quinta-feira, 19 de maio de 2016

leituras cruzadas e livre associação



Tenho lido vários livros ou trechos deles ao mesmo tempo, hábito que costuma levar a conexões interessantes e soluções inesperadas a questões que estejam rondando a minha cabeça no momento. Ainda mais agora, quando a ficção tem concorrência tão desleal com a própria realidade, alguns textos se destacam como alegorias do presente, interpretações possíveis e parábolas que me chamaram a atenção. Foi o caso recente do poema Hino Nacional, de Drummond, em "Brejo das Almas" (1934):

Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores do que quaisquer outras; nossos erros também.
(...)
Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nosso terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?

e do menos óbvio ato XXVIII do "Cobra Norato" de Raul Bopp (1931):

A floresta se avoluma
Movem-se espantalhos monstros
riscando sombras estranhas pelo chão
(...)
Lá adiante
o silêncio vai marchando com uma banda de música
(...)
Jaburus de monóculo namoram estrelas míopes
João Cutuca belisca as árvores
Passa lá embaixo a escolta do Rei-de-Copas
Curvam-se as canaranas
Chegam de longe ruídos anônimos
(...)
Cipós fazem intrigas no alto dos galhos
Desatam-se em gargalhadinhas
Uma árvore telegrafou para outra:
psi psi psi
Desembarcam vozes de contrabando
Sapos soletram as leis da floresta


Ontem foi a vez do bom e velho Lima Barreto lançar alguma luz sobre os acontecimentos, com os seus curtos Contos Argelinos, onde fica, mais uma vez, claro que os problemas da nossa república não são mesmo de agora. Os apadrinhamentos, traições, desumanidades vaidosas, descaso completo com o outro, ignorância odiosa e religiosa, incompetência pura e simples, autoritarismo, está tudo lá, brilhantemente retratado para a posteridade.

Terminei o dia retornando ao inesgotável "Doutor Fausto" de Thomas Mann, escrito na Alemanha da Segunda Guerra Mundial, onde o narrador se refere a ainda outro livro anterior para refletir sobre a sua própria época, "Réflexions sur la Violence"[1], de Georges Sorel, de cujas previsões ele discorda[2]:

"numa era gregária, as discussões parlamentares se revelariam totalmente inadequadas como meios de forjar uma vontade política (...) no futuro as massas deveriam ser providas de ficções míticas, destinadas a desenfrear e ativar as energias políticas, à maneira de primitivos gritos de guerra."

No que pode ser um prenúncio do que culmina hoje com os memes e a polarização simplificada do debate político na era da internet[3], após o domínio completo desse campo pela publicidade ao longo do século 20, a teoria de Sorel prossegue:

"Mitos populares, ou melhor, mitos adaptados à mentalidade das massas, tornar-se-iam doravante veículos do movimento político: fábulas, quimeras, visões fantasmagóricas, que não necessitassem de base alguma na verdade, na razão, na ciência, mas, apesar disso, se mostrassem criativas, determinando o curso da vida e da História, e dessa forma evidenciassem seu poder de realidades dinâmicas."

Hoje, pelo jeito, além de gozar com o pau dos outros e fazer cortesia com o chapéu alheio, nos acostumamos a também pensar sem o nosso próprio cérebro, através de artigos compartilhados ao léu, dos quais lemos apenas o título e no máximo a legenda das figuras e passamos em frente em troca de legitimação intelectual – ou pior, ideológica –, como créditos de carbono para poder continuar poluindo o meio ambiente virtual com os nossos dejetos egocêntricos e resíduo cibernético generalizado. Parece mesmo com o que Sorel chamou de "ficções míticas", enquanto impulsionadoras apenas de um sentimento de declaração partidária primitiva, de "nós contra eles", tratarmos assuntos tão complexos como uma questão de múltipla escolha.

O narrador continua com a conclusão dos seus companheiros de debate, à qual ele se recusa a acreditar, mas nos parece infelizmente atualíssima:

"Esse mundo era ao mesmo tempo antigo e novo, revolucionário e retrógrado. Nele, os valores ligados à ideia do indivíduo – verdade, liberdade, direito, razão – ficariam inteiramente debilitados e rejeitados, ou pelo menos assumiriam um significado totalmente diverso do que tiveram nos séculos precedentes. Desarraigados da pálida teoria, seriam relativados, abastecidos de sangue e em seguida submetidos a uma instância muito superior, à da força, da autoridade, da ditadura da fé – o que não se realizaria de modo reacionário, à maneira de ontem ou anteontem, e sim de uma forma que igualaria uma regressão muito inovadora da Humanidade em direção a estados e condições teocrático medievais. (...) Na política, a direita ia confundir-se cada vez mais com a esquerda."

E de fato, quanto mais se informa mais dúvidas se cria – só a ignorância não titubeia jamais. Enquanto isso, a distopia já se encontra em pleno curso. Mas, ao menos, com as mudanças concretas que vêm ocorrendo em velocidade vertiginosa, talvez nos convençamos (e me incluo) a passar finalmente da ideia para a ação. Afinal, como lembrava o narrador do romance de Mann, já àquela época, "a força oferecia um terreno sólido aos pés: era antiabstrata".

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[1] "Eis um livro que chegou até nós com uma reputação bastante má e uma posteridade incendiária. Sucessivamente, às vezes ao mesmo tempo, extrema direita nacionalista e extrema esquerda revolucionária, fascistas, terroristas, totalitários de todos os matizes invocaram o testemunho das Reflexões sobre a violência. O tema deste livro, encontramo-lo no ponto de interspecção de três conceitos. O primeiro, que pertence à psicologia coletiva e é tido freqüentemente como a contribuição intelectual mais original de Sorel, é o do mito, entendido como uma representação coletiva mobilizadora. O segundo é a violência, mais precisamente o papel da violência nas relações entre classes e no desenvolvimento histórico. O terceiro é tomado das circunstâncias de seu tempo: a idéia de greve geral, como forma enfim descoberta de revolução popular e antiautoritária." 
– do prefácio da editora Martins Fontes (?)

[2] Ou concorda e se assombra por isso. Mais sobre esse trecho aqui.

[3] É claro que isso não é de todo mal, desde que o debate não se resuma a gifs e montagens toscas. É preciso rir também, como bem avaliado nesse artigo do jornal Nexo.

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