segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

vida acadêmica

(...) A mão mais rápida que os olhos, o que os olhos não vêem nem os ouvidos ouvem o coração não sente. O montador é o prestidigitador que distrai a platéia com uma das mãos na assistente enquanto a outra puxa o coelho da cartola. Montar é organizar e desorganizar o tempo. Saber a hora de cortar e de estender o momento. É deixar claro que o filme não passa de um filme, ou iludir o espectador com cortes invisíveis e raccords perfeitos. O bom montador é um compositor que sabe a hora das pausas, que percebe e trabalha a harmonia, espacial, e a melodia temporal do filme. Montagem é ritmo. É saber a hora do tango, da valsa, do forrobodó. É determinar intenções, acrescentando ou suprimindo um levantar de sobrancelhas, uma respiração, uma hesitação do personagem ou do próprio ambiente. É saber perceber as coincidências, as semelhanças, ecos e tonalidades de planos diferentes, preparar o espectador para algo que ainda está por vir, lembrar o espectador do que já veio, mentir descaradamente, suspender tensões, trapacear. (...) Também é experimentar, desrespeitar a lógica, saber dar chance ao acaso e à coincidência, reconhecer boas idéias no erro. É fazer associações estapafúrdias. Sintetizar sentidos ocultos. Tirar leite de pedra. Às vezes montar é repetir. Às vezes montar é repetir. Às vezes montar é repetir. Às vezes montar é quase repetir, mas um pouco diferente. É puxar a atenção para o que interessa, mesmo que não seja o óbvio. Montar é hipnotizar. Esconder e mostrar. Montar é rimar. Ou bagunçar, jogar a merda no ventilador. Ser açougueiro, e cirurgião plástico nas horas vagas. É deixar para a imaginação do espectador o espaço entre os quadros. Tirar o tempo morto, poupar a paciência, inventar elipses. Mover-se no tempo. Mover-se a tempo. É deixar o filme com a duração necessária, o comercial com os 30 segundos aceitáveis no intervalo do jornal. É desapegar-se do que não funciona. É perseguir um sentimento a qualquer custo. Criar verdades a partir de mentiras, e vice-versa. É como aquele filme ruim baseado numa idéia boa, em que o Robin Williams é o editor do chip das memórias dos mortos, e transforma vilões em heróis para o filme do velório. Montar é cortar a hora em que o noivo cutuca o nariz e a noiva tropeça. É reduzir o discurso do padrinho bêbado e pular logo para a piada do final. É guardar o melhor para o final. Montar é dominar o cavalo mas deixá-lo comer uma graminha de vez em quando. É obsessivo e trabalhoso. Demora. Pelo menos com o advento dos computadores as possibilidades tornaram-se realmente infinitas. Mas eles não tomam decisões por ninguém, ainda bem. Por um lado, democratizaram o acesso às ferramentas de edição - por outro, qualquer dia explodem entupindo o planeta de filmagens caseiras de youtube e pornografia barata. Aí era uma vez um montador. Ou vários. Montar é escolher a ordem dos ingredientes, dosar a quantidade, adaptando a receita, que é o roteiro. É juntar as peças do quebra-cabeça. Seja com cutelo, guilhotina, bisturi, estilete, alicate, ou até mesmo a marretadas. É amarrar as pontas e o nó do cadarço para o filme não tropeçar. Os russos brincaram a valer com a montagem. Eles não tinham computador nem bomba atômica. Também não tinham mandado nenhum cachorro para o espaço. Hoje em dia, cachorros são o de menos. As ameaças espaciais alienígenas estão em alta, na verdade sempre estiveram - até quando o negócio era o rádio e os locutores ainda não tinham dirigido filme nenhum. Os extraterrestres e os terroristas, que compraram as bombas atômicas desativadas dos russos. Mas isso não nos interessa porque os dois só atacam os Estados Unidos, ainda bem. Pelo menos eles têm os efeitos especiais para se defender de qualquer ameaça. Montar é organizar as idéias, mesmo que de forma caótica. É encher o papo da galinha de grão em grão. É segurar o suspense da última cena, logo que o filho bastardo da protagonista descobre que o pai é o padeiro careca do outro canal, para segurar a audiência angustiada até o próximo capítulo. É fazer uma pessoa conversar com a outra ao telefone, alternando o plano do rosto de cada um, e tornar isto plausível e aceitável, mesmo que seja engano. É fazer o público acreditar que o Steven Seagal realmente é um exímio bailarino e o Fred Astaire faixa preta em artes marciais tailandesas. Ou que os caras do CQC sejam mesmo engraçados. Fumaça e espelhos. O velho truque da mulher-gorila Monga. Talvez mais sutil, mas não menos enganador. Que o digam os telejornais, de preferência com o semblante sério e pesado como uma âncora, música triste ao fundo. Boa noite. Corta para o comercial. A Fátima errou a entrada, o Bonner olhou para a câmera errada, quem sabe faz ao vivo, agora só na retrospectiva de fim de ano. É o cúmulo do absurdo. “Isto é uma vergonha”, já diria o Boris com aquele narigão, olhos nos olhos, sem titubear. A vida é só um intervalo entre um jornal e outro, um capítulo da novela e outro, uma partida do campeonato e outra. Mas elipse só quando a gente dorme, e se sonhar já era. Mentira, quando se fica de porre também. E é aí que acontecem as reviravoltas imprevisíveis do enredo. Puxando pra comédia ou pra tragédia, quem sabe. Dizem que antes de morrer a nossa vida passa diante dos olhos em um segundo. Isto é que é síntese, a montagem mais objetiva do mundo, sem direito a replay nem super câmera lenta. Aí sobem os créditos. É isso, montar também é saber encher lingüiça com estilo. Pelo menos tem dado certo pra muita gente. Concluímos, portanto, que a montagem coloca cada coisa no seu devido lugar. Obrigado.

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O primeiro, ensaio sobre montagem. O segundo, panfletagem sobre as eztetykas de Glauber Rocha.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

lançamento

Sábado agora é o lançamento oficial do Pindura 2010 em Brasília!
Garanta o seu!

E em breve, lançamento no Rio.

cartaz por Caio Gomez

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

higiene pessoal

Impressão Digital, 2009.

Pôster com tiragem limitadíssima de 2 exemplares.
Garanta o seu neste domingo.

Também estarão à venda os modelos feitos pelos colegas Lafa, Arruda e Elcerdo.
Além de exclusivos ímãs de geladeira Beleléu.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

manual de instruções

Como você irá perceber, o aparato para contagem dos dias do ano tm desta vez é semanal, o que significa que será preciso a atenção e colaboração do leitor para virar as páginas com destreza, ao fim de cada período de sete dias. Foram incluídas, ainda, as fases da lua e os feriados nacionais, para alegria dos plantadores de batata e enforcadores de semana ocasionais. O aparato para contagem dos dias do ano tm deve ser utilizado da seguinte maneira: comece pelo começo, vá até o fim e tudo dá certo.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

halloween / dia de los muertos

estarei em brasília de 31 de outubro a 3 de novembro.

encomendas de beleléu pelo gmail: stevzstevz

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

slide

idéia para música nova.

não tenho conseguido me dedicar muito a isso, espero que em breve volte.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

na academia brasileira de letras

quadrinhos à máxima potência
Desenhos e textos de Alex Vieira, Allan Sieber, André Dahmer, Andrei Duarte, Arnaldo Branco, Caio Gomez, Chiquinha, Daniel Lafayette, Eduardo Arruda, Fábio Lyra, Fábio Zimbres, Gregorio Marangoni, Igor Machado, Laerte Coutinho, Leonardo, Leonardo Pascoal, LTG, Pablo Mayer, Rafael Polon, Rafael Sica, Stêvz, Tiago Lacerda
a exposição oubapo faz parte do evento
de 21 a 30 de outubro de 2009

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

belo horizonte

chego em BH amanhã de manhã, para promover a revista Beleléu. quem estiver por lá, compareça ao Festival Internacional de Quadrinhos, no Palácio das Artes!

