quinta-feira, 29 de setembro de 2016

música eleitoral


Dia desses, minha mulher lembrou de uma frase que eu havia dito sem pensar muito: o patamar mais baixo da música é o jingle político. Vocês hão de convir que não há nada mais irritante — exagero, eu sei — do que um sertanejo, baião, ou outro estilo popular qualquer, devidamente higienizado, com uma letra mal encaixada louvando esse ou aquele candidato. A tentativa patética de, humanizando-o, caracterizá-lo como "do povo", "um cara comum", "um homem (ou mulher) de visão" ou qualquer outra baboseira do tipo, não apenas soa tão falsa quanto um anúncio de água em póTM, como expande o significado do termo "genérico". Me faltam o tempo e, francamente, a paciência para tanto, mas é possível que uma pesquisa, mesmo que superficial, consiga traçar os perfis básicos do jingle político brasileiro em alguns poucos estilos e métricas nas últimas décadas. [1]

Nada contra os profissionais pagos para realizar a ingrata tarefa, veja bem, é um trabalho honesto como qualquer outro, mas devemos analisar o resultado tanto dentro do seu contexto estético quanto social. É verdade, poderiam se ater a fixar o nome e o número do candidato (ainda me lembro do Três-Dois-Um-Oito-Um-Oito-Um, da Madecor e do Zero-Onze-Catorze-Zero-Meia, exemplos bem sucedidos do uso de ritmo e melodia para fortalecer a memória), que é, afinal, o objetivo prático de todo o circo, por que não? [2] No entanto os esforços, na maioria das vezes, são empregados no sentido de forjar "o microdiscurso político mnemônico da campanha, ou seja, a síntese verbal memorizável da candidatura", ou ainda produzir "uma espécie de antiethos para o seu adversário." [3]

Vejamos, por exemplo, o trecho imaginário a seguir:

Somos um Rio, hoje não estamos sós
Esse é o prefeito que está junto de nós
Muita coisa já mudou, esse é o meu Rio ô ô ô ô
Muita coisa já mudou, é com esse Rio que eu vou

Quando não apelam para o épico [4], sempre com muito reverb (ilusão de amplos espaços e multidão) e compressão (volume, potência), as produções enveredam, justamente, pelo caminho contrário: o da intimidade, do corriqueiro, música-do-bar-da-esquina, olho no olho, de gente como a gente. Em ambos os casos, fica claro que o que se representa é tudo menos a realidade do político enquanto um mero administrador e servidor público.

Deixando de lado a análise do conteúdo musical — em alguns casos até bem complexo, o que foge da sua proposta inicial de fácil assimilação —, vamos nos ater exclusivamente ao discurso, que, aqui, retrata o prefeito quase como uma entidade onipresente. Geralmente, como consequência da caracterização do discurso político, que se volta para a proposição de um projeto coletivo, há uma tentativa de construir a voz do povo, marcada por um "nós", que inclui o sujeito candidato enquanto porta-voz dos eleitores [5]. No entanto aqui, além do emprego da primeira pessoa do plural, coloca-se também o candidato como uma figura à parte, superior mas acolhedora, que "está junto de nós" e por isso não estamos sozinhos. Qualquer semelhança com signos religiosos não é mera coincidência. O vídeo, que provavelmente contaria com uma superprodução audiovisual e com a participação de celebridades, utilizaria a tranferência dos rostos conhecidos destes como substituição à imagem menos chamativa do próprio candidato. Na segunda parte, vemos o apelo à manutenção do status quo (o candidato provavelmente busca a reeleição), o que não é tão raro assim ao tratar-se do representante da situação — oposto ao apelo por mudança em um candidato de oposição — embora a diferença se torne cada vez mais ambígua. [6]

Essa ambiguidade é, sem dúvida, o aspecto mais preocupante desse tipo de conteúdo. [7] Qualquer dos exemplos a seguir poderia ter sido retirado de um formulário padrão em que se preenchem apenas as lacunas com o nome do candidato em questão, dependendo do caso:

Por uma cidade melhor
Por uma vida melhor
Todo mundo é Porto Alegre
Todo mundo quer ser feliz

Fulano é gente como a gente
Não desanima, olha pra frente
Tem experiência e atitude
Pra fazer diferente
Não tem ruim, não tem caô
É com fulano que eu vou

