domingo, 29 de março de 2009

história de pescador pra boi dormir enquanto a vaca tosse

...Ela bota a gota d'água no feijão na panela velha que faz comida boa, passa os legumes da frigideira para o fogo que hoje tem visita das que descascam o abacaxi e torcem o pepino desde pequeno: Boa de garfo, que não dá colher de chá.
..."É melhor pegar logo a faca de dois gumes e depenar a galinha dos ovos de ouro, pra não ficar chorando sobre o leite derramado depois, que farinha do mesmo saco vazio não para em pé e em boca fechada não entra mosca nem vingança fria de sobremesa."
...Juntando a fome com a vontade de comer, o apressado de olho maior que a barriga mal lava uma mão na outra e já dá com a língua nos dentes, comendo cru e quente. E dá-lhe pimenta nos olhos dos outros, que pra acalmar os ânimos só uma tempestadezinha em copo d'água, que ninguém é de ferro e espeto de pau torto nunca se endireita.
...Caviar é uma ova, engolindo sapo por lebre nem se percebe o ingrediente secreto: chuchu beleza com chumbinho, assim assado. Fazer o quê? Caiu na rede é filho de peixe, peixinho é.

sexta-feira, 27 de março de 2009

4.

...— As cartas não mentem, minha amiga. A boa ou a má notícia primeiro? Veja bem, esta aqui de cabeça pra baixo revela perigo iminente, se eu fosse você tomaria muito cuidado ao atravessar a rua, vai saber. Já esta outra indica claramente uma boa surpresa para alguém próximo, sorte no jogo ou no amor.
...Ou será o contrário? Na dúvida consulto ainda as outras cartas na manga: i-chings, búzios e bolas de cristal; borra de café, palitinhos e as linhas da sola do pé. Pois bem, é isso mesmo, os astros me informam, os oráculos confirmam: desta vida ninguém sai vivo, quem não chora não mama, de ontem em diante o amanhã é hoje.
...Ela ouve atentamente, acena com a cabeça, aceita a previsão da dança do destino e a tarifa do serviço.
...— Aqui a conta mais os dez por cento, aceitamos todos os cartões. Que nada, obrigada você. Volte sempre.
...Essas dondocas realmente levam isso a sério, ainda bem. O gato também agradece: sem elas, nada de leite e ração. Para comemorar até deixa uma lembrancinha na caixa de areia, se espreguiça ronronando, quase vira pelo avesso e salta pra cima da televisão: seu lugar preferido.
...Enroscando os bigodes nas antenas com peruca de palha de aço, preto-e-branco tal qual a imagem mal-sintonizada na tela, vidente mesmo é ele. E é só eriçar os pêlos das costas e do rabo desse jeito que lá vem tragédia na certa.

sábado, 21 de março de 2009

1.

...Mudei-me em pleno carnaval. Ao desembarcar de mala e cuia, já fantasiado de ser humano, no meio do bloco e no fim da fila, puxei um sambinha capenga no anúncio do jornal e paguei adiantado com uma piada de papagaio. De maneira que na quarta-feira de cinzas já estava devidamente instalado no alto do corcovado sem dever nada a ninguém.

(...)

sexta-feira, 20 de março de 2009

2.

