segunda-feira, 14 de setembro de 2015

arte e utopia

Cada escritor encontra no outro o seu complemento e a indicação de um horizonte não alcançado ou pretendido. Suas obras constituem como que círculos que se tangenciam, interpenetram, repelem. Cada obra tem na outra uma possibilidade abandonada. Cada uma é o que é porque não quis ou não pôde ser o que a outra é. A identidade se marca pela diferença. Le Livre é o que não há. Ele seria a reunião de todos os pontos máximos alcançados pelas maiores obras. Tais ápices somente são possíveis dentro do princípio organizatório de cada uma das obras, e este não é idêntico em todas. Pelo contrário, ele é basicamente diferenciado. A opção por um caminho significa o abandono de outros. Como em um jogo de xadrês [sic] ou em uma cristalização amorosa, um encaminhamento em um lance determina outros encaminhamentos posteriores, e, em geral, se torna irrecuperável, dentro desse espaço, a opção por outros caminhos.

Flávio R. Kothe, Fundamentos da Teoria Literária vol. I (Ed. UnB, 2002)