segunda-feira, 26 de setembro de 2016

mais leituras aleatórias


Ao voltar de uma viagem a Curitiba, me deparei com uma queima de estoque de livros novos no aeroporto. Entre os títulos psicografados e auto-ajuda para empresários, consegui encontrar algumas coisas interessantes a preço de banana, como o ótimo "Signos e Estilos da Modernidade - ensaios sobra a sociologia das formas literárias", do italiano Franco Moretti. A pompa do título brasileiro e de seu subtítulo pode ser o suficiente para um pedante mediano erigir uma reputação (como encontrei depois em um texto sobre o livro), mas, longe disso, a pretensão aqui é apenas compartilhar alguns trechos que me chamaram a atenção até agora e movimentar este pobre e deserto espaço.


Já no avião, comecei a leitura pela orelha: "transcendendo a mera abordagem de cunho estruturalista, o autor encampa as contribuições da sociologia, da historiografia, da psicanálise, da retórica e de algumas vertentes teóricas da contemporaneidade para pôr em xeque o estatuto dos 'gêneros literários'." Ou seja, Moretti mistura a porra toda e analisa qualquer coisa sob a perspectiva de qualquer outra, uma abordagem que muito me atrai. Partem daí, por exemplo, leituras inesperadas como a análise de Drácula e Frankenstein à luz de Marx e Freud, concluindo que o gênero do terror existe para "tomar a si determinados medos para apresentá-los numa forma diferente da real; transformá-los em outros medos, para que os leitores não tenham de enfrentar aquilo que realmente pode assustá-los". No caso, o triunfo do capitalismo de monopólio, o poder do sexo e do estrangeiro e tudo o que atente contra o status quo. "Pensar por si mesmo, perseguir os próprios interesses: eis os perigos reais que essa literatura quer exorcizar." Antes da conclusão, porém, são as comparações preliminares que mais divertem, especialmente por serem tão inusitadas quanto precisas:

Frankenstein e Drácula levam vidas paralelas. São personagens indivisíveis, porque complementares; as duas faces horríveis de uma só sociedade, os extremos: o miserável desfigurado e o proprietário impiedoso. O trabalhador e o capital.
[...]
Quem ousa combater o monstro torna-se, automaticamente, o representante da espécie, de toda a sociedade.

Na longa introdução, em que esmiúça seu próprio processo teórico e critica a crítica literária, encontramos esse petardo ‒ tão necessário para comentaristas de blogue e juízes de mesa de bar (além de resenhistas rasos como eu, por que não?):

Deixem-me explicar, começando com um conceito essencial para a teoria do "retorno formal do recalcado": o conceito de "negação" (Verneigung). Em sua leitura freudiana de Fedra, Francesco Orlando elaborou e condensou esse conceito na fórmula "Não gosto disso". A fórmula exprime um conflito: não/gosto disso. Mas este conflito exprime-se e é interpretado de forma cientificamente inaceitável, porque apenas um dos seus elementos é definido; o outro é determinado apenas e exatamente "pela negação". Esse lado da oposição em que se localiza o recalcado possui um conteúdo só seu: o "gosto disso", que se refere a um objeto ou imagem específico. O outro lado, diferentemente, não passa de um "não". Isso mostra que determiná-lo pelo que é é algo considerado de importância inteiramente secundária. Só pode ser descrito e possuir importância teórica em virtude do que não é
Se um certo tipo ou intensidade de desejo pode ser expresso pela negação com a declaração NÃO GOSTO DISSO, um desejo maior ou mais indeclarável dará origem, por exemplo, a NÃO GOSTO NADA DISSO. Um desejo ainda maior ou indeclarável poderá ser representado como ODEIO ISSO, DETESTO ISSO e outras expressões semelhantes que continuam a ser negações claras, embora incorporadas a um verbo sem uma partícula negativa. Poderíamos comparar tudo isso a um recipiente cujo conteúdo exerça uma pressão mais ou menos explosiva sobre as paredes; quanto maior a pressão, mais resistentes ou numerosas têm de ser as paredes.

De resto, até onde li, os textos enveredam pela filosofia e outras divagações deliciosas, e é justamente essa leitura cruzada e sem preconceitos que gera interpretações pessoais as mais diversas possíveis, sobre o cotidiano do próprio leitor. Ao longo do livro acabamos extraindo algumas pérolas relevantes para os dias de hoje ‒ ou de qualquer época, como veremos. A citação abaixo, por exemplo, não poderia ser mais atual ‒ embora escrita no século XVII ‒, num momento em que a divergência polarizadora domina todos os debates:

Quando se examina com cuidado o que é que, de ordinário, prende os homens mais a uma opinião que a outra, descobre-se que não é a penetração da verdade e a força do raciocínio, mas algum laço de amor-próprio, de interesse ou de paixão. Este é o peso que move a balança e que nos determina na maior parte de nossas dúvidas; é o que dá o impulso maior aos nossos juízos e que nos prende a eles com mais força. Julgamos as coisas não pelo que são em si mesmas, mas pelo que são em relação a nós; e a verdade e a utilidade, para nós, não passam da mesma coisa. (Antoine Arnaud e Pierre Nicole, La logique ou l'art de penser, 1662-83.)

De fato, como Guimarães Rosa já sabia, "pão ou pães, é questão de opiniães". Moretti complementa: Nosso aparelho psíquico é determinado pelo contexto sócio-histórico, e é difícil imaginar uma história social satisfatória do "consenso" que não compreenda as técnicas de persuasão. A retórica pressupõe a divergência, caso contrário não existiria. Fora isso, o ser humano parece não conseguir acompanhar o seu próprio desenvolvimento tecnológico (ou pior, a evolução do seu próprio aparelho cerebral, como afirmava o romancista Arthur Koestler no pseudo-científico ‒ e não menos interessante por isso ‒ "O Fantasma da Máquina", de 1967), numa espécie de anacronismo esquizofrênico em que cria mais rápido do que consegue compreender a si mesmo ou ao seu progresso (levando, fatalmente, à sua auto-aniquilação):

A inércia, força histórica fundamental, [...] é mais um fato da mente do que da matéria, já que esta última costuma ser mais rápida na ação que a primeira. Os homens utilizam as máquinas que inventam enquanto mantêm a mentalidade dos estágios técnicos anteriores. Os motoristas de automóveis usam o vocabulário de um cavaleiro, os operários fabris do século XIX têm a mentalidade de seus pais e avós camponeses. A mentalidade é o que muda mais devagar. A história das mentalidades é a história da lentidão na história. (Jacques Le Goff, "Les mentalités: une historie ambiguë", em Jacques Le Goff e Pierre Nora, orgs., Faire de l'historie, Paris, 1974.)

Sem dúvida, um bom achado (quem achou quem?) para um saldão de aeroporto, ao acaso.
Nenhum algoritmo faria melhor.

Nenhum comentário: