao Meme, no Chupa Manga Zine nº1

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

sempre em frente

pelo retrovisor do motorista
é possível enxergar, além da pista,
as vidas passadas dos passageiros
as idas e vindas da espécie humana
o meteoro e a era glacial
a extinção dos dinossauros

tudo isso o motorista vê, mas continua
seguindo o itinerário

terça-feira, 13 de outubro de 2015

mini tour




         o chapa mamba faz uma mini turnê entre 11 e 15 de novembro,
         datas no evento: facebook.com/events/434346410094604/

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

arte e utopia

Cada escritor encontra no outro o seu complemento e a indicação de um horizonte não alcançado ou pretendido. Suas obras constituem como que círculos que se tangenciam, interpenetram, repelem. Cada obra tem na outra uma possibilidade abandonada. Cada uma é o que é porque não quis ou não pôde ser o que a outra é. A identidade se marca pela diferença. Le Livre é o que não há. Ele seria a reunião de todos os pontos máximos alcançados pelas maiores obras. Tais ápices somente são possíveis dentro do princípio organizatório de cada uma das obras, e este não é idêntico em todas. Pelo contrário, ele é basicamente diferenciado. A opção por um caminho significa o abandono de outros. Como em um jogo de xadrês [sic] ou em uma cristalização amorosa, um encaminhamento em um lance determina outros encaminhamentos posteriores, e, em geral, se torna irrecuperável, dentro desse espaço, a opção por outros caminhos.

Flávio R. Kothe, Fundamentos da Teoria Literária vol. I (Ed. UnB, 2002)

terça-feira, 4 de agosto de 2015

chupa manga zine #1



15 x 17 cm
48 páginas em pólen soft, preto e branco
tiragem 300 exemplares
impresso no inverno de 2015


COMPRE AQUI

quarta-feira, 8 de julho de 2015

cinema


O MONSTRO DA LAGOA NEGRA (dir. Jack Arnold, 1954)

por Rubensvaldo Filho


Novamente o imperialismo vem dar as caras para tomar o que é nosso. A comitiva de cientistas americanos metidos a exploradores — e como —, invade a selva amazônica, em convênio com o Instituto de Biologia Marítima, apenas para causar o maior impacto possível ao meio ambiente. Uma escavação irregular — certamente em busca de minérios preciosos — desenterra o fóssil de uma espécie desconhecida, o possível elo perdido e ancestral anfíbio do ser humano. Movidos pelo prestígio que a descoberta causaria na comunidade científica do primeiro mundo, os americanos montam expedição para caçar seu último exemplar vivo. Contratam uma embarcação de pesca sem licença, cujo suspeito capitão se diverte em tocar o apito para espantar os animais ribeirinhos, e navegam rio adentro até o riquíssimo ecossistema onde vivem, além do espécime em questão, centenas de outras espécies não-classificadas pela ciência. Adentrando o habitat intocado, todos os guias indígenas são mortos de forma patética pelo ameaçado (e, por isso, ameaçador) "monstro", enquanto aos cientistas resta mergulhar na lagoa negra colhendo amostras geológicas e depredando a flora nativa. Ao se depararem com o triste animal, decidem envenenar a água — e consequentemente todos os peixes do local — para capturá-lo como prêmio. Enquanto isso, a mocinha contribui com o desastre ambiental atirando as bitucas de seus cigarros do barco. Após destruirem um dique de castores que represava o lago, os invasores perseguem o monstro até o seu ninho, alvejando-o em seguida com tiros de espingarda e levando, enfim, a raríssima espécie à extinção.




    Acima, o anfíbio antropomorfo ajuda a doutora Lawrence a se levantar
    Abaixo, os gananciosos cientistas capturam o espécime envenenado
    No fim, "o monstro da lagoa negra", uma espécie agora extinta





domingo, 10 de maio de 2015

a geração google não sabe
usar o google
é o que diz
a nova pesquisa do google

mas, por outro lado o google sabe
usar a geração google

e muito bem

segunda-feira, 20 de abril de 2015

o artista e a cidade

O artista e a cidade. Pois o artista, diferente do artesão concebido por Platão, não orienta seu trabalho em uma área limitada e definida, segundo o princípio inflexível da divisão do trabalho e do especialismo intransigente que inspira a cidade ideal. Mas, semelhante nisso a Proteo, muda constantemente de fazer, inclusive de ser, até o ponto em que pode definir-se como um indivíduo que pretende ser e fazer todas as coisas. Em razão dessa pretensão sugere o filósofo (Sócrates) sua expulsão da cidade, já que constitui um núcleo permanente de subversão na urbe em que cada indivíduo se acha submetido ao império de uma só atividade, de um só papel social, sem que lhe seja possível modificar essa fatalidade que o condena.
(...)

Apenas em uma cidade, não ideal como a platônica, mas real como a renascentista florentina, pôde-se pensar essa síntese em termos reais, de maneira que nela o artista passara a constituir a figura mesma do homem, o qual, semelhante a Proteo, aparece na filosofia da época como aquele ser que carece de identidade e essência definida. E que por essa razão pode construir, fazer, produzir consigo mesmo qualquer identidade. Na filosofia de Pico della Mirandola aparece implicitamente reintegrado o Artista na Cidade, alcançando-se assim uma síntese que em Platão havia sido cumprida em termos teóricos mas não em termos práticos.

Essa síntese tripla de Eros e Poíesis, de Alma e Cidade, de Arte e Sociedade, sugere assim uma ordem social em que todo homem é artista, e em consequência sujeito erótico e produtor ao mesmo tempo, sem que seja necessário então coroar essa ordem mediante uma superestrutura política e filosófica, desvinculada da base erótico-produtiva.

Quando essa síntese tripla se quebra aparece a esfera anímica desvinculada da esfera social, de maneira que Eros não se prolonga em produção nenhuma, de maneira que Poíesis não acha em Eros nem na Beleza seu princípio e seu fundamento. Surge então o Desejo, conceito moderno que implica essa prévia divisão traçada entre o subjetivo e o objetivo. Desejo o qual, ao não achar-se mediado com a Produção, perde também seu vínculo com o objeto que almeja, Bem ou Beleza. Essa perda faz com que o objeto que lhe é próprio apareça então como eternamente ausente e separado. Apenas mediante a dissolução do sujeito desejante - através da Morte ou da Loucura - resulta possível o reencontro do desejo com seu objeto. Correlativamente surge a Produção, conceito moderno que constitui o objetivo traduzido do Desejo. Essa Produção, esse Trabalho, ao perder seu vínculo com o fundamento, com o princípio, chame-se esse Bem ou Beleza, sofre destino análogo ao Desejo: se constitui em esfera autônoma e separada, sem vínculo com o mundo anímico do sujeito desejante. Em consequência, se torna uma esfera fundada em sua própria inanidade: produção que busca apenas a produção, precipitadamente e sem norte, achando-se nisto, igual ao Desejo, como último horizonte de sua busca também a Morte: horizonte de destruição e desperdício ao qual conduz a produção ensimesmada.

Eugenio Trías
El Artista y la Ciudad, 1976.

domingo, 18 de janeiro de 2015

via burocrática

A essa altura, já estará claro para o leitor que um carimbo com números e brasões tem o poder de oficializar qualquer coisa. Sendo datado, melhor ainda. Conforme o tempo que se tenha esperado na fila por ele, além, é claro, da quantidade de etapas percorridas no caminho e do montante de papelada preenchida — no máximo de vias possível —, valerá mais quanto mais difícil for obtê-lo.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

cocada preta




novo single do próximo disco do chapa mamba, a ser lançado muito em breve.