segunda-feira, 20 de abril de 2015

o artista e a cidade

O artista e a cidade. Pois o artista, diferente do artesão concebido por Platão, não orienta seu trabalho em uma área limitada e definida, segundo o princípio inflexível da divisão do trabalho e do especialismo intransigente que inspira a cidade ideal. Mas, semelhante nisso a Proteo, muda constantemente de fazer, inclusive de ser, até o ponto em que pode definir-se como um indivíduo que pretende ser e fazer todas as coisas. Em razão dessa pretensão sugere o filósofo (Sócrates) sua expulsão da cidade, já que constitui um núcleo permanente de subversão na urbe em que cada indivíduo se acha submetido ao império de uma só atividade, de um só papel social, sem que lhe seja possível modificar essa fatalidade que o condena.
(...)

Apenas em uma cidade, não ideal como a platônica, mas real como a renascentista florentina, pôde-se pensar essa síntese em termos reais, de maneira que nela o artista passara a constituir a figura mesma do homem, o qual, semelhante a Proteo, aparece na filosofia da época como aquele ser que carece de identidade e essência definida. E que por essa razão pode construir, fazer, produzir consigo mesmo qualquer identidade. Na filosofia de Pico della Mirandola aparece implicitamente reintegrado o Artista na Cidade, alcançando-se assim uma síntese que em Platão havia sido cumprida em termos teóricos mas não em termos práticos.

Essa síntese tripla de Eros e Poíesis, de Alma e Cidade, de Arte e Sociedade, sugere assim uma ordem social em que todo homem é artista, e em consequência sujeito erótico e produtor ao mesmo tempo, sem que seja necessário então coroar essa ordem mediante uma superestrutura política e filosófica, desvinculada da base erótico-produtiva.

Quando essa síntese tripla se quebra aparece a esfera anímica desvinculada da esfera social, de maneira que Eros não se prolonga em produção nenhuma, de maneira que Poíesis não acha em Eros nem na Beleza seu princípio e seu fundamento. Surge então o Desejo, conceito moderno que implica essa prévia divisão traçada entre o subjetivo e o objetivo. Desejo o qual, ao não achar-se mediado com a Produção, perde também seu vínculo com o objeto que almeja, Bem ou Beleza. Essa perda faz com que o objeto que lhe é próprio apareça então como eternamente ausente e separado. Apenas mediante a dissolução do sujeito desejante - através da Morte ou da Loucura - resulta possível o reencontro do desejo com seu objeto. Correlativamente surge a Produção, conceito moderno que constitui o objetivo traduzido do Desejo. Essa Produção, esse Trabalho, ao perder seu vínculo com o fundamento, com o princípio, chame-se esse Bem ou Beleza, sofre destino análogo ao Desejo: se constitui em esfera autônoma e separada, sem vínculo com o mundo anímico do sujeito desejante. Em consequência, se torna uma esfera fundada em sua própria inanidade: produção que busca apenas a produção, precipitadamente e sem norte, achando-se nisto, igual ao Desejo, como último horizonte de sua busca também a Morte: horizonte de destruição e desperdício ao qual conduz a produção ensimesmada.

Eugenio Trías
El Artista y la Ciudad, 1976.