e amanhã mesmo rola o Baile das Revistas Dependentes (Prego, Quase, Tarja Preta, Samba e Macaco) – dia 08/10 (quinta-feira) às 22h n’A Obra (R. Rio Grande do Norte, 1168, Savassi). Shows com Grupo Porco de GrindCore Interpretativo, Quebraqueixo, DJ Matias Mad Maxxx e DJ LeoPyrata, revista grátis para os pagantes, R$10,00.

aguardem uma possível aparição do Excêntrico Jerônimo Johnson Homem-Banda.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

para quem estiver em brasília


o pessoal da samba está lançando revistas novas por aí!
procurem direito que vocês acham um quadrinho meu numa delas.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

novidades


Vem aí revista nova, com Eduardo Arruda, Daniel Lafayette e Tiago Elcerdo.
Lançamento previsto para o FIQ (6 a 12 de outubro), em Belo Horizonte.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

juba

Dente mole em rapadura, tanto morde até que fura. E rapadura pura legítima não pode ter mistura, já dizia o barbeiro velhinho, com seus tremeliques experientes, de tesoura na mão, picotando as pontas dos cabelos de sansão. "Enfim, um desafio", foi a sua constatação, logo que entrei. "Hoje chove", foi a minha. O outro comentava as manchetes do jornal. O chão quadriculado foi sumindo, debaixo das madeixas infinitas, e já era mesmo hora de despejar os piolhos inadimplentes. Valha-me a navalha na nuca: feito o pé e aparada a barbaridade da cara de bobo, espanadas as sobras e varridos os restos para debaixo do tapete, me apresento ao camarada apresentável no espelho, confiro se as duas orelhas ainda estão lá, jogo os trocados amassados na cadeira, aperto a mão trêmula do barbeiro prometendo retorno em seis meses, quando acabar-se a validade do corte, abano as calças e a camisa e vou-me embora decidido a comprar um chapéu dois números menor, com a merreca da economia de xampu.

sábado, 5 de setembro de 2009

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

domingo, 30 de agosto de 2009

terça-feira, 25 de agosto de 2009

sábado, 22 de agosto de 2009

jornal


matéria que saiu no correio braziliense de ontem:

Com projetos engatilhados e muitos em fase de finalização, quadrinistas da cidade começam a ter reconhecimento