...— Alguém aí conhece o itinerário?
...É o meu primeiro dia no serviço e na verdade pouco me importa o caminho, todos eles levam ao meu magro contra-cheque, à minha cama e ao dia seguinte. Na dúvida, sigo o ônibus da frente, vai que a linha é a mesma. Quanto ao pontos, não me perguntem. Pára-se em qualquer canto, os passageiros que se virem e olhem para os dois lados da rua, para cima que lá vem chuva e para baixo que o bueiro está aberto. O cobrador se faz de desentendido, conta os trocados como quem não quer nada. Para ele também dá na mesma, desde que a roleta continue girando: o que vier é lucro, quem sabe até a sorte grande qualquer dia lhe sorria, tropece nos cadarços desamarrados e caia indefesa no seu colo. Só que isso nunca acontece. Eles começam a descer antes da hora, gritam, xingam, vociferam, esbravejam, amaldiçoam. A mim só interessa o ronco do motor.
...Mas que diabos! Sinto muito, mas é pedir demais que em tão pouco tempo alguém conheça esta cidade de cabo a rabo ou como a palma da mão direita. Invento então minha própria rota quiromântica, pela linha da vida e da morte a cada esquina, quem não gostou que saia da frente. A buzina é alta, cômica também: toca a musiquinha da novela com voz de ganso rouco. As multas encaminhem lá pra casa, que não estou já há uns trinta anos, e mesmo quando estava nunca estive por inteiro.
...Não adianta, é inútil acreditar nos mapas. Incluam-se aí os atlas e enciclopédias. Das placas de rua nem se fala, convenções baratas e homenagens descabidas, resumem-se a isso. Perdido — aliás, perdido não! achado — em pensamentos, dobrei uma esquerda aonde não devia, furei meia dúzia de sinais fechados e agora me encontro na contramão da avenida, abrindo caminho com a minha buzininha de fuororó. Parece funcionar, melhor assim. Parar a esta altura dos acontecimentos já não é opção, na metade da rota para sabe deus lá onde. Os passageiros fugiram faz tempo. O cobrador, esse me abandonou três quarteirões atrás. Ele é que não sabe o que está perdendo: essa voltinha pelo avesso do trânsito, contra a maré, rumo ao oceano.

quinta-feira, 12 de março de 2009

lápis






Parceria com Tiago Elcerdo , que gentilmente me hospedou esses dias, para filipeta de festa em Volta Redonda.

terça-feira, 10 de março de 2009

mudança

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certa hora parei de me procupar com a mala de rodinhas estreitas e instáveis que tombava a cada passo e só podia ser levada virada para a frente e fui assim mesmo ladeira abaixo e lapa adentro até o ponto do 409 (mesmo assim suando bicas por conta do terreno acidentado de raízes e bueiros e bitucas e poças de chorume e urina da silvio romero, que me obrigavam a carregá-la no colo a cada novo obstáculo)
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---se alguém perguntasse, eu diria calmamente:
---"estou levando ela pra passear"
---e passei até a acreditar mesmo nisso enquanto a danada da mala sem alça me puxava para as árvores postes e hidrantes e cheirava o traseiro das bolsas das senhoras, muito brincalhona e inconsequente, deixando para trás um rastro de meias e roupas sujas que eu patrioticamente recolhia

quinta-feira, 5 de março de 2009

amor de supermercado

...Conheceram-se na seção de enlatados, ao alcançarem ao mesmo tempo a última lata de sardinha — vencida. Resignaram-se os dois, contentando-se com as ervilhas e salsichas, respectivamente — o que provou-se uma sábia decisão no final das contas. Mas ainda não chegamos às contas, muito menos ao final. Riram-se ao esbarrar de novo um no outro nos artigos de limpeza, comparando preços de sabão em pó. Na terceira coincidência, decidiram percorrer logo as listas de compras juntos, que afinal eram muito similares. Conversa vai conversa vem, escolheram batatas, cebolas e abobrinhas; pesaram lagartos e maminhas; estocaram granola e farinha. Mas no que não coincidiam, completavam-se: ela levava areia de gato, ele ração de cachorro; ela arroz, ele feijão.
...Foram conhecendo-se melhor ali, entre os extratos de tomate e pepinos em conserva. Ao chegarem aos laticínios já eram almas gêmeas, fazendo planos de encher a geladeira com mais freqüência. Passando pelas fraldas e mamadeiras, os olhos dela brilharam um pouquinho, mas pegou apenas talco para disfarçar. “Chulé”, disse brincando. Já tinham essas liberdades que vem com a intimidade.
...Discutiram pela primeira vez na seção de vinhos: ele preferia os tintos, ela os brancos e rosês. Reconciliaram-se logo em seguida, junto aos rolos de papel higiênico de folhas duplas. Chegaram mesmo a dividir a pasta de dentes sensíveis e o fio-dental mentolado, os congelados em promoção — ele tinha cupons — e o xampu 3 em 1.
...Até que, na fila do caixa, ela o pegou no flagra bebendo a caixa de cerveja do carrinho ao lado com os olhos. Foi o bastante para o rompimento. Na verdade todo o relacionamento já andava abalado desde o incidente do leite desnatado e do fiasco da pomada para hemorróidas. Pagaram com cartão: ele no débito, ela no crédito. Empacotaram os seus bens, despediram-se com um seco aceno de cabeça e não se viram desde então.

nocaute nada

às vezes o rei tem de fingir um ataque cardíaco infarto para escapar do vexame de um xeque-mate prematuro

antes de ser encurralado no canto
e apanhar escorado nas cordas até beijar a lona

aí o juiz precisava intervir, soando o gongo, separando os lutadores suando e sangrando bicas

senta no banquinho
cospe no balde
ouve as instruções do treinador
tonto tonto
arfando
segundo round
volta ao ringue cambaleante
socando o vazio
esquiva
jogo de pés

até tomar uma em cheio no pé da orelha
jab jab
gancho
cruzado de direita
queixo de vidro
arrebenta o supercílio
quebra o nariz
cospe os dentes

os apostadores todos em polvorosa

derrota, humilhação

o que os vizinhos vão dizer lá em casa?

bom jogo, boa luta
o que importa é competir
e não perder os dentes da frente
que os outros a gente nem repara

mas a platéia gosta do espetáculo
já de fora, os bispos com os coroinhas
as rainhas ciumentas
os peões de obra
comentando a sequência matadora
bêbados eufóricos

aí o rei, pra terminar a noite,
pendura as luvas
monta no cavalo em disparada e salva a donzela aflita no alto da torre

terça-feira, 3 de março de 2009

sábado, 14 de fevereiro de 2009

clube da luta




tira para a série "finais que gostaríamos de ver", da revista Monet desse mês.

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e aqui a mini-biografia que reescreveram para caber lá no começo:

Stêvz tem - somados os dois olhos, a distância e os óculos - aproximadamente cinquenta graus de miopia. Isto sem falar no astigmatismo. Já publicou nas revistas independentes Tarja Preta, Prego, Samba, Bongolê-Bongoró e outras. Em 2008 lançou o livrinho A Importante das Palavras Ordem É, de frases ilustradas, e editou o calendário Pindura 2009 - aparato para contagem dos dias do ano™, que inclui o trabalho de mais onze artistas brasilienses. Toma o café sem açúcar. Também é compositor.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

superstição


e aqui um videozinho de uma música que, apesar de velha, ainda não está totalmente resolvida.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

noir


antes de dar uns tapas no traseiro da sua garota, certifique-se sempre de que não há um anão africano canibal albino armado debaixo da cama.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

textos abortados

..Era um radiologista odontológico tarado e perfeccionista. Na verdade fotógrafo frustrado, agora contentava-se com o alinhamento adequado, o enquadramento perfeito e a exposição da chapa na medida pra ninguém botar defeito. Mas talvez tudo não passasse de balela. Desculpa pras sessões incessantes radioativas intermináveis com os pacientes inocentes mais dentuços. Excitava-se pra valer com os caninos e incisivos superiores, quase babava com os pré-molares da direita, e quando aparecia algum siso intrometido protuberante aí nem se fala.

