sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

instrumentos virtuais e trilhas de cinema




Outro dia esbarrei com essa playlist da Vienna Symphonic Library no incrível mundo do YouTube, trazendo entrevistas com diversos compositores (Danny Elfman, David Newman, Blake Neely, Alexandre Desplat, Daniel Licht, Kevin Kliesch, Joe Kraemer) de cinema e televisão sobre seu fluxo de trabalho e sua relação com os instrumentos virtuais da VSL. Muito interessante ver o processo de composição, e como atualmente é preciso criar um mockup da trilha praticamente finalizado para ser aprovado pelo estúdio ou pelo diretor. O compositor, hoje, tem acesso a samples realistas de uma infinidade de instrumentos e dinâmicas, e isso influencia completamente a forma de se compor, permitindo a substituição de qualquer som a qualquer instante, a audição instantânea da obra em tempo real e a criação do arranjo e da mix em paralelo à própria criação musical (algo a que nos acostumamos na gravação caseira em software). Na maioria das vezes, as cordas e sopros são regravados por uma orquestra real, mas muito do mockup permanece no trabalho final (em geral a percussão, além dos sons "irreais" ou não-acústicos). Todos mencionam a importância de um template para agilizar o trabalho, a organização dos instrumentos já carregados e prontos para serem utilizados, e comentam a possibilidade de se combinar dois ou mais sons para criar timbres impossíveis de se obter no mundo real, embora soem plausíveis. Além do papel da tecnologia na música, é um prato cheio para quem se interessa pelo assunto da trilha de cinema, o papel do compositor em "servir o filme", como se dá o trabalho com diferentes diretores e como a indústria funciona na prática.



Mas é claro que ainda há espaço para outros métodos, em produções mais autorais ou de menor escala. Mais atuante como músico performático e produtor, o excelente Jon Brion, por exemplo, pode se dedicar a experimentar com processos menos ortodoxos quando é chamado para musicar um filme. Nos vídeos abaixo é possível ter uma ideia disso: o primeiro o mostra gravando a trilha de "I Heart Huckabees" em um órgão de tubo gigantesco, no outro comenta o processo de "Punch Drunk Love", ainda mais incomum pelo diretor Paul Thomas Anderson ter pedido trilhas de referência para filmar as cenas em cima do ritmo que ele mesmo cantarolou.







Mas voltando ao papel tecnológico nesse processo, muita coisa mudou, de uns 30 anos pra cá, na forma como uma gravação é produzida. Desde os primeiros ambientes de áudio digital nos anos 70/80 até os modernos DAWs, a democratização das ferramentas transformou o processo de se criar música em uma exploração com possibilidades infinitas de timbre, texturas, ritmos e repetições. Não custa lembrar que o auge do sequenciador digital em 1985, por exemplo, era um trambolho de milhares de dólares chamado Synclavier, que só alguém como o Sting poderia comprar. (a partir dos 56:48)





O genial Frank Zappa fez um uso mais intensivo desse instrumento para criar discos inteiros executados pela máquina, como o vencedor do Grammy de melhor performance rock instrumental "Jazz From Hell" e, na sua autobiografia, dedica algumas considerações ao papel da tecnologia na música (Cap.8, do trecho "La Machine" em diante). No vídeo abaixo, de 1989, ele demonstra o Synclavier (a partir dos 7:41) no seu famoso estúdio Utility Muffin Research Kitchen.





Explorando principalmente os timbres e execuções humanamente impossíveis, fica claro o novo aspecto estético que a tecnologia tem para acrescentar, em vez de simplesmente substituir os instrumentos convencionais e baratear a produção.

Mas voltando ao áudiovisual, fiquei surpreso em descobrir que o clássico contrabaixo da abertura de "Seinfeld", por exemplo, era sintetizado. Executado no teclado pelo compositor, além disso, era gravada uma nova sequência a cada episódio, para preencher os espaços entre a fala do monólogo de abertura, sem entrar no caminho da voz.





O tema ficou tão marcado no imaginário popular que, mesmo fora de contexto, pode revelar o aspecto cômico até da cena mais brutal. É o mesmo caso da canção de abertura de "Curb Your Enthusiasm", outro programa do seu criador Larry David, mas isso já é assunto para outro texto.


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