segunda-feira, 28 de julho de 2008

INTERURBANO BLUES

tiro a coragem do bolso direito
e jogo na calçada
aqui não precisa olhar pros dois lados
pra atravessar a rua

gente saindo pelo ladrão
e eu só mais um na multidão
atrás de um orelhão

muito obrigado pela informação
daquela rua errada
no fim da fila daquela esquina
está o encontro de nós dois

me dê licença aí, cidadão
que é importante a ligação
pra abrir meu coração

a secretária eletrônica dela
é muito educada
receptiva e bem-humorada
é toda ouvidos para mim

chamei a secretária então
pra viajar pelo japão
mas ela disse não


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ATUALIZAÇÃO:

O camarada Daniel Ilustróide roubou a letra pra fazer uma HQ maneira, que ele pretende mandar prum famoso salão de humor. Mas se depender do meu pé-frio pra essas coisas... rará.
Quando eu voltar do retiro espiritual aqui da minha casa de praia, coloco a música também.

sábado, 5 de julho de 2008

segunda-feira, 30 de junho de 2008

domingo, 29 de junho de 2008

Rouco, Brazil

o otorrinolaringologista
pediu
para ouvir
a voz do brasil

pegou o estetoscópio prateado
gelado
mediu temperatura
altura, envergadura
salário e a conta bancária

-meu caro brasil,
isso não é nada não
é só uma pequena prisão de ventre
gases, enxaqueca
tome duas aspirinas no café
e pague seus impostos em dia

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quarta-feira, 25 de junho de 2008

suspeitos


* aquela serigrafia das caveiras já está disponível na kingdom comics, no conic, para quem se interessar.

terça-feira, 24 de junho de 2008

o triste fim do palhaço paçoquinha

...Deu no único jornal da cidade, entre os classificados e o resultado da loteria: "Palhaço Paçoquinha finalmente consegue". Isso porque não era a primeira vez que tentava. Nem a segunda ou terceira, diga-se de passagem. A mais notória, sem dúvida, fora a décima quarta mirabolante tentativa, no verão de 85, que mobilizou todo o corpo de bombeiros e o guincho do Seu Zackarias no resgate do fusca no pântano. Mas outras também acabaram tornando-se lendárias, principalmente pela criatividade e variedade de métodos, dignos do artista que era.
...Acontece que, como nas armadilhas dos vilões americanos, faltava-lhe objetividade e, justamente por conta disso, jamais fora bem sucedido em seu propósito. A torta envenenada na cara causou-lhe apenas um incontrolável soluço que o atormentou por uma semana, além de uma diarréia dos infernos. Sobreviveu também ao choque da torradeira na banheira, mas o patinho de borracha não teve a mesma sorte. Da velha pistola d'água nem se fala. Certa vez tentou, ainda, intoxicar-se com o hélio dos balões, e acabou permanentemente com a voz esganiçada, o que atribuia-lhe efeito cômico mesmo nos momentos mais embaraçosos e inoportunos que vivesse.
...Mas Agenor Ladeira, o nosso ilustre palhaço, não fora sempre este incorrigível e deprimido suicida. Já tivera próspera carreira no circo. Respeitado por todos, era casado com a mulher barbada Marilu. Certo dia, porém, pedalando sua mini-bicicleta do trabalho para casa, pegou-a no flagra aos beijos com o barbeiro, com quem fugiu dias depois. Afogado em mágoas e dívidas de engraxate, Agenor nunca mais foi o mesmo. Desde então, decidido a dar cabo da própria vida, aprimorou-se nas entradas triunfais e saídas estratégicas. E, quando percebia a deixa do destino, não hesitava em concluir a piada. Mas nunca ria por último, coitado. Quando pulou da ponte José Pergolato Filho, ficou pendurado durante 5 longas horas, preso pelo cadarço desamarrado. Quando se jogava na frente dos carros, todos sempre paravam, confundindo o seu nariz com o semáforo.
...Enquanto isso, o palhaço Paçoquinha precisava continuar trabalhando. E lá ia ele, montado na sua bicicletinha, alegrar a festa de todas as crianças da cidade. E elas nunca se divertiram tanto, apesar dos pais acharem estranho o palhaço que modelava forcas e guilhotinas em balões coloridos e espirrava lágrimas pelas flores de lapela. Acontece que Paçoquinha era um palhaço nato, mesmo que não quisesse. E nunca foi tão aplaudido ou provocou tantas gargalhadas como quando engasgou naquele pedaço de marmelada, mudou de cor, abanou os braços, deu duas cambalhotas desengonçadas e estatelou-se no chão.



domingo, 22 de junho de 2008

outros tempos

O mosquito do cocô
do cavalo do bandido
picou o mocinho,
que morreu de dengue hemorrágica.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

monólogo do umbigo dos azarados




Pedaços duma história que mandei prum salão de humor no ano passado.
Não foi bem executada, mas daria uma boa idéia para um curta.

