No subsolo de algum lugar insuspeito, no terceiro corredor à esquerda, atrás de uma pesada porta de ferro trancada a sete chaves e guardada pelo circuito de vigilância interna, encontra-se o inestimável e secreto acervo do DEPÓSITO DE LÁGRIMAS DO TELEJORNALISMO NACIONAL. Não que o choro para fins de entretenimento seja exclusividade da categoria, mas todo mundo sabe que uma lágrima colhida
in loco, em frente às câmeras – eternizada em seu agridoce frescor – trata-se de bem valiosíssimo.
Minuciosamente catalogadas, não se deve jamais misturar os casos de menor potencial traumático, como derrotas de times, com – estes sim – os parentes de vítimas de acidentes fatais, criminosos arrependidos e famílias desalojadas em terremotos e enchentes. Embora as lágrimas de dor apresentem uma composição especial – constituídas do próprio sabor da tragédia humana, segundo os especialistas –, as amostras em casos de reencontros familiares (saudade, surpresa, alegria) e
flashbacks de parentes falecidos (saudade, nostalgia) também têm o seu lugar no ambiente climatizado, porém na área dos programas vespertinos.
O malandro agente televisivo deve saber conduzir o entrevistado à primeira lágrima (a mais valiosa) sem pressa, é preciso construir o choro como quem induz um rato de laboratório à recompensa. Deve estar sempre em prontidão, com o frasco coletor em mãos (devidamente disfarçado sob o microfone), para colher a lágrima fresca e ainda quente, direto da nascente. A amostra será então conduzida às instalações do DDLDTJN para catalogação e armazenamento, mas, infelizmente, só poderá ser conservada por até três dias – prazo em que deixa de comover até o mais sensível coração de manteiga-mole, e deve ser imediatamente substituída por outra de matéria semelhante ou de maior apelo dramático.
Naturalmente, constam ainda do acervo as lágrimas de crocodilo: reunindo a farta produção da classe política, dos
reality shows e da teledramaturgia brasileiras, e que, devido à sua baixa volatilidade – o que é perfeitamente compreensível se levarmos em conta seu aspecto ordinário –, ocupa um galpão de área imensamente maior do que as anteriores.