segunda-feira, 27 de julho de 2009
quarta-feira, 22 de julho de 2009
+soma
tem quadrinho meu na revista +soma 12.
e ainda: entrevista com andré dahmer, e hqs de gabriel renner, alex vieira e chico félix — além de muito mais coisa boa.
baixe a revista na íntegra AQUI
e ainda: entrevista com andré dahmer, e hqs de gabriel renner, alex vieira e chico félix — além de muito mais coisa boa.
baixe a revista na íntegra AQUI
quinta-feira, 16 de julho de 2009
domingo, 12 de julho de 2009
sábado, 11 de julho de 2009
quinta-feira, 9 de julho de 2009
sábado, 4 de julho de 2009
quinta-feira, 25 de junho de 2009
what the?
exercício de montagem que consistia em fazer um curta de 3 minutos com trechos de 9 filmes diferentes
terça-feira, 23 de junho de 2009
sábado, 20 de junho de 2009
cara-o-quê?
...As letrinhas na tela passam mais depressa do que eu esperava, mas não importa, sei os versos de cor, só não entendo o que diabos a foto dos alpes suíços faz lá no fundo, seguida pelas bahamas e dançarinas de hula-hula, como num álbum de fotografias de viagens internacionais que nunca farei. Dane-se, fecho os olhos e solto a voz, que só aparece nessa hora, reverberando pelas paredes pelas mesas e até na calçada lá fora, na canção mais velha do que eu, do que todos nós, cortando o ar incoerente dessa noite.
...As mulheres gritam, garrafas se quebram, mesas tombam, eu devo estar sendo mesmo um sucesso com esse microfone e o copo na mão, o colarinho aberto, e tão embriagado de sucesso que mal percebo a briga que já toma conta de metade do salão. Dois panacas bêbados se socam desajeitadamente, um cantou desafinado a mulher do outro, o público gira ao redor, esquivando-se, apostando, torcendo, vaiando, todos dançam conforme a dança e a canção que eu canto, e não paro, só paro quando ela acabar, paguei a ficha e é esse o meu direito. Um deles levanta uma cadeira, é o auge da batalha, justamente no refrão, me empenho nos agudos, lá vem, os garçons tentam apartar os combatentes dançarinos, seguro a nota lá no alto, chega a polícia, a sirene em contraponto, a música quase no fim, canto o último verso já algemado junto aos outros, aplaudido de pé pelo delegado que aproveita a confusão para fugir sem pagar a conta.
...As mulheres gritam, garrafas se quebram, mesas tombam, eu devo estar sendo mesmo um sucesso com esse microfone e o copo na mão, o colarinho aberto, e tão embriagado de sucesso que mal percebo a briga que já toma conta de metade do salão. Dois panacas bêbados se socam desajeitadamente, um cantou desafinado a mulher do outro, o público gira ao redor, esquivando-se, apostando, torcendo, vaiando, todos dançam conforme a dança e a canção que eu canto, e não paro, só paro quando ela acabar, paguei a ficha e é esse o meu direito. Um deles levanta uma cadeira, é o auge da batalha, justamente no refrão, me empenho nos agudos, lá vem, os garçons tentam apartar os combatentes dançarinos, seguro a nota lá no alto, chega a polícia, a sirene em contraponto, a música quase no fim, canto o último verso já algemado junto aos outros, aplaudido de pé pelo delegado que aproveita a confusão para fugir sem pagar a conta.
domingo, 7 de junho de 2009
terça-feira, 19 de maio de 2009
quinta-feira, 14 de maio de 2009
sábado, 9 de maio de 2009
sexta-feira, 8 de maio de 2009
cotidianus domesticus
Acordo com o canto das buzinas de automóvel, alimento as plantas, rego o gato e troco a areia do peixe. Meu ecossistema funciona como um relógio suíço, eliminadas as partes sobressalentes e dando-se corda ao contrário, naturalmente. Passo o café e as cuecas, penduro a conta no varal e preparo a minha própria comida, algo digno de estudos por parte da NASA e que qualquer dia ainda vai dar na pedra filosofal ou num cálculo renal de brinde. Arredonda-se para baixo, noves fora o cafezinho, e vamos do topo da cadeia alimentar para o trono de direito, que tudo o que sobe desce, o que entra sai, e é pela obra que se conhece o autor. Cantamos parabéns ontem — eu, o gato, o peixe e as plantas — para o frango no congelador, que está fazendo aniversário, e apesar de não botar ovos de ouro pelo menos não incomoda ninguém. À esta altura já deve pensar que é mesmo um pingüim de geladeira.