» PEDRO BRANDT

--A produção nacional de história em quadrinhos autorais vai bem, obrigado. Muitos podem dizer que a situação de hoje em dia não se compara com a vivida em outras décadas — quando mais autores publicavam gibis para muito mais leitores. Mas é perceptível uma considerável retomada de fôlego de uns anos para cá. Em Brasília, a produção de HQs é sazonal, mas tem se mostrado contínua e rendido não só títulos surpreendentes, mas, principalmente, revelado grandes talentos.
--Muitos deles já estão com os novos trabalhos prontos ou em estágio avançado de finalização. O desenhista Gabriel Góes é talvez o nome mais conhecido dos quadrinhos brasilienses fora da cidade. Com o roteirista carioca Arnaldo Branco (criador do impagável Capitão Presença), Góes ilustrou a adaptação de O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues, publicada em 2007. “Já estamos negociando com a editora Nova Fronteira uma outra adaptação de um livro do escritor”, conta o desenhista — que prefere manter mistério sobre qual obra será levada para as HQs desta vez.
--Mas Gabriel já adianta os próximos planos da Samba, revista lançada em parceria com os quadrinistas Lucas Gehre e Gabriel Mesquita, em novembro passado, e que alcançou boa repercussão nacional. “A Samba número 1 era mais uma vitrine do nosso trabalho. Agora o conceito está mais amarrado. A ideia é fazer dela um selo. Os primeiros gibis serão o Kowalski,
meu, e mais três do Lucas, batizados de Amarelo, Laranja e Vermelho”. Nas palavras de Gabriel, Kowalski aborda assuntos pertinentes, contemporâneos, como drogas, dançarinas exóticas e suicídios. “Ah, e tem ainda uma fotonovela no meio”, emenda.
--Este mês, Felipe Sobreiro teve uma de suas histórias selecionadas pelo site Zudacomics, da editora americana DC Comics (casa de Batman, Superman, Mulher-Maravilha…). “Eu e meu pai continuamos fazendo propostas pra Heavy Metal. Mês que vem ou outubro vai sair uma historia desenhada por ele e colorida por mim, já aprovada por eles”. Nestablo Ramos Neto tem dois álbuns prontos desde o ano passado esperando para serem publicados pela editora HQM. “Com a crise, eles tiveram que dar uma segurada em todos os lançamentos. Agora as coisas estão voltando a andar e eles já estão reagendando tudo. Creio que para este semestre tá saindo”, comemora.
--Revelados pela surpreendente revista Bongolê Bangoró [sic], Gomez e Stevz também estão com novidades. Enquanto o primeiro produz sua própria revista, a Pimba! (prevista para 2010), o segundo prepara para este semestre a Beleléu, parceria com três quadrinistas cariocas. O ilustrador Kleber Sales procura interessados em publicar na íntegra sua adaptação para Os miseráveis, de Victor Hugo. O primeiro episódio acabou de sair na revista coletiva Ragu. Designer brasiliense radicado em São Paulo, Mário César lançou em julho, pelo coletivo Quarto Mundo, sua Entre quadros, a estreia individual.
--Autor dos livros Esfolando ouvidos e Grosseria refinada e vocalista da banda de hardcore Quebraqueixo, Evandro Vieira convidou desenhistas da cidade para ilustrar HQs inspiradas nas letras de suas músicas. O resultado será apresentado aos leitores em 2010. “Como já temos um bom material, eu e o baixista da banda vamos reunir essas histórias e bancar uma revista de 16 ou 20 páginas para levar para o Festival Internacional de Quadrinhos, o FIQ”, conta. O evento será realizado em outubro, em Belo Horizonte. “Os independentes têm dado visibilidade aos quadrinhos. Vi isso acontecer com vários artistas franceses, nos anos 1980 e 1990. Começaram no underground e hoje são nomes superconhecidos”, contextualiza Roberto Ribeiro, um dos curadores do FIQ.
--Tanto a Samba, quando o calendário Pendura [sic] (com desenhos de 12 ilustradores da cidade) concorreram ao prêmio HQ Mix, o principal dos quadrinhos no Brasil (e cuja cerimônia de entrega é hoje, na capital paulista). Nenhuma das produções candangas conseguiu o troféu, mas isso não significa desânimo. “Os interesses estão voltados para as HQs alternativas, independentes. Daqui pra frente, com os nossos próximos lançamentos, acho que vai ser mais legal. As pessoas vão ver que estamos continuando”, reflete Gabriel Góes. Em um cenário ainda incipiente, paciência e perseverança são virtudes essenciais.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

20ago09-quinta

os vizinhos se encontram no elevador
apresentam-se
dão bom dia uns aos outros
apertam o botão do seu andar
evitam cruzar o olhar
e depois batem na porta da gente reclamando da infiltração no banheiro que acontece de cair bem em cima dos vasos de plantas
que, regadas todos os dias, estão mais vivas e fortes do que nunca

o cacto
no meio da sala de jantar
espinhudo
espinhento
seco seco
desértico
lembra a gente que a água é o menor dos nossos problemas

o chinelo é o biquini do pé

o mar é o correio dos náufragos

a importante das palavras ordem é

a fumaça é o fantasma do cigarro

o relâmpago é a idéia da nuvem

o acento é a lâmpada da idéia

a música é a pausa do silêncio

o guarda-chuva é a bengala de vestido

era um proctologista cheio de dedos

a dentadura sorria no copo

a solidão é sempre maior que a encomenda

a morte, coitada,
não é malvada não
é funcionária pública burocrata
que tem de fazer relatório e bater o cartão
no final do expediente
e quando está de férias ou no cafezinho
também dá uma folga pra gente

gato e sapato sem prato nem rato

os vizinhos moram dentro da janela

a buzina buzina

bibi
fonfón
bebé

pulou do prédio

stravinsky

a 500 pés lembrou do pára-quedas

terça-feira, 18 de agosto de 2009