sábado, 17 de dezembro de 2016

televisão, ciência pop e som

Cria do conhecido "Mythbusters", novo programa da Netflix também traz algumas curiosidades para os interessados no mundo dos sons.

O fenômeno dos programas televisivos científicos não é exatamente recente, reunindo clássicos tão distintos quanto Cosmos (tanto na versão original com Carl Sagan como na mais recente, com Neil deGrasse Tyson) e O Mundo de Beakman, além de canais exclusivamente dedicados a esse tipo de programação. Alguns mais densos e existencialistas, outros um apanhado de trivias e curiosidades nos moldes das revistas Mundo Estranho e Superinteressante, para ficar em exemplos nacionais impressos. O recém-lançado White Rabbit Project se encaixa na segunda categoria, e tirando a estética semi-futurista dos seus displays de touch screen transparentes (alô Hans Donner) e o irritante hábito contemporâneo de se transformar tudo em competição de reality show, provê uma boa dose de entretenimento, cultura inútil e conhecimentos gerais.

Reunindo os assistentes do antigo programa, agora na linha de frente, todo episódio consiste de um tema em que cada um dos apresentadores escolhe dois casos notórios e os colocam à prova baseados nos critérios arbitrários decididos no início. Mesmo as dramatizações engraçadinhas (com direito a salsa na trilha de uma cena que se passa no Brasil e imitações exageradamente estereotipadas de sotaques estrangeiros, dentre outras coisas que não se esperaria de "cientistas") são aceitáveis o bastante, em comparação com a boçalidade da "competição", mas o forte do programa são mesmo AS EXPERIÊNCIAS. Nelas, os apresentadores constroem protótipos engenhosos e se aventuram a testar cada caso (como era, aliás, o forte de Mythbusters, onde se explodia/incendiava/inundava tudo para ver até onde chegava a plausibilidade de cada mito).

Alguns dos temas dos episódios são um pouco parecidos demais, e até batidos, como o das fugas de prisão e o dos roubos notáveis (apesar de ganhar pontos por trazer muitos casos recentes e alguns realmente extraordinários, como o balão da alemanha oriental), mas no geral é um bom programa para se gastar meia hora (não precisa assistir o ranking dos minutos finais) e talvez aprender algumas coisas. Então, para chegar ao assunto deste texto de uma vez, nos chamaram especialmente a atenção alguns tópicos relacionados ao som:

No episódio 7,  "Tecnologias que amamos odiar", o segmento sobre aparelhos que fazem bip (a partir de 24:20, mais sobre isso aqui) aponta considerações bem relevantes no que diz respeito à paisagem sonora urbana, e suas implicações psicológicas sobre os seres humanos. É basicamente IRRITANTE PRA CARALHO a quantidade de bips emitidos por todos os aparelhos e eletrodomésticos e alarmes e sensores com que temos contato todos os dias, e a maioria deles NÃO SERVE PRA NADA. Sua onipresença tem origem nos componentes eletrônicos baratos e a sua irritância na qualidade artificial dos tons que são gerados por esses componentes, ondas puras sem envelope sonoro natural (isto é, com algum tempo de decaimento). Além disso, no experimento é demonstrado que esse tipo de som é mais difícil de ter sua origem espacial percebida pelo ouvido humano, em comparação a um ruído natural mais rico em harmônicos como o ruído branco, por exemplo. É interessante notar também que pela sua abundância nos aparelhos eletrônicos, nos condicionamos a ignorar esse tipo de som na maioria das vezes. Com todos esse fatores ele passa a fazer, então, parte da paisagem e já não serve a qualquer propósito de alertar para algum perigo iminente, o que seria a justificativa para a sua existência em uma grande parcela dos aparelhos.




Já no episódio 9, "Inventado antes do seu tempo?" (a partir de 15:00), um dos apresentadores constrói um fonógrafo portátil miniaturizado que cabe na palma da mão. Com a ajuda de Michael Dixon (do lathecuts.com, mobilevinylrecorders.com e outros), cortam um disco de 5 cm de diâmetro que contém aproximadamente 10 segundos de música e toca perfeitamente no aparelho (ou é o que eles dizem), que funciona exatamente como no fonógrafo comum: o prato (aqui construído sobre um disco de telefone) faz o disco (vinil) girar a uma velocidade constante, a agulha (aqui uma corda de piano) capta os impulsos mecânicos dos sulcos e vibra a membrana (aqui um pedaço de radiografia), que reproduz o som e é amplificada por um cone/trompa (aqui modelado por uma impressora 3D, porque sim). O experimento vale mais para quem se interessa pelo assunto da música analógica, especialmente para os aficcionados por vinil em formatos extravagantes, mas não deixa de ser curioso como exemplo de uma das primeiras tentativas de se tornar o fonograma algo portátil.




E por último, ainda no mesmo episódio (a partir de 29:30), descobrimos um precursor analógico dos serviços de streaming (!). Criado por Thaddeus Cahill no fim do século 19, o Teleharmonium era um mecanismo gigantesco de discos giratórios que precede os sintetizadores e o órgão Hammond, operado por dois organistas e transmitido via rede telefônica para assinantes. Embora sujeito a interferências de linha cruzada e com custos operacionais altíssimos, a engenhosidade e inovação do invento são impressionantes.





Quem diria, ainda é possível aprender alguma coisa com a televisão.

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