domingo, 3 de maio de 2009
retorno
...Apertando o passo para não passar aperto, cruzo a avenida agora vazia, cortando caminho por ruelas e becos imaginários, onde os assaltantes nos dão presentes de aniversário e os postes cospem notas de cem. Corro para alcançar o ônibus errado, que para a um quilômetro do ponto vazio. O motorista é dublê de cobrador, ou vice-versa, vai saber: manobrando com uma mão só, tira do bolso o troco exato, em moedas de cinco centavos, para a garoupa graúda em extinção — genial, além de tudo ainda são gênios da matemática.
...Sento-me ao fundo, único passageiro e testemunha do chofer solitário, que me conduz quase tão suavemente quanto uma britadeira pelas ruas desertas. O maldito corre como um louco, minha bexiga se contrai ainda mais, na esperança de esvaziar-se logo. O ônibus pula a cada irregularidade da pista, eu quicando no último banco como uma bola de tênis hiperativa num trampolim no meio de um terremoto japonês, cada vez mais alto. Me seguro como posso, com as mãos os pés e os dentes, tentando antecipar os saltos, mantendo os joelhos flexionados para não cair da sela do touro mecânico indomável.
...Me penduro na cordinha, o piloto passa do ponto mais uma vez. Grito para chamar-lhe a atenção: aí sim, freia tão brusca e subitamente, que atravesso voando o corredor, numa trajetória perfeita que cruza a roleta e termina no pára-brisa, esborrachado tal qual um inseto. Ding! Supa-Dupa-Mega-Combo, mil pontos para mim, a bola do pinball.
...Amaldiçôo o motorista e trato de dar o fora dali, atrás da primeira árvore que vir pela frente. Alivio-me enfim, regando as raízes de um poste qualquer. Vou-me embora assoviando, as mãos nos bolsos, e merda! perdi o telefone dela.
...Sento-me ao fundo, único passageiro e testemunha do chofer solitário, que me conduz quase tão suavemente quanto uma britadeira pelas ruas desertas. O maldito corre como um louco, minha bexiga se contrai ainda mais, na esperança de esvaziar-se logo. O ônibus pula a cada irregularidade da pista, eu quicando no último banco como uma bola de tênis hiperativa num trampolim no meio de um terremoto japonês, cada vez mais alto. Me seguro como posso, com as mãos os pés e os dentes, tentando antecipar os saltos, mantendo os joelhos flexionados para não cair da sela do touro mecânico indomável.
...Me penduro na cordinha, o piloto passa do ponto mais uma vez. Grito para chamar-lhe a atenção: aí sim, freia tão brusca e subitamente, que atravesso voando o corredor, numa trajetória perfeita que cruza a roleta e termina no pára-brisa, esborrachado tal qual um inseto. Ding! Supa-Dupa-Mega-Combo, mil pontos para mim, a bola do pinball.
...Amaldiçôo o motorista e trato de dar o fora dali, atrás da primeira árvore que vir pela frente. Alivio-me enfim, regando as raízes de um poste qualquer. Vou-me embora assoviando, as mãos nos bolsos, e merda! perdi o telefone dela.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
mudos imóveis
Mudou-se, foi dividir um apartamento com ela. Ficavam assim: ele com o quarto e o banheiro, ela com a sala, entretendo as visitas. Mas o relacionamento foi se complicando, problemas de comunicação. Ela não calava nunca a boca, além de não saber ouvir. Ele mal começava a contar sobre o seu dia, ela despejava o preço do dólar, a alta na cotação do petróleo, o pênalti roubado, o escândalo do senado, a receita de pato assado e o adultério da zona sul. Ele começou a chegar tarde, quando chegava. Quase não se viam, embora ainda lembrasse dela com certa melancolia nos botecos e nas salas de espera, às vezes nas lojas de eletrodomésticos. Numa dessas, conheceu a outra: trocou a televisão por uma geladeira, quinze prestações mais nova.
