(...) No conhecido jornal de Paris, Le Monde, edição de 28 de dezembro de 1948, um frade dominicado, Père Dubarle, escreveu uma resenha (...) que confirma algumas das terríveis implicações da máquina de jogar xadrez crescida e enfiada dentro de uma armadura.
(...) Não será possível conceber um aparelho estatal que abranja todos os sistemas de decisão política, quer sob um regime de muitos Estados distribuídos pela face da Terra, quer sobre o regime aparentemente muito mais simples de um governo humano deste planeta? Atualmente, nada nos impede de pensar nisso. Podemos sonhar com a época em que a machine à gouverner venha suprir - para o bem ou para o mal - a atual e óbvia insuficiência do cérebro, quando este se ocupa com a costumeira maquinaria política.
(...) Tanto quanto se possa avaliar, apenas duas condições podem garantir estabilização no sentido matemático do termo. São elas, de um lado, uma ignorância suficiente por parte do grande número de jogadores explorados por um jogador hábil, que pode, ademais, idear um método de paralisar a consciência das massas; ou, de outro lado, boa vontade bastante para permitir que cada qual, por amor à estabilidade do jogo, submeta suas decisões a um ou a alguns jogadores que tenham privilégios arbitrários. (...)
A machine à gouverner (...) é por demais grosseira e imperfeita para exibir um milésimo do comportamento intencional e independente do ser humano. Seu verdadeiro perigo, contudo, é muito diverso - é o de tais máquinas, embora inermes por si mesmas, poderem ser usadas por um ser humano ou por um grupo de seres humanos para aumentar seu domínio sobre o restante da raça humana; ou o de líderes políticos poderem tentar dominar suas populações por meio não das próprias máquinas, mas através de técnicas políticas tão exíguas e indiferentes à possibilidade humana quanto se tivessem sido, de fato, concebidas mecanicamente. A grande fraqueza da máquina - fraqueza que nos salvou até aqui de sermos dominados por ela - é a de que ela não pode ainda levar em consideração a vasta faixa de probabilidades que caracteriza a situação humana. A dominação da máquina pressupõe uma sociedade nos últimos estágios de entropia crescente, em que a probabilidade é insignificante e as diferenças estatísticas entre os indivíduos nulas. Felizmente, ainda não alcançamos esse estado. (...)
Eu disse que o homem moderno, e especialmente o norte-americano moderno, por mais know-how que possa ter, tem muito pouco know-what. Aceitará a superior perícia das decisões feitas pela máquina sem indagar muito dos motivos e princípios que as fundamentam. (...) O que seja usado como peça de uma máquina, é, de fato, uma peça dessa máquina. Quer confiemos nossas decisões a máquinas de metal ou a essas máquinas de sangue e carne, que são as repartições oficiais, os vastos laboratórios, os exércitos e as companhias comerciais e industriais, jamais receberemos respostas certas às nossas perguntas se não fizermos perguntas certas.
Norbert Wiener, CIBERNÉTICA E SOCIEDADE: O Uso Humano de Seres Humanos (1954)
Capítulo X: Algumas Máquinas de Comunicação e Seu Futuro / Tradução: José Paulo Paes
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APÊNDICE I
Louis Armstrong - It's All In The Game (1951)
Nat King Cole - It's All In The Game (1956)
2 comentários:
its all in your mind
its all in the air
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