Agora é Fulano
Vamos lá
É o Brasil inteiro
Querendo mudar

Governou a sua terra
Arrumou Minas Gerais
Cuidou de sua gente
Como pouca gente faz
Sorriso carinhoso
Abraço de mineiro
Tá sempre por perto
Pra escutar o brasileiro

Nossa cidade merece alguém
Com garra e força
Fulano de Tal pra vereador

Agora chegou a hora de confirmar
O Brasil já decidiu que vai mudar
É a vez do povo anunciar
O brasil novo que vai chegar
Fulano Fulano Fulano
Colorir a gente quer de novo
É agora a hora e a vez do povo

O Brasil precisa 
De um sangue novo
O brasil precisa
De gente que sabe
O que deseja o povo

Rapidamente, podemos constatar que: a vez do povo nunca chegou, o Brasil continua querendo mudar, e Fulano de Tal, apesar de sorridente e carinhoso, só se preocupa com o próprio umbigo. Mesmo com eventuais diferenças (mudança versus manutenção, sangue novo versus experiência) [8], o tom genérico e a mediocridade tomam conta.

É possível que já tenha existido o que pode ser considerado um "bom jingle", mas é contestável que ainda haja alguma relevância nesse tipo de repetição delirante — embora sua origem tenha tido o propósito oposto, a música de protesto em forma de zombaria — a respeito das qualidades fantasiosas do candidato perfeito. Esse nível de ruído vem somar à nossa cota de estímulos a serem filtrados diariamente. Embora o jingle possa ser definido como "um elemento que reforça as virtudes e as principais diretrizes políticas dos candidatos", fica claro que hoje, majoritariamente, se atém a criar uma imagem genérica de bem absoluto, ao mesmo tempo sobre-humano e pé-no-chão, que engloba todas as melhores características dos heróis (força, garra, experiência, moral) e uma noção de pensamento de massa e experiência catártica (somos todos Fulano, vamos todos, nós, nós juntos, a cidade, etc.) capaz de representar um futuro inatingível mas desejável; uma sublimação de vontades coletivas através de um pequeno gesto individual, ao alcance de todos na forma da sequência numérica do voto. [9]



Mas não vamos entrar no mérito dos usos que deveriam ou não ser feitos da música [10], seja com nobres aspirações ou para o puro entretenimento. A ferramenta técnica existe para ser usada, para o bem ou para o mal — ou ainda, bem ou mal utilizada, independente do fim. Talvez o que mais me incomode seja o próprio sistema da publicidade eleitoral, ou mesmo o conceito de propaganda em si — geralmente um engôdo fedorento e detestável embrulhado em papel dourado e com perfume de status social —, mas o fato de um político precisar se diferenciar dos outros menos pelo seu currículo e projetos de governo do que através de truques baratos de edição, frases de efeito, trilha sonora ou figurino parece realmente um esforço desproporcional com base no objetivo errado, uma inversão de prioridades absurda. Infelizmente somos forçados a constatar que, sim, é isso — a publicidade, o marketing, o dinheiro, as alianças certas — que ganha uma eleição, e pouco importa quem de fato esteja sorrindo e acenando para a câmera. Quando ainda assistia televisão, não conseguia deixar de pensar na injustiça de os partidos terem tempos diferentes para expor suas propostas — isso no horário eleitoral gratuito, fora os anúncios pagos; na verdade ganha quem tiver investido mais dinheiro. Em comparação, imaginava alguns programas como superproduções hollywoodianas em três dimensões, enquanto outros não passariam de teatrinhos comunitários de bairro, com infiltração no teto e meia dúzia de pagantes — ou documentários intermináveis em longa-metragem, contra curtas de poucos segundos filmados com o celular, para ser mais preciso.