domingo, 19 de abril de 2009
beleza pouca é bobagem
...Voltamos ao vivo do planeta Terra, onde dentro de instantes iremos conhecer a próxima Miss Ser Humano deste século. Mas antes, a última candidata finalista: Esperança no palco e na passarela, pesando noventa toneladas — e mesmo assim mais leve que uma pluma —, medindo 15 centímetros de altura, 184 de busto, 32 de cintura, um quilômetro de quadril e meio metro de sorriso, ela é só simpatia e carisma. Formada em Educação Física Quântica pela Universidade do Sri Lanka, seus hobbies são derreter calotas polares e comer casquinhas de siri. Pretende descobrir a cura do câncer de dedão e o sentido da vida, assim que os porcos criarem asas na Malásia. Preenche um biquíni como ninguém e sabe a tabuada e a raiz quadrada da dívida externa de cor e salteado. Mantém o senso de humor bronzeado e radiante como uma bomba atômica de domingo e não está para brincadeira, decidida a vencer custe o que custar, ainda mais de barba feita.
...Os jurados consultam os astros pelo telescópio, a audiência pelos binóculos e a consciência no microscópio eletrônico de varredura. Os apostadores, à postos na platéia, apostam alto: o páreo é duro, apesar de Esperança ter matado todas as outras concorrentes. A campeã do mês passado já removeu cirurgicamente a coroa de espinhos, conformada, se prepara para passar a faixa de Gaza e o cinturão de peso morto sem cair do salto. A torcida delira com os anúncios dos patrocinadores, Esperança sapateia sobre os cadáveres das oponentes e assovia chupando manga e fumando cigarro sem filtro. Os jurados resolvem decidir no palitinho. Esperança roda a Bolsa de Valores debaixo do poste. A platéia aplaude a placa de aplauso, emocionada com o espetáculo — e com dois meses de atraso lá vem o envelope lacrado com o resultado e a conta de luz, senhoras e senhores: a grande vencedora você fica sabendo depois dos comerciais.
...Os jurados consultam os astros pelo telescópio, a audiência pelos binóculos e a consciência no microscópio eletrônico de varredura. Os apostadores, à postos na platéia, apostam alto: o páreo é duro, apesar de Esperança ter matado todas as outras concorrentes. A campeã do mês passado já removeu cirurgicamente a coroa de espinhos, conformada, se prepara para passar a faixa de Gaza e o cinturão de peso morto sem cair do salto. A torcida delira com os anúncios dos patrocinadores, Esperança sapateia sobre os cadáveres das oponentes e assovia chupando manga e fumando cigarro sem filtro. Os jurados resolvem decidir no palitinho. Esperança roda a Bolsa de Valores debaixo do poste. A platéia aplaude a placa de aplauso, emocionada com o espetáculo — e com dois meses de atraso lá vem o envelope lacrado com o resultado e a conta de luz, senhoras e senhores: a grande vencedora você fica sabendo depois dos comerciais.
terça-feira, 14 de abril de 2009
segunda-feira, 13 de abril de 2009
domingo, 12 de abril de 2009
urca

---------------------------------------------------------------------------
CARTÃO-POSTAL :
Caríssimos(as),
até aqui tudo bem, tratei logo de arrumar moradia, alugando uma espaçosa e confortável caixa de papelão num bairro muito bem localizado. A vizinhança é agradável e educada, além de ser adubada pelo menos doze vezes ao dia, para que os belos canteiros e jardins das praças possam florescer assim tão vistosos. Há também fartura de bitucas, das mais finas marcas nacionais e importadas, disponíveis a qualquer hora, ao alcance das mãos. Ah, ia me esquecendo: a caixa que me aquece na verdade era de refrigerador. Irônico, não?
CARTÃO-POSTAL :
Caríssimos(as),
até aqui tudo bem, tratei logo de arrumar moradia, alugando uma espaçosa e confortável caixa de papelão num bairro muito bem localizado. A vizinhança é agradável e educada, além de ser adubada pelo menos doze vezes ao dia, para que os belos canteiros e jardins das praças possam florescer assim tão vistosos. Há também fartura de bitucas, das mais finas marcas nacionais e importadas, disponíveis a qualquer hora, ao alcance das mãos. Ah, ia me esquecendo: a caixa que me aquece na verdade era de refrigerador. Irônico, não?
terça-feira, 7 de abril de 2009
6.
...Atchô! Hoje o meu nariz está disfarçado de torneira, gotejando e fungando a cada fôlego. Fuón! Devo estar enriquecendo as fábricas de lenços do país, não há dúvida: talvez seja uma boa hora para investir no mercado de ações.
...Pensando bem, é melhor ter cautela. Nada de riscos desmedidos, a advertência era claríssima — se ao menos não fosse aquele gato maldito brincando com a minha alergia... o que alguém pode ver num bicho desses?
...Vamos, gracinha. Mas que obra magnífica! Muito bem, a dieta deve estar funcionando, vou recomendar os serviços da nutricionista. Eu sei que você acha que caviar é uma ova, não se compara ao filé mignon, mas é para o seu próprio bem, meu amor. Agora vamos recolher esta belezura, para não poluir ainda mais a cidade, como estes indigentes sem-vergonha por aí.
...Hoje em dia não há mais sossego na vizinhança, graças a esse bando de desocupados imundos e mal-educados, usufruindo de graça das fontes e bancos de praça que pagamos com os nossos impostos. Já não se pode nem mesmo passear com o cachorro sem quase tropeçar num deles na primeira esquina. Aonde estão a polícia, a prefeitura, o presidente, as organizações não-governamentais? Os cidadãos de bem estão ficando acuados; a minha pobre cadelinha já andava com prisão de ventre, constipada, coitada.
...E eu aqui assoando o nariz em fá maior até agora — afinadíssima, por sinal —, alérgica à atual conjuntura, engulo logo uma cartela de comprimidos para ver se passa. O poodle apressa o passo, fantasiado de cão-guia, desviando dos obstáculos — as árvores e os mendigos, árvores e mendigos, mendigos e árvores. Decido voltar pela praia, o calçadão contorcendo-se sob os meus pés, os coqueiros dançando hula-hula e uivando para a lua, os banhistas de escafandro à prova de balas. É sem dúvida o quarteirão mais longo e peculiar que já percorri em todos esses anos — para piorar a situação, começa a chuviscar e esqueci a sombrinha.
...Cérbero abana os três rabos. Chegamos, sãs e salvas, eu e a cachorrinha: sem pestanejar, o porteiro abre prontamente os portões do prédio, deseja boa noite, se oferece para carregar as sacolas e chama o elevador da cobertura.
...Pensando bem, é melhor ter cautela. Nada de riscos desmedidos, a advertência era claríssima — se ao menos não fosse aquele gato maldito brincando com a minha alergia... o que alguém pode ver num bicho desses?
...Vamos, gracinha. Mas que obra magnífica! Muito bem, a dieta deve estar funcionando, vou recomendar os serviços da nutricionista. Eu sei que você acha que caviar é uma ova, não se compara ao filé mignon, mas é para o seu próprio bem, meu amor. Agora vamos recolher esta belezura, para não poluir ainda mais a cidade, como estes indigentes sem-vergonha por aí.
...Hoje em dia não há mais sossego na vizinhança, graças a esse bando de desocupados imundos e mal-educados, usufruindo de graça das fontes e bancos de praça que pagamos com os nossos impostos. Já não se pode nem mesmo passear com o cachorro sem quase tropeçar num deles na primeira esquina. Aonde estão a polícia, a prefeitura, o presidente, as organizações não-governamentais? Os cidadãos de bem estão ficando acuados; a minha pobre cadelinha já andava com prisão de ventre, constipada, coitada.
...E eu aqui assoando o nariz em fá maior até agora — afinadíssima, por sinal —, alérgica à atual conjuntura, engulo logo uma cartela de comprimidos para ver se passa. O poodle apressa o passo, fantasiado de cão-guia, desviando dos obstáculos — as árvores e os mendigos, árvores e mendigos, mendigos e árvores. Decido voltar pela praia, o calçadão contorcendo-se sob os meus pés, os coqueiros dançando hula-hula e uivando para a lua, os banhistas de escafandro à prova de balas. É sem dúvida o quarteirão mais longo e peculiar que já percorri em todos esses anos — para piorar a situação, começa a chuviscar e esqueci a sombrinha.
...Cérbero abana os três rabos. Chegamos, sãs e salvas, eu e a cachorrinha: sem pestanejar, o porteiro abre prontamente os portões do prédio, deseja boa noite, se oferece para carregar as sacolas e chama o elevador da cobertura.
domingo, 5 de abril de 2009
quinta-feira, 2 de abril de 2009
8.
...Dariz endubido é voda. Quando chove é que o bicho pega quem corre e molha o cavalinho de quem fica marcando bobeira: eu que o diga, ensopado até os ossos moles e roídos, debaixo dos pés de guarda-chuva fora de época — torcendo para os raios caírem lá longe, que nunca fui vacinado e vai que a corrente elétrica, na falta de fusível, queima o meu único parafuso solto e ainda por cima sem porca nem cofrinho, que à essa altura já deve estar saindo da fábrica de salsichas siamesas e virando cachorro-quente na chapa de qualquer carrocinha.
...Pior que não se fazem mais xaropes para resfriado como antigamente, as vovós estão ficando ultrapassadas, obsoletas desde o advento do transplante de soluço e dos conselhos instantâneos de microondas — mas, de qualquer forma, ainda tossem e torcem o bigode entre um suéter tricotado e outro. Já eu, sem suéter nem xarope nem conselho nem soluço, aproveitei o vento poluído noroeste e a enxurrada das poças na rua para velejar o meu barquinho de papelão e ver se pescava algum par de botas em bom estado em qualquer boca-de-lobo-do-mar banguela.
...Infelizmente a empreitada terminou de forma trágica, ao passar a minha baleia nêmesis branca, fantasiada de transporte coletivo — de barriga cheia e levantando uma tremenda onda tsunami sem precedentes que virou o barco e me pôs de ponta-cabeça, tal qual os pedestres, que à esta altura já eram mergulhadores, atropelados pelos automóveis, que por sua vez eram submarinos amarelos: justo eu que nunca soube nadar e de salva-vidas mal salvo a minha própria.
...Os ratos, ingratos, foram os primeiros a abandonar o navio. Fui atrás como quem não quer nada, náufrago, perdido numa ilha deserta mais perdida ainda, no meio do nada mais cheio de que se tem notícia, contemplando a baía lá do topo do cartão-postal: enquanto deixava crescer a barba, descobri a rota de fuga pelo teleférico panorâmico que me trouxe de carona, dependurado de volta ao lar, doce lar, no quarto banco da praça, entre os pombos e as baratas, queimando de febre e tremendo de frio, sem canja de galinha nem termômetro debaixo do braço ou em qualquer outra cavidade ou orifício propriamente dito: a boca por exemplo, que no máximo segura o fantasma de um cigarro que me aquece o nariz e suas respectivas narinas, mais congestionadas que o trânsito à esta hora do progresso da civilização.
...Pior que não se fazem mais xaropes para resfriado como antigamente, as vovós estão ficando ultrapassadas, obsoletas desde o advento do transplante de soluço e dos conselhos instantâneos de microondas — mas, de qualquer forma, ainda tossem e torcem o bigode entre um suéter tricotado e outro. Já eu, sem suéter nem xarope nem conselho nem soluço, aproveitei o vento poluído noroeste e a enxurrada das poças na rua para velejar o meu barquinho de papelão e ver se pescava algum par de botas em bom estado em qualquer boca-de-lobo-do-mar banguela.
...Infelizmente a empreitada terminou de forma trágica, ao passar a minha baleia nêmesis branca, fantasiada de transporte coletivo — de barriga cheia e levantando uma tremenda onda tsunami sem precedentes que virou o barco e me pôs de ponta-cabeça, tal qual os pedestres, que à esta altura já eram mergulhadores, atropelados pelos automóveis, que por sua vez eram submarinos amarelos: justo eu que nunca soube nadar e de salva-vidas mal salvo a minha própria.
...Os ratos, ingratos, foram os primeiros a abandonar o navio. Fui atrás como quem não quer nada, náufrago, perdido numa ilha deserta mais perdida ainda, no meio do nada mais cheio de que se tem notícia, contemplando a baía lá do topo do cartão-postal: enquanto deixava crescer a barba, descobri a rota de fuga pelo teleférico panorâmico que me trouxe de carona, dependurado de volta ao lar, doce lar, no quarto banco da praça, entre os pombos e as baratas, queimando de febre e tremendo de frio, sem canja de galinha nem termômetro debaixo do braço ou em qualquer outra cavidade ou orifício propriamente dito: a boca por exemplo, que no máximo segura o fantasma de um cigarro que me aquece o nariz e suas respectivas narinas, mais congestionadas que o trânsito à esta hora do progresso da civilização.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Assinar:
Postagens (Atom)










