sexta-feira, 8 de março de 2013

it's all in the game

O leitor pode perguntar-se por que estamos interessados, afinal, em máquinas de jogar xadrez. Pois não constituem elas apenas uma inofensiva vaidadezinha mercê das quais os especialistas em planificação buscam demonstrar sua proficiência a um mundo que esperam irá ficar boquiaberto e maravilhado diante de suas realizações? Homem honesto que sou, não posso negar que certa dose de narcisismo ostentoso esteja presente em mim, pelo menos. Contudo, como se verá em breve, não é o único elemento ativo no caso, nem o que tem maior importância para o leitor não-profissional.

(...) No conhecido jornal de Paris, Le Monde, edição de 28 de dezembro de 1948, um frade dominicado, Père Dubarle, escreveu uma resenha (...) que confirma algumas das terríveis implicações da máquina de jogar xadrez crescida e enfiada dentro de uma armadura.

(...) Não será possível conceber um aparelho estatal que abranja todos os sistemas de decisão política, quer sob um regime de muitos Estados distribuídos pela face da Terra, quer sobre o regime aparentemente muito mais simples de um governo humano deste planeta? Atualmente, nada nos impede de pensar nisso. Podemos sonhar com a época em que a machine à gouverner venha suprir - para o bem ou para o mal - a atual e óbvia insuficiência do cérebro, quando este se ocupa com a costumeira maquinaria política.
(...) Tanto quanto se possa avaliar, apenas duas condições podem garantir estabilização no sentido matemático do termo. São elas, de um lado, uma ignorância suficiente por parte do grande número de jogadores explorados por um jogador hábil, que pode, ademais, idear um método de paralisar a consciência das massas; ou, de outro lado, boa vontade bastante para permitir que cada qual, por amor à estabilidade do jogo, submeta suas decisões a um ou a alguns jogadores que tenham privilégios arbitrários. (...)

A machine à gouverner (...) é por demais grosseira e imperfeita para exibir um milésimo do comportamento intencional e independente do ser humano. Seu verdadeiro perigo, contudo, é muito diverso - é o de tais máquinas, embora inermes por si mesmas, poderem ser usadas por um ser humano ou por um grupo de seres humanos para aumentar seu domínio sobre o restante da raça humana; ou o de líderes políticos poderem tentar dominar suas populações por meio não das próprias máquinas, mas através de técnicas políticas tão exíguas e indiferentes à possibilidade humana quanto se tivessem sido, de fato, concebidas mecanicamente. A grande fraqueza da máquina - fraqueza que nos salvou até aqui de sermos dominados por ela - é a de que ela não pode ainda levar em consideração a vasta faixa de probabilidades que caracteriza a situação humana. A dominação da máquina pressupõe uma sociedade nos últimos estágios de entropia crescente, em que a probabilidade é insignificante e as diferenças estatísticas entre os indivíduos nulas. Felizmente, ainda não alcançamos esse estado. (...)

Eu disse que o homem moderno, e especialmente o norte-americano moderno, por mais know-how que possa ter, tem muito pouco know-what. Aceitará a superior perícia das decisões feitas pela máquina sem indagar muito dos motivos e princípios que as fundamentam. (...) O que seja usado como peça de uma máquina, é, de fato, uma peça dessa máquina. Quer confiemos nossas decisões a máquinas de metal ou a essas máquinas de sangue e carne, que são as repartições oficiais, os vastos laboratórios, os exércitos e as companhias comerciais e industriais, jamais receberemos respostas certas às nossas perguntas se não fizermos perguntas certas.



Norbert Wiener, CIBERNÉTICA E SOCIEDADE: O Uso Humano de Seres Humanos (1954)
Capítulo X: Algumas Máquinas de Comunicação e Seu Futuro / Tradução: José Paulo Paes

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APÊNDICE I



Louis Armstrong - It's All In The Game (1951)


Nat King Cole - It's All In The Game (1956)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

cabeça dinossauro vol.1

ESGOTADO / leia aqui
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Cabeça Dinossauro Vol.1 / Tiras 2012
A5 | 28 pags. | fotocópia
capa em carimbos de borracha
acompanha gravura de borracha em papel adesivo neon
tiragem limitada e numerada de 50 exemplares













"Começou uma discussão geral. Era estranho que jamais se considerasse a possibilidade de eu ser um dinossauro; a culpa que me era imputada permanecia a de ser um Estranho, um Estrangeiro, logo um Infiel; e o ponto controverso era o quanto a minha presença poderia aumentar o perigo de um eventual retorno dos dinossauros."
Italo Calvino, As Cosmicômicas (1965)


domingo, 24 de fevereiro de 2013

pugilismo matinal

Durante o café, como quem não quer nada, ela mandou uma indireta de esquerda bem no meio das minhas fuças. Pego assim, desprevenido, retruquei com uma palavra-cruzada no queixo. “Dramalhão mexicano, horizontal, 13 letras”. Sem titubear, ela emendou uma sequência de ganchos e trocadilhos que me fizeram perder o fio da meada. Atordoado, encurralado na corda-bamba, esquivei-me como pude, com evasivas e meias-palavras. Mas ela tinha experiência e um belo jogo de pernas. O gongo da torradeira me salvou da saraivada impiedosa de perguntas que viria a seguir.

Pagamos a pizza. Mal havia cuspido no prato em que comera, começamos o segundo assalto, sem chance de jogar a toalha. Lavamos a roupa suja sem ao menos separar as mentiras brancas. O árbitro desistiu de apitar os impedimentos e golpes baixos na pequena área. Já havíamos passado do décimo assalto, moídos, os superegos abertos, quando foi declarado o empate técnico. Contamos até dez e abandonamos o ringue, sem ressentimentos.



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

sobras bobas (2006-2008)

gravei essas faixas um pouco antes de me mudar de brasília, mais ou menos junto com o factótum.
faltaram algumas coisas para completá-las, e acabei deixando de lado.
mas, pra não deixar isso aqui parado, juntei tudo em mais um álbum digital totalmente grátis.
espero que gostem.




18:48 | 16 mb

1. quem você pensa que é (você é)
2. extraterrestres na explanada
3. fogo no cerrado
4. sleep it off
5. não tenha pressa
6. fool around
7. rouco, brazil

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

minhas férias

Durante as minhas férias? Estrangulei um leão e arranquei a pele dele. Depois matei uma serpente com corpo de dragão e nove cabeças – mas nenhuma idéia interessante –, daí aproveitei para comer uma casquinha de caranguejo. Fiquei sem sobremesa, mas no dia seguinte apostei corrida com uma corça, capturei um javali e limpei o curral do rei em troca de uns trocados pra comprar ficha de fliperama. Atirei com arco e flecha em passarinho e fui às touradas, dei comida aos cavalos marinhos e roubei os cintos das velhotas do bairro. No último dia, matei um gigante que vivia roubando meu lanche no colégio, e brinquei com o cachorro do vizinho, de três cabeças e três rabos (o cachorro, não o vizinho), que comeu o meu dever de casa. Aí roubei goiaba no jardim e fiz um curso de musculação por correspondência. Então as férias acabaram e voltei ao trabalho.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Pindura + Monstros em SP

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sábado, 16 de fevereiro
das 16 às 22hs
na Monkix Livraria
Rua Augusta 1492 / 21

evento no facebook





terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

homework

história minha que acabou de sair na coletânea eslovena WORKBURGER, aqui em cores.


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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

o rei está nu

Bons os tempos em que tentavam nos empurrar apenas a roupa do imperador. Isso já não é exclusividade da indústria da moda. Hoje em dia, vendem não só a roupa, mas a dieta, os acessórios, o perfume, a música, as convicções, o silicone, o penteado e as vitaminas do imperador. Vinte e quatro horas por dia, pelo telemarketing, outdoors, pop-ups, spams, flyers, filipetas, reclames, anúncios, bulas, comerciais, banners e cartões-postais e, o pior: FORA DELES. Os advogados, jornalistas e publicitários do imperador fazem muito bem o seu trabalho, e quanto mais eficientes, mais invisíveis. Está em toda a parte, estamos cercados e não há como correr. Mas o lifestyle do imperador também não é exclusividade das monarquias e do high-society, é democrático e aceita cheque, cartão, tíquete e caução, em suaves 365 parcelas (fiado, jamais), com juros de apenas 100% ao ano (e não estamos falando de dinheiro). Mas isso, infelizmente, nem todos conseguem ver.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

iceberg

fiz esse mural (aqui, ainda inacabado)
com os colegas elcerdo e victor marcello
na garagem gamboa, semana passada.
não costumamos trabalhar em grandes formatos,
foi uma boa experiência para os três.

e adivinha só, em breve tem mais!







até aqui tudo bem

fiz essa música logo que me mudei para o rio, em pleno carnaval de 2009.
o registro original dela é a última faixa do zine sonoro "solidão & cia. vol 3", gravado num quarto de pensão em santa teresa, onde fiquei por duas semanas.



cheguei quando chovia pela última vez
no verão, no carnaval, na final do campeonato estadual
eu era mais um
vestindo as cores erradas
fantasiado de vocês

conheci a argentina
que achou hermoso mi trabajo de paranormal
mas ao cruzar com ela na segunda esquina
não a vi, pois conferia a loteria
a hora era aquela
mas aquela hora
eu não era quem eu sou agora

ninguém comemora o aniversário do coroa na pensão
enquanto isso as minhas malas
estão mofando no porão

pedi para ficar com a cozinha
me ofereceram a escadaria sem fogão
assim não vai dar não
já conheço a vizinhança 

como a palma da minha talentosa mão direita

acenando para o bonde que passa do ponto
arriscado de pegar andando

trilho a linha do trem
até o outro lado
pra dormir no sofá de alguém
da terceira vez a gente acerta
e então fica tudo bem
mas vai saber

a bola é redonda e o xadrez é uma caixinha de surpresa
mesmo sempre com a mesma escalação




sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

peixe morto, fresco e torto



NOTÍCIA RUIM


eu não quero sair no jornal
tal qual mais um
imóvel

classificado
e rotulado
desesperado
no meu quadrado

eu quero servir de embrulho
pros peixes dessa feira

bem enrolado
e apertado
refrigerado
e besuntado

quando você for na xepa
me leve embora
me jogue fora
mal vejo a hora
de virar notícia velha, meu irmão


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

um desenho, para aliviar a tensão


torre come peão

O texto a seguir foi escrito há alguns meses. Achei melhor ficar de bico fechado enquanto a coisa se desenrolava na justiça. Mas, como justiça não houve, precisava tirar isso do peito. Cuidado com "editoras" que faturam publicando autores desconhecidos, meus caros. Eles só querem vender cerveja. Gostaria de compartilhar com vocês, também, algumas considerações edificantes do Sr. Renato Amado Barreto, apresentadas em sua contestação à minha ação:


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

pindura 2013

o calendário mais bonito do brasil está de volta - desta vez, pelo selo beleléu.
assino a edição e o projeto gráfico, como no ano passado.
o lançamento em brasília é nesse domingo, mas já dá pra comprar pelo site: pindura.tumblr.com

domingo, 13 de dezembro
a partir das 16h
espaço laje
708 sul bloco A casa 47

evento no facebook









segunda-feira, 19 de novembro de 2012

exercício de viagem

Sentar-se num(a)
( ) bar
( ) padaria
( ) calçada
( ) praça
( ) escada

de frente para
( ) a rua
( ) as montanhas
( ) o mar
( ) o jardim
( ) a cidade

pedir um(a)
( ) cerveja
( ) drinque
( ) café
( ) chá

e observar o tempo passar.

é opcional acender um cigarro.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

lançamentos em brasília


Eu e Carranza estamos indo pra Brasília, neste fim de semana, para o lançamento dos livros
SE A VIDA FOSSE COMO A INTERNET e MONSTROS da Beleléu!

Os amigos da Samba nos recebem na Laje, para uma tarde certamente agradável e de bom gosto.
E tem mais! Levarei alguns exemplares do Livro-Poster Canção, e do novíssimo zine do dinossauro.
Não temos máquina de cartão, levem dinheiro!

Sábado, 10 de Novembro
na Laje (708 sul, Bloco A, Casa 47)
a partir das 16h

evento no facebook



quarta-feira, 31 de outubro de 2012

animador

estou animando vinhetas para a próxima temporada do casseta e planeta - pela toscographics, de allan sieber -, que estreia no dia 2 de novembro, após o globo repórter. cenários de tiago elcerdo.












quarta-feira, 24 de outubro de 2012