fora o nosso catálogo, preparei 3 zines exclusivamente para o evento, com tiragem limitadíssima de vinte exemplares cada (além dos três últimos raríssimos exemplares de cabeça dinossauro, descobertos por exploradores búlgaros há algumas semanas).
vamos a eles:
CADERNO DE CINEMA | crítica imaginária
por Rubensvaldo Filho
16 páginas em jato de tinta preto sobre papel jornal, formato A5.
Para quem, como eu, tenha fetiche por papel jornal. Vocês não sabem o trabalho que deu para imprimir esse zine. Foi preciso fazer uma página por vez, torcendo para a impressora não mastigar completamente as folhas. Psicografado por Stêvz.
Um inventário de batatas imaginárias, publicado originalmente na revista peruana Carboncito #16. Acompanha relato da Embrapa sobre clones de batata geneticamente modificados.
pra quem não sabe, vamos lançar um disco, em breve, pela transfusão.
essa gravadora, comandada pelo carioca lê almeida, na raça, tem mais de 50 discos no catálogo, a maioria gravado no quarto/estúdio do lê - o lendário interestellar lo-fi, uma porrada de bandas no cast, e movimenta a cena independente da baixada fluminense há exatamente dez anos.
Quando menos se esperava, lá vinham madame Só-Só e a filha dobrando uma esquina: os passos muito cadenciados, os da filha sobretudo, davam-lhe a corda cada manhã até a noite – valendo um sorriso permanente. E às quartas-feiras havia a aula de música.
Andréa sentada ao piano, eu ficava em frente àquela Coisa, nem era uma moça nem deixava de ser, sempre de branco, a combinação em branco, a calça de rendas brancas – madame Só-Só muito positiva repetindo o solfejo, a vareta na mão, si-lá-sol, também ela toda de branco, branca a sala, e as cortinas e até o piano: o gato sobre o tapete – tinha-se a idéia de um pesadelo, era o que era. A filha não tinha um nome, era como uma boneca com a sua corda, agora imóvel no sofá, as coxas belíssimas: a clave de fá e a clave de sol: eu em frente mudo e fazendo de conta, durava uma hora a lição e eu era quem aprendia maravilhas, pouco me importava que fosse imbecil e que sorrisse o sorriso de sempre. Às vezes levava um caderno para disfarçar, mas nem era preciso – as mínimas e as semínimas, colcheias e semicolcheias, Für Elise –: a um menino é permitido ver coisas que não se permitem a um adulto, eu ou o gato era a mesma coisa, o relógio branco na parede pulsando os segundos, os minutos, coxas como aquelas eu nunca tinha visto, jamais veria, o começo do sexo dando-me um comichão entre as pernas, as minhas, subitamente minhas. Quando caía a chuva os acordes se prolongavam, de novo vinha a Für Elise, a vareta branca batendo o compasso, o gato espiando-me cúmplice, as pernas no sofá cruzando-se e descruzando-se, e o sorriso de sempre, eu rilhando os dentes para que a chuva não passassse, sorria também o meu sorriso para a idiota e para o gato: uma cumplicidade completa. Às vezes, com tanta chuva, vinha um cafezinho, não sei se branco, com biscoitos ou sem biscoitos, Andréa se aproveitava para voltar à infância, UFF!, madame Só-Só indo e vindo, a filha acompanhando-a com os olhos, o gato à espreita: Andréa chegava-se a mim e apontava com os olhos o mistério daquelas coxas: eu me mostrava surpreso, ensaiava um assobio para dentro.
Assim descobri o sexo ao som de escalas e mais escalas, Beethoven e suas jubas protegendo-me de olhares indiscretos, também ele cúmplice como a chuva e o resto, sou-lhe eternamente grato por isso, a ponto de Für Elise despertar-me, esteja onde esteja, uma ereção repentina como dizem ocorrer à rã decapitada quando lhe tocam com um fio elétrico, ou se não é bem isso fica sendo isso.
Desde Pitágoras, que reuniu a Aritmética e a Geometria, até Newton, que combinou os estudos do movimento dos projéteis de Galileu com as equações keplerianas das órbitas planetárias, e Einstein, que unificou a energia e a matéria em uma única e sinistra equação, o padrão é sempre o mesmo. O ato criador não cria algo a partir do nada, como o Deus do Antigo Testamento; ele combina, reembaralha e relaciona idéias, fatos, estruturas de percepção e contextos associativos já existentes, mas até então separados. Esse ato de fertilização cruzada — ou de autofertilização dentro de um único cérebro — parece ser a essência da criatividade e justificar o termo “bissociação”. 1
Tome-se o exemplo de Gutenberg, que inventou a prensa tipográfica (ou, pelo menos, inventou-a separadamente de outros). Sua primeira idéia foi fundir tipos de letras semelhantes a anéis de sinête ou selos. Mas como reunir milhares de pequenos selos de maneira que eles causassem uma impressão parelha sobre o papel? Ele lutou com o problema durante anos, até que um dia foi a uma festa de vinho em sua Renânia natal e presumivelmente embriagou-se. Escreveu numa carta: “Olhei o vinho a fluir e a voltar do efeito, para a causa; estudei o poder da prensa de vinho, a que nada pode resistir (...)” Naquele momento, a luz se fêz: selos e a prensa de vinho combinados resultaram na impressão de letras.
Os psicólogos gestaltistas cunharam uma palavra para esse momento da verdade, o relâmpago, da iluminação, quando os fragmentos do quebra-cabeça repentinamente entram no lugar; eles o chamam de experiência AHA. Mas esse não é o único tipo de reação que o estalo bissociativo pode produzir. Uma espécie inteiramente diferente de reação é despertada pelo relato de uma estória como a seguinte:
Execução: O ladrão aborda o cidadão em uma esquina deserta e mal-iluminada. Anuncia “Isto é um assalto!”, seguido de “Passa a carteira”. Os participantes vestem as luvas e colocam-se em posição de combate. Soa o gongo. Devem, então, dançar uma valsa ou o tango, sem pisar no pé um do outro. O juiz confere se o jogo está limpo, ao mesmo tempo em que dita o ritmo e bate a carteira dos dois.
"(...) A atividade de aprender a cantar e tocar piano foi suplantada hoje pela de colecionar discos, um desenvolvimento inquietante que já começou a afetar o futuro. O público da música séria ficou cada vez mais passivo, e já não há um corpo importante de ouvintes com educação apropriada e experiência musical capaz de servir como uma ponte entre o público geral e o profissional.
A música popular tem hoje um grupo assombrosamente grande de jovens empenhados em apresentá-la de maneira particular, para o próprio lazer e o de alguns poucos amigos. É um fato que se confirma ao longo da história. Mas, em nossa época, a música popular inverte a relação clássica entre composição e execução: a execução se tornou tudo. (...) Nos grandes exemplos de música popular de nosso século - aqueles que já chegaram a um status de clássicos, como as grandes improvisações de jazz de músicos como Art Tatum ou Miles Davis -, a composição original passa a ser identificada à performance. (...) Tatum não realiza a composição de Porter, ele compõe uma obra inteiramente nova na qual a composição de base serve como um componente estrutural. No começo do século 20, as formas mais avançadas de música popular eram eventos essencialmente improvisados, sendo cada um único e efêmero: eram preservados não por uma partitura, mas ocasionalmente por uma gravação, e eram basicamente irrepetíveis.
(...) O papel da improvisação, no entanto, foi reduzido no rock: nele, a gravação tomou conta. Uma apresentação pública de rock raramente é uma obra improvisada ou uma nova execução de uma partitura, mas simplesmente a reprodução de uma gravação. A maioria do público já conhece a música a partir de um disco e vai assistir para ter uma experiência comunal, em massa (no rock, o papel criativo do processo de gravação também deve ser levado em conta)." Charles Rosen, "The Future of Music", 2001. em Serrote #13 (Instituto Moreira Salles, março de 2013) Tradução de Adriano Scandolara.
Estava lendo o artigo acima e me lembrei desse texto besta e sub-nutrido que cometi em 2008, louvando as tecnologias de gravação e reprodução sonora.
O caso é que há um bom tempo a efemeridade da performance tornou-se passível de conservação, sem prazo de validade. Não deixa de haver uma certa magia nisso. Mas concordo com o Rosen em relação à "reprodução da gravação" que parece ser a regra nos concertos de música rock e pop hoje em dia, notadamente. Ele chega a citar, também, a música eletrônica, e define uma das vantagens da performance ao vivo em detrimento de gravações (mas parece esquecer do vídeo como uma alternativa): "Ao ouvir um disco, não se sente a dificuldade física da execução do texto musical, nem se testemunha, como num concerto, o espetáculo emocionante dos tormentos do intérprete". De qualquer forma, as percepções musicais do autor e do público serão sempre distintas, não importa o quão escolado ou descolado seja esse último. Mais ainda, a percepção de cada indivíduo será sempre distinta dos demais, e dele mesmo, em cada situação.
Cortázar já havia cantado a pedra:
"Agora uns amigos me deixaram uma vitrola e uns discos de Gardel. Entenda-se logo que Gardel deve ser ouvido na vitrola, com toda a distorção e a perda imagináveis; sua voz sai dali como foi ouvida pelo povo que não podia ouvi-lo em pessoa, como saía de vestíbulos e de salas em mil novecentos e vinte e quatro ou vinte e cinco. (...) Não são apenas as artes maiores que refletem o processo de uma sociedade."
Julio Cortázar, "Gardel", 1953. em A Volta ao Dia em 80 Mundos - Tomo I (Civilização Brasileira, 2008) Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht.
Segundo um dos comentários nesse vídeo, Gardel canta melhor a cada dia. Acho que isso resume o poder da execução/gravação. Mas é claro que se a composição fosse ruim, isso não faria diferença alguma.
Lançaremos o gibi Tension de la Passion vol. 1 e o livro A Intrusa essa semana, no Rio e em São Paulo. Além disso, fomos convidados para uma exposição no Sesc Belenzinho (SP). A abertura é dia 15, quarta-feira. Participaremos com a revista Beleléu e o livro Aparecida Blues.
comecei uma nova série semanal com o chapa André Valente:
se chama GASTURA, e é uma história em quadrinhos animada,
de trás pra frente, toda sexta, em gastura.tumblr.com
O leitor pode perguntar-se por que estamos interessados, afinal, em máquinas de jogar xadrez. Pois não constituem elas apenas uma inofensiva vaidadezinha mercê das quais os especialistas em planificação buscam demonstrar sua proficiência a um mundo que esperam irá ficar boquiaberto e maravilhado diante de suas realizações? Homem honesto que sou, não posso negar que certa dose de narcisismo ostentoso esteja presente em mim, pelo menos. Contudo, como se verá em breve, não é o único elemento ativo no caso, nem o que tem maior importância para o leitor não-profissional.
(...) No conhecido jornal de Paris, Le Monde, edição de 28 de dezembro de 1948, um frade dominicado, Père Dubarle, escreveu uma resenha (...) que confirma algumas das terríveis implicações da máquina de jogar xadrez crescida e enfiada dentro de uma armadura.
(...) Não será possível conceber um aparelho estatal que abranja todos os sistemas de decisão política, quer sob um regime de muitos Estados distribuídos pela face da Terra, quer sobre o regime aparentemente muito mais simples de um governo humano deste planeta? Atualmente, nada nos impede de pensar nisso. Podemos sonhar com a época em que a machine à gouverner venha suprir - para o bem ou para o mal - a atual e óbvia insuficiência do cérebro, quando este se ocupa com a costumeira maquinaria política.
(...) Tanto quanto se possa avaliar, apenas duas condições podem garantir estabilização no sentido matemático do termo. São elas, de um lado, uma ignorância suficiente por parte do grande número de jogadores explorados por um jogador hábil, que pode, ademais, idear um método de paralisar a consciência das massas; ou, de outro lado, boa vontade bastante para permitir que cada qual, por amor à estabilidade do jogo, submeta suas decisões a um ou a alguns jogadores que tenham privilégios arbitrários. (...)
A machine à gouverner (...) é por demais grosseira e imperfeita para exibir um milésimo do comportamento intencional e independente do ser humano. Seu verdadeiro perigo, contudo, é muito diverso - é o de tais máquinas, embora inermes por si mesmas, poderem ser usadas por um ser humano ou por um grupo de seres humanos para aumentar seu domínio sobre o restante da raça humana; ou o de líderes políticos poderem tentar dominar suas populações por meio não das próprias máquinas, mas através de técnicas políticas tão exíguas e indiferentes à possibilidade humana quanto se tivessem sido, de fato, concebidas mecanicamente. A grande fraqueza da máquina - fraqueza que nos salvou até aqui de sermos dominados por ela - é a de que ela não pode ainda levar em consideração a vasta faixa de probabilidades que caracteriza a situação humana. A dominação da máquina pressupõe uma sociedade nos últimos estágios de entropia crescente, em que a probabilidade é insignificante e as diferenças estatísticas entre os indivíduos nulas. Felizmente, ainda não alcançamos esse estado. (...)
Eu disse que o homem moderno, e especialmente o norte-americano moderno, por mais know-how que possa ter, tem muito pouco know-what. Aceitará a superior perícia das decisões feitas pela máquina sem indagar muito dos motivos e princípios que as fundamentam. (...) O que seja usado como peça de uma máquina, é, de fato, uma peça dessa máquina. Quer confiemos nossas decisões a máquinas de metal ou a essas máquinas de sangue e carne, que são as repartições oficiais, os vastos laboratórios, os exércitos e as companhias comerciais e industriais, jamais receberemos respostas certas às nossas perguntas se não fizermos perguntas certas.
Norbert Wiener, CIBERNÉTICA E SOCIEDADE: O Uso Humano de Seres Humanos (1954)
Capítulo X: Algumas Máquinas de Comunicação e Seu Futuro / Tradução: José Paulo Paes
Cabeça Dinossauro Vol.1 / Tiras 2012
A5 | 28 pags. | fotocópia
capa em carimbos de borracha
acompanha gravura de borracha em papel adesivo neon
tiragem limitada e numerada de 50 exemplares
"Começou uma discussão geral. Era estranho que jamais se considerasse a possibilidade de eu ser um dinossauro; a culpa que me era imputada permanecia a de ser um Estranho, um Estrangeiro, logo um Infiel; e o ponto controverso era o quanto a minha presença poderia aumentar o perigo de um eventual retorno dos dinossauros."
Durante o café, como quem não quer nada, ela mandou uma indireta de esquerda bem no meio das minhas fuças. Pego assim, desprevenido, retruquei com uma palavra-cruzada no queixo. “Dramalhão mexicano, horizontal, 13 letras”. Sem titubear, ela emendou uma sequência de ganchos e trocadilhos que me fizeram perder o fio da meada. Atordoado, encurralado na corda-bamba, esquivei-me como pude, com evasivas e meias-palavras. Mas ela tinha experiência e um belo jogo de pernas. O gongo da torradeira me salvou da saraivada impiedosa de perguntas que viria a seguir.
Pagamos a pizza. Mal havia cuspido no prato em que comera, começamos o segundo assalto, sem chance de jogar a toalha. Lavamos a roupa suja sem ao menos separar as mentiras brancas. O árbitro desistiu de apitar os impedimentos e golpes baixos na pequena área. Já havíamos passado do décimo assalto, moídos, os superegos abertos, quando foi declarado o empate técnico. Contamos até dez e abandonamos o ringue, sem ressentimentos.
gravei essas faixas um pouco antes de me mudar de brasília, mais ou menos junto com o factótum.
faltaram algumas coisas para completá-las, e acabei deixando de lado.
mas, pra não deixar isso aqui parado, juntei tudo em mais um álbum digital totalmente grátis.
espero que gostem.
1. quem você pensa que é (você é) 2. extraterrestres na explanada 3. fogo no cerrado 4. sleep it off 5. não tenha pressa 6. fool around 7. rouco, brazil
Durante as minhas férias? Estrangulei um leão e arranquei a pele dele. Depois matei uma serpente com corpo de dragão e nove cabeças – mas nenhuma idéia interessante –, daí aproveitei para comer uma casquinha de caranguejo. Fiquei sem sobremesa, mas no dia seguinte apostei corrida com uma corça, capturei um javali e limpei o curral do rei em troca de uns trocados pra comprar ficha de fliperama. Atirei com arco e flecha em passarinho e fui às touradas, dei comida aos cavalos marinhos e roubei os cintos das velhotas do bairro. No último dia, matei um gigante que vivia roubando meu lanche no colégio, e brinquei com o cachorro do vizinho, de três cabeças e três rabos (o cachorro, não o vizinho), que comeu o meu dever de casa. Aí roubei goiaba no jardim e fiz um curso de musculação por correspondência. Então as férias acabaram e voltei ao trabalho.
Bons os tempos em que tentavam nos empurrar apenas a roupa do imperador. Isso já não é exclusividade da indústria da moda. Hoje em dia, vendem não só a roupa, mas a dieta, os acessórios, o perfume, a música, as convicções, o silicone, o penteado e as vitaminas do imperador. Vinte e quatro horas por dia, pelo telemarketing, outdoors, pop-ups, spams, flyers, filipetas, reclames, anúncios, bulas, comerciais, banners e cartões-postais e, o pior: FORA DELES. Os advogados, jornalistas e publicitários do imperador fazem muito bem o seu trabalho, e quanto mais eficientes, mais invisíveis. Está em toda a parte, estamos cercados e não há como correr. Mas o lifestyle do imperador também não é exclusividade das monarquias e do high-society, é democrático e aceita cheque, cartão, tíquete e caução, em suaves 365 parcelas (fiado, jamais), com juros de apenas 100% ao ano (e não estamos falando de dinheiro). Mas isso, infelizmente, nem todos conseguem ver.