Talvez a arte da política seja a capacidade de manipular o pensamento individual até torná-lo coletivo e palpável. Até alguém te fazer achar que você já pensava o que eles acabaram de te dizer, que realmente precisa do que dizem que você precisa, embora nunca tivesse ouvido falar naquilo até esse instante. Mais do que a do candidato, é a imagem do eleitor que se está construindo em todos esses discursos; assim como o desejo do consumidor é criado pela indústria publicitária, fabricado por esta, enquanto aquele é persuadido a tomá-lo como seu. A vitória pelo cansaço da repetição. Fumaça e espelhos, num concurso de patriotismo com música ruim de fundo. Mas calma, é pior do que isso: há tempos o mundo todo não passa de uma grande propaganda de banco com trilha de superação e letras tão miúdas no final que você precisaria pegar um empréstimo apenas para comprar um microscópio capaz de ver o que eles realmente estão dizendo na sua cara o tempo todo, de outras maneiras, tudo muito lubrificado para descer suavemente. O jingle do vereador que vai salvar a cidade e é um cara legal, afinal a mãe dele disse que sim, nem parece tão ruim agora.


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NOTAS


[1] Na verdade, uma pesquisa de 2009 revela que nas eleições para governador em 2006 foram utilizados 26 gêneros musicais distintos em uma amostragem de 159 peças, sendo o estilo mais recorrente o "pop-gospel". (Luiz Cláudio Lourenço, Jingles Políticos: estratégia, cultura e memória nas eleições brasileiras, em Revista Aurora nº4, 2009.)

[2] Embora a memória também seja requerida para o entendimento do discurso: "Courtine reforça que memória e esquecimento não podem ser dissociados no modo de enunciação do discurso político, visto que 'na política, a memória é um poder: ela funda uma possibilidade de se exprimir, ela abre um direito à fala'. [...] Ao afirmar 'Osmar é mais experiência', fica determinado seu período de atuação em cargo público desde 1983, em oposição ao candidato rival, mais jovem e que iniciou no campo político em 1992. Pressupõe-se aqui uma memória coletiva que domina esse conhecimento; não exatamente os anos em que iniciaram suas experiências políticas, mas sim, um período maior de atuação política, em função, inclusive, da própria idade dos candidatos, o mais velho é um sujeito político com mais experiência." (Ednéia Bernardineli e Maria Célia Cortez, Efeitos de Sentidos no Microdiscurso de Jingles Políticos, 2012.) É possível fazer um paralelo com o funcionamento da metáfora: "[...] o importante para a eficácia da metáfora não é que os lugares-comuns sejam verdades, mas que sejam lembrados pronta e livremente." (Max Black, Models and Metaphors, 1962.)

[3] Bernardineli e Cortez, 2012.

[4] "O eleitor é visto como entendedor de que esta é a eleição que mudará os rumos de sua vida, desde que faça a escolha certa." (Bernardineli e Cortez, 2012.)

[5] Bernardineli e Cortez, 2012.

[6] "As retóricas por sua vez não apresentam diferenças expressivas segundo os partidos que as veicularam em seus jingles. Em todos, o que predominou foi uma retórica de sedução [...] Tanto candidatos manifestadamente de situação, quanto os de oposição, não apresentaram retóricas diferenciadas". (Lourenço, 2009.)

[7] É importante notar "a expressiva parcela de jingles que não assumem uma postura política frente ao status quo, não se colocando nem contra e nem a favor, cerca de 35,8%. O que pode ser, em parte, compreendido com a preocupação dos candidatos em conseguir o voto do eleitor independente de sua opinião sobre a situação ou renovação da situação política." (Lourenço, 2009.)

[8] De uma lado o "discurso pautado no imaginário da modernidade [...] que ressalta a eficácia da ação política para concretizar sonhos, juntando competência e vontade de agir", e do outro "a unidade [...] um ethos de 'experiência', 'coragem' e 'simplicidade'". (Bernardineli e Cortez, 2012.) Impossível não lembrar da tira do Dahmer em que a boate New se transforma na Nova New, tudo em nome da modernidade.

[9] Mais ainda, "Recupera-se uma memória de que se tem que votar no candidato que está à frente nas pesquisas, resgata-se a ideia de ir onde a maioria está." (Bernardineli e Cortez, 2012.) Fazer parte do grupo vencedor, independente das suas próprias convicções, é mais importante.

[10] "O uso político da música como condutor das emoções do público foi muito eficaz em 1789, durante a Revolução Francesa, quando o canto da Marseillaise serviu como grito de guerra para a tomada da Bastilha. O movimento nazista também fez um uso muito bem calculado da música em sua máquina de propaganda." (Lourenço, 2009.)


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