blues

a propaganda da televisão falou que
eu devia ser bem mais bonito
inteligente e bem sucedido

mas eu não sou não

a propaganda da televisão falou que
eu devia ter o carro importado
e o creme dental do seriado

mas eu não tenho não

o que é que eu vou fazer
se o meu controle remoto não tem pilha?

a propaganda da televisão falou que
o cartão de crédito e o refrigerante light
vão salvar o planeta

mas eu não sei não

a propaganda da televisão falou que
o jornal e a novela são bem mais interessantes
do que a minha vida

mas isso eu já sabia

o que é que eu vou fazer
se eu não sou o dono da tevê?

segunda-feira, 16 de junho de 2008

sexta-feira, 13 de junho de 2008

o fantasma do fantasma


sexta-feira 13

bom dia
boa tarde
boa noite

senhoras e senhores
hoje é sexta-feira treze
lua cheia esquisita
lobisomens gêmeos siameses
nas esquinas

procurando embaixo do tapete a chave certa

de andar em andar
de andar em andar
da fechadura invisível
tranca cadeado fantasma

mas só têm a chave das portas erradas
só têm, só têm a chave
das portas erradas

sexta-feira, 6 de junho de 2008

quinta-feira, 22 de maio de 2008

terça-feira, 20 de maio de 2008

Joquempô, pô!



-céus, meu marido!


Cartum que deve estar exposto na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, em Junho.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

terça-feira, 13 de maio de 2008

livro pra criança

O nome era Jano e a Máquina de Fazer Música, e viria com trilha sonora e tudo.

quem sabe
qualquer dia termino...


Quando Jano era pequeno a música vinha em discos feitos de cêra de ouvido. Pra ouvir, era preciso pegar um daqueles mosquitos que zunem a noite inteira e não deixam a gente dormir, e do focinho dele fazer uma agulha que lambia o disco que girava. Ou então caçar uma música perdida no meio das ondas do rádio, rodando o contador com precisão milimétrica, nem-muito-pra-lá-nem-muito-pra-cá. Mesmo assim, às vezes acabava-se ouvindo duas músicas ao mesmo tempo, que estavam tão coladinhas que não dava pra escolher só uma.


Um dia Jano descobriu que aquele móvel esquisito que ficava no canto da sala não era móvel coisa nenhuma, e estava com a boca aberta mostrando os dentões de marfim num sorriso esquisito. E ele não devia escovar muito bem os dentes, porque alguns eram pretos e lá dentro da garganta já havia até teia de aranha nas cordas vocais do coitado.

.


terça-feira, 29 de abril de 2008

tentáculos



Fragmentos duma história curtinha pra uma revista de TERROR que deve sair no meio do ano aqui em Brasília.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

calaveras


Pedaço duma ilustra que estou fazendo pruma exposição na gringa.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

...

mas esquecem de dizer
os efeitos colaterais da cidade

domingo, 6 de abril de 2008

antes dúvidas do que dívidas (é o que dizem)

Fui lá
cumprir a minha sina
de brasiliense nato

vencer a concorrência

garantir o leitinho
das futuras crianças

mas todo mundo está fazendo o mesmo

arrumamos
o feng shui da mesinha destra
na carteira de quinta série

enquanto os ambulantes ainda gritam lá fora:
-olha a água, chocolate, caneta preta!
-búzios, tarô, bola de cristal!

bzzzzzt
toca o sinal

liguei o detector de mentiras
das mentiras deslavadas por todos os lados

o polígrafo esferográfico

preenchendo os espaços
da cartela
da loteria

talvez eu deva
torrar minha grana toda
na loteria

quem sabe não aumentam
as minhas chances com as mulheres?

mas que sei eu de chances
enferrujado na matemática
contando nos dedos
as estatísticas do número de carros por habitante
do número de candidatos por cargos e vagas

e o relógio em contagem regressiva

conspirando com o torcicolo
pra me tirar da jogada
pra me tirar a compostura
e mandar logo tudo à merda

mas resisto bravamente
como tantas outras vezes
arrisco
rabisco

assino embaixo

esfrego a digital bem gorda
na prova do crime

esfrego a prova do crime na cara do fiscal

e agora é esperar

o contra-cheque no crédito
ou uma medalha de honra ao mérito

quinta-feira, 3 de abril de 2008

faça você mesmo

Quem não tem cão caça com gato
quem não tem banda
overduba-duba e grava tudo sozinho, pô.

Uma música é do começo desse ano, outra dos idos de doismilesseis ou cinco, duas de Julho do ano passado em Diamantina, e acabei inventando mais duas que gravei no mesmo dia.

O camarada Biu gentilmente hospedou a brincadeira na estante da Sirva-se Records.


Qualquer hora tem mais, música é o que não falta...