quinta-feira, 22 de novembro de 2018

GREVE GERAL

Tudo começou com a banda do programa de auditório. Cansados das interrupções da claquete, e movidos por altos ideais polifônicos, os músicos decidiram boicotar a vinheta de abertura daquela noite. E poderia ter passado batido, não fosse o silêncio constrangedor bem na hora do jingle dos patrocinadores — graças ao apoio imediato do técnico de som. O atônito apresentador ainda fez piada para as câmeras, desculpou-se culpando problemas técnicos mas, após o intervalo e ao longo do segundo quadro, já havia ficado claro que nem mais uma notazinha sequer sairia dos instrumentos no palco.

As ruas estavam calmas. A súbita ausência do muzak nas salas de espera, no caminhão do gás e nas lojas de departamentos demorou a ser notada, mas aí já era tarde demais. Outras categorias tinham se juntado ao grupo, reivindicando melhores condições de trabalho e uma gama cada vez mais ampla de exigências como regulamentação de refrões óbvios, subsídio de pentagramas e diapasões, acesso irrestrito a cotonetes e palhetas e paridade salarial entre músicos de apoio, ídolos sertanejos, repentistas regionais e instrumentistas de orquestra sinfônica. Aos poucos começaram a ficar violentos, fiscalizando quem furasse a greve.

As festas de casamento não encontravam um mísero DJ disponível para animar os convidados na recepção ou para tocar a marcha nupcial na entrada dos noivos. Nos cultos das igrejas já não se entoavam hinos e cânticos religiosos, e até mesmo nas festinhas de aniversário das crianças, bastava alguém puxar o coro do parabéns para ser prontamente reprimido por hordas de compositores insatisfeitos. Duas meninas que brincavam de roda chegaram a ser repreendidas pela ala mais radical, o assunto foi notícia em todos os jornais. Passou-se a apreender cavacos, tamborins e caixas de fósforo nos churrascos de fundo de quintal. Em pouco tempo, a situação tornou-se insustentável.


Músicos cruzam os braços em todo o país

O ECAD declara a greve ilegal, mas até a banda militar se recusa a executar o hino nacional durante a troca da bandeira. Tem início uma verdadeira revolução. As comunidades imploram por um baile, um pancadão, um pagodinho. Os lounges dos hotéis, as vernissages e coquetéis já não podem disfarçar a conversa pegajosa dos seus frequentadores sem um pianinho bossa-nova no fundo, cobrindo o tilintar das taças. Multiplicam-se os mal-entendidos. Na praia de Copacabana, a estátua de Caymmi é vandalizada com palavras de ordem contra o tonalismo. Surgem as primeiras teorias sobre uma possível conspiração microtonal pós-serialista que tentaria tomar o poder. É o fim dos karaokês, dos comerciais de tevê, dos vídeos motivacionais. Em assembleia extraordinária, alguns dos presentes chegam a pôr em pauta a criação de meios tecnológicos inéditos para inspecionar quem cantarolasse mentalmente qualquer melodia, mesmo em domínio público — o que seria instantaneamente faturado na conta do seu autor ou dos herdeiros, a título de royalties mentais, para aumentar a pressão.

Da sacada da janela, na Urca, o rei Roberto Carlos adere à causa, cancela o especial de fim de ano e retira todo o seu catálogo de circulação. É o que faltava para deflagrar a maior crise fonográfica da história do país. A opinião pública permanece confusa. Latino, o novo ministro da cultura, intervém: clama aos grevistas para que ao menos liberem a execução pública do axé-funk durante o carnaval de Salvador. Surge o bloco silencioso dos Dodecafônicos Cafonas (vulgos “doidecafonas”), em protesto, por parte da sociedade civil.


Calam-se as óperas e discotecas

Passadas algumas semanas, parecemos depender dos amadores em geral, cantores de chuveiro e desafinados atonais de toda espécie, mas fica logo evidente a dificuldade de manutenção de uma malha melódica metropolitana nesse ritmo. É estabelecido um mercado negro onde são disputados sósias clandestinos de Renato Russo e bandas cover de Guns ‘n’ Roses a preço de ouro. Os mais saudosistas chegam mesmo a fazer filas quilométricas nos orelhões, apenas para ouvir a musiquinha da chamada à cobrar, que ainda não havia, milagrosamente, saído do ar.

Tudo vai de mal à pior, até que o governo propõe um acordo. Cada cidadão passará a ter o direito de emitir apenas uma das doze notas da escala ocidental, de acordo com o seu CPF. O novo rodízio cromático é aprovado em caráter de urgência no congresso. O contrabando de métodos de iniciação harmônica aquece uma nova cultura de grupos vocais, que ressalta o aspecto de congregação social necessário para a formação de acordes e intervalos variados como fator positivo. Sem poder contrariar a nova legislação, somado ao recente interesse do público médio pelos trítonos, o movimento começa a perder força. O “tom oficial” de toda pessoa passa a vir anotado na cédula de identidade, junto com o tipo sanguíneo, e é visto como desígnio divino — associado aos doze signos do zodíaco pelos mais esotéricos. Com o desenrolar dos anos, toda a população desenvolve ouvidos absolutos. É, enfim, o triunfo da música.



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