domingo, 30 de agosto de 2009

terça-feira, 25 de agosto de 2009

sábado, 22 de agosto de 2009

jornal


matéria que saiu no correio braziliense de ontem:

Com projetos engatilhados e muitos em fase de finalização, quadrinistas da cidade começam a ter reconhecimento

» PEDRO BRANDT

--A produção nacional de história em quadrinhos autorais vai bem, obrigado. Muitos podem dizer que a situação de hoje em dia não se compara com a vivida em outras décadas — quando mais autores publicavam gibis para muito mais leitores. Mas é perceptível uma considerável retomada de fôlego de uns anos para cá. Em Brasília, a produção de HQs é sazonal, mas tem se mostrado contínua e rendido não só títulos surpreendentes, mas, principalmente, revelado grandes talentos.
--Muitos deles já estão com os novos trabalhos prontos ou em estágio avançado de finalização. O desenhista Gabriel Góes é talvez o nome mais conhecido dos quadrinhos brasilienses fora da cidade. Com o roteirista carioca Arnaldo Branco (criador do impagável Capitão Presença), Góes ilustrou a adaptação de O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues, publicada em 2007. “Já estamos negociando com a editora Nova Fronteira uma outra adaptação de um livro do escritor”, conta o desenhista — que prefere manter mistério sobre qual obra será levada para as HQs desta vez.
--Mas Gabriel já adianta os próximos planos da Samba, revista lançada em parceria com os quadrinistas Lucas Gehre e Gabriel Mesquita, em novembro passado, e que alcançou boa repercussão nacional. “A Samba número 1 era mais uma vitrine do nosso trabalho. Agora o conceito está mais amarrado. A ideia é fazer dela um selo. Os primeiros gibis serão o Kowalski,
meu, e mais três do Lucas, batizados de Amarelo, Laranja e Vermelho”. Nas palavras de Gabriel, Kowalski aborda assuntos pertinentes, contemporâneos, como drogas, dançarinas exóticas e suicídios. “Ah, e tem ainda uma fotonovela no meio”, emenda.
--Este mês, Felipe Sobreiro teve uma de suas histórias selecionadas pelo site Zudacomics, da editora americana DC Comics (casa de Batman, Superman, Mulher-Maravilha…). “Eu e meu pai continuamos fazendo propostas pra Heavy Metal. Mês que vem ou outubro vai sair uma historia desenhada por ele e colorida por mim, já aprovada por eles”. Nestablo Ramos Neto tem dois álbuns prontos desde o ano passado esperando para serem publicados pela editora HQM. “Com a crise, eles tiveram que dar uma segurada em todos os lançamentos. Agora as coisas estão voltando a andar e eles já estão reagendando tudo. Creio que para este semestre tá saindo”, comemora.
--Revelados pela surpreendente revista Bongolê Bangoró [sic], Gomez e Stevz também estão com novidades. Enquanto o primeiro produz sua própria revista, a Pimba! (prevista para 2010), o segundo prepara para este semestre a Beleléu, parceria com três quadrinistas cariocas. O ilustrador Kleber Sales procura interessados em publicar na íntegra sua adaptação para Os miseráveis, de Victor Hugo. O primeiro episódio acabou de sair na revista coletiva Ragu. Designer brasiliense radicado em São Paulo, Mário César lançou em julho, pelo coletivo Quarto Mundo, sua Entre quadros, a estreia individual.
--Autor dos livros Esfolando ouvidos e Grosseria refinada e vocalista da banda de hardcore Quebraqueixo, Evandro Vieira convidou desenhistas da cidade para ilustrar HQs inspiradas nas letras de suas músicas. O resultado será apresentado aos leitores em 2010. “Como já temos um bom material, eu e o baixista da banda vamos reunir essas histórias e bancar uma revista de 16 ou 20 páginas para levar para o Festival Internacional de Quadrinhos, o FIQ”, conta. O evento será realizado em outubro, em Belo Horizonte. “Os independentes têm dado visibilidade aos quadrinhos. Vi isso acontecer com vários artistas franceses, nos anos 1980 e 1990. Começaram no underground e hoje são nomes superconhecidos”, contextualiza Roberto Ribeiro, um dos curadores do FIQ.
--Tanto a Samba, quando o calendário Pendura [sic] (com desenhos de 12 ilustradores da cidade) concorreram ao prêmio HQ Mix, o principal dos quadrinhos no Brasil (e cuja cerimônia de entrega é hoje, na capital paulista). Nenhuma das produções candangas conseguiu o troféu, mas isso não significa desânimo. “Os interesses estão voltados para as HQs alternativas, independentes. Daqui pra frente, com os nossos próximos lançamentos, acho que vai ser mais legal. As pessoas vão ver que estamos continuando”, reflete Gabriel Góes. Em um cenário ainda incipiente, paciência e perseverança são virtudes essenciais.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

20ago09-quinta

os vizinhos se encontram no elevador
apresentam-se
dão bom dia uns aos outros
apertam o botão do seu andar
evitam cruzar o olhar
e depois batem na porta da gente reclamando da infiltração no banheiro que acontece de cair bem em cima dos vasos de plantas
que, regadas todos os dias, estão mais vivas e fortes do que nunca

o cacto
no meio da sala de jantar
espinhudo
espinhento
seco seco
desértico
lembra a gente que a água é o menor dos nossos problemas

o chinelo é o biquini do pé

o mar é o correio dos náufragos

a importante das palavras ordem é

a fumaça é o fantasma do cigarro

o relâmpago é a idéia da nuvem

o acento é a lâmpada da idéia

a música é a pausa do silêncio

o guarda-chuva é a bengala de vestido

era um proctologista cheio de dedos

a dentadura sorria no copo

a solidão é sempre maior que a encomenda

a morte, coitada,
não é malvada não
é funcionária pública burocrata
que tem de fazer relatório e bater o cartão
no final do expediente
e quando está de férias ou no cafezinho
também dá uma folga pra gente

gato e sapato sem prato nem rato

os vizinhos moram dentro da janela

a buzina buzina

bibi
fonfón
bebé

pulou do prédio

stravinsky

a 500 pés lembrou do pára-quedas

terça-feira, 18 de agosto de 2009

quarta-feira, 22 de julho de 2009

+soma

tem quadrinho meu na revista +soma 12.

e ainda: entrevista com andré dahmer, e hqs de gabriel renner, alex vieira e chico félix — além de muito mais coisa boa.

baixe a revista na íntegra AQUI

quinta-feira, 25 de junho de 2009

what the?


exercício de montagem que consistia em fazer um curta de 3 minutos com trechos de 9 filmes diferentes

sábado, 20 de junho de 2009

pick-pocket


cara-o-quê?

...As letrinhas na tela passam mais depressa do que eu esperava, mas não importa, sei os versos de cor, só não entendo o que diabos a foto dos alpes suíços faz lá no fundo, seguida pelas bahamas e dançarinas de hula-hula, como num álbum de fotografias de viagens internacionais que nunca farei. Dane-se, fecho os olhos e solto a voz, que só aparece nessa hora, reverberando pelas paredes pelas mesas e até na calçada lá fora, na canção mais velha do que eu, do que todos nós, cortando o ar incoerente dessa noite.
...As mulheres gritam, garrafas se quebram, mesas tombam, eu devo estar sendo mesmo um sucesso com esse microfone e o copo na mão, o colarinho aberto, e tão embriagado de sucesso que mal percebo a briga que já toma conta de metade do salão. Dois panacas bêbados se socam desajeitadamente, um cantou desafinado a mulher do outro, o público gira ao redor, esquivando-se, apostando, torcendo, vaiando, todos dançam conforme a dança e a canção que eu canto, e não paro, só paro quando ela acabar, paguei a ficha e é esse o meu direito. Um deles levanta uma cadeira, é o auge da batalha, justamente no refrão, me empenho nos agudos, lá vem, os garçons tentam apartar os combatentes dançarinos, seguro a nota lá no alto, chega a polícia, a sirene em contraponto, a música quase no fim, canto o último verso já algemado junto aos outros, aplaudido de pé pelo delegado que aproveita a confusão para fugir sem pagar a conta.

terça-feira, 19 de maio de 2009

sexta-feira, 8 de maio de 2009

cotidianus domesticus

Acordo com o canto das buzinas de automóvel, alimento as plantas, rego o gato e troco a areia do peixe. Meu ecossistema funciona como um relógio suíço, eliminadas as partes sobressalentes e dando-se corda ao contrário, naturalmente. Passo o café e as cuecas, penduro a conta no varal e preparo a minha própria comida, algo digno de estudos por parte da NASA e que qualquer dia ainda vai dar na pedra filosofal ou num cálculo renal de brinde. Arredonda-se para baixo, noves fora o cafezinho, e vamos do topo da cadeia alimentar para o trono de direito, que tudo o que sobe desce, o que entra sai, e é pela obra que se conhece o autor. Cantamos parabéns ontem — eu, o gato, o peixe e as plantas — para o frango no congelador, que está fazendo aniversário, e apesar de não botar ovos de ouro pelo menos não incomoda ninguém. À esta altura já deve pensar que é mesmo um pingüim de geladeira.

domingo, 3 de maio de 2009

retorno

...Apertando o passo para não passar aperto, cruzo a avenida agora vazia, cortando caminho por ruelas e becos imaginários, onde os assaltantes nos dão presentes de aniversário e os postes cospem notas de cem. Corro para alcançar o ônibus errado, que para a um quilômetro do ponto vazio. O motorista é dublê de cobrador, ou vice-versa, vai saber: manobrando com uma mão só, tira do bolso o troco exato, em moedas de cinco centavos, para a garoupa graúda em extinção — genial, além de tudo ainda são gênios da matemática.
...Sento-me ao fundo, único passageiro e testemunha do chofer solitário, que me conduz quase tão suavemente quanto uma britadeira pelas ruas desertas. O maldito corre como um louco, minha bexiga se contrai ainda mais, na esperança de esvaziar-se logo. O ônibus pula a cada irregularidade da pista, eu quicando no último banco como uma bola de tênis hiperativa num trampolim no meio de um terremoto japonês, cada vez mais alto. Me seguro como posso, com as mãos os pés e os dentes, tentando antecipar os saltos, mantendo os joelhos flexionados para não cair da sela do touro mecânico indomável.
...Me penduro na cordinha, o piloto passa do ponto mais uma vez. Grito para chamar-lhe a atenção: aí sim, freia tão brusca e subitamente, que atravesso voando o corredor, numa trajetória perfeita que cruza a roleta e termina no pára-brisa, esborrachado tal qual um inseto. Ding! Supa-Dupa-Mega-Combo, mil pontos para mim, a bola do pinball.
...Amaldiçôo o motorista e trato de dar o fora dali, atrás da primeira árvore que vir pela frente. Alivio-me enfim, regando as raízes de um poste qualquer. Vou-me embora assoviando, as mãos nos bolsos, e merda! perdi o telefone dela.

love scene

sexta-feira, 1 de maio de 2009

mudos imóveis

Mudou-se, foi dividir um apartamento com ela. Ficavam assim: ele com o quarto e o banheiro, ela com a sala, entretendo as visitas. Mas o relacionamento foi se complicando, problemas de comunicação. Ela não calava nunca a boca, além de não saber ouvir. Ele mal começava a contar sobre o seu dia, ela despejava o preço do dólar, a alta na cotação do petróleo, o pênalti roubado, o escândalo do senado, a receita