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..Os mosquitos devoram os meus pés. Respiro com dificuldade, talvez por causa da grossa camada de poeira acumulado no pequeno cômodo ao longo dos anos. Os dias são quentes, as noites são frias, às vezes o contrário. Já eu sou sempre o mesmo, calado, asmático, coçando as feridas. Não me lembro quando foi a última vez em que pus os pés, picados de mosquito, na rua. Me lembro da partida final do campeonato belga, 1985. Não que estivesse lá, não estava, mas é a única coisa que passa nesta tevê velha, a qualquer hora, em todos os canais. E após tanto vê-la e revê-la em todos esses anos, perdeu para mim toda a surpresa da caixinha, a imprevisibilidade tão peculiar ao jogo da bola redonda, abrindo-se numa nova perspectiva analítica, não menos fascinante. Parece-me, hoje, mais próxima de uma obra de arte apagada pelo tempo, como um quadro velho pendurado na parede sem muito cuidado.
..Me foi mesmo possível apreciá-lo, após tanto tempo de observação, como um preciso jogo de xadrez, minuciosamente planejado pelos brilhantes técnicos das duas equipes, Mr. Houlot e Mr. Poirot, apesar de tratar-se de uma pelada das mais vulgares e desengonçadas, sem muito perigo de gol para qualquer dos lados, terminando em vergonhoso zero a zero que é decidido nos pênaltis quando a pelota acerta a trave esquerda do goleiro Mr. Abajour na terceira cobrança do Esportivo Rendezvous pela canhota do mexicano Hernandez, naturalizado belga, que na verdade estava no banco e só entrou nos minutos finais do segundo tempo.
..Com o passar dos anos, fui mesmo perdendo por completo o interesse no jogo em si, passando a me concentrar em uma pessoa por vez, analisando assim cada um dos jogadores, treinadores, comissão técnica, gandulas, bandeirinhas e metade dos 354 pagantes de ambas as torcidas, que são os que aparecem no vídeo. Fiquei mesmo tão fascinado com o espetáculo das ações e reações do ser humano no meu pequeno experimento e passei a perceber tamanha lógica e coerência naquela partida, até ela tornar-se, para mim, a metáfora definitiva do sentido da vida e do cosmos, além é claro do todo-poderoso, representado pelo árbitro, naturalmente. A indecifrável narração em um belo francês que eu não compreendo, apenas acentuou a aura mística da minha percepção do evento, e mesmo a pomba que cruza o canto da tela da transmissão momentos antes do quinto escanteio continha para mim a clara mensagem divina "mais vale um na mão do que dois voando", ao que os mosquitos prontamente corrigiam: "antes um na mão do que dois no pé".

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... de volta pra prancheta.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

correspondência

quando não estão ensopando minhas encomendas os correios ainda fazem um bom trabalho, e me entregaram três coisas esta semana:

Macieira Sessions é um catálogo de gravuras do camarada Misch Valente, que troquei numas revistas. O cara entende português, mora em Luxemburgo e é casado com uma loira linda. Pelo que entendi, as gravuras foram feitas em duas sessões de bebedeira.



o Calendário de Ilustradores 2009 chegou ontem, direto de Buenos Aires. Num formato não muito convencional, estilo mostruário de tipos de papel, tem uma penca de ilustradores argentinos de primeira. Coisa fina. Troquei num Pindura com o bróder Catriel Martínez.




e por último, recebi de volta uma caricatura que mandei pra piracicaba uns dois anos atrás.


as fotos estão uma merda, porque não consegui achar o cabo da máquina fotográfica.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

domingo, 18 de janeiro de 2009

promoção de carnaval

últimos 15 exemplares do calendário
na minha mão
por 20 pratas!

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mais informações:
stevz stevz @ gmail . com

sábado, 17 de janeiro de 2009

ser humano é um barato
ser humano é tão legal
a gente nasce um do outro
cresce solto e acha pouco
estar topo da cadeia alimentar

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

domingo, 11 de janeiro de 2009

no seu espaço ou no meu?

Esse negócio de desenho não está com nada, a onda agora é música. Podicrêuza.

www.myspace.com/mudrusba

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(mas se alguém quiser contratar aí, esqueçam o que eu disse)

http://absurdum.carbonmade.com


Tchuns.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

rio de janeiro (em janeiro)

_________________________arte: Tiago Lacerda


os comparsas da revista SAMBA estão indo fazer lançamento no Rio, terça-feira!


de quebra, levam:


12 exemplares do calendário PINDURA 2009 - aparato para contagem dos dias do ano
10 exemplares do almanaque BONGOLÊ-BONGORÓ #2
e
12 exemplares do livrinho A IMPORTANTE DAS PALAVRAS ORDEM É

!!!


taí a deixa.


Terça, 06 de Janeiro
a partir das 20h
La Cucaracha Bazar e Galeria
Rua Teixeira de Melo 31 Loja H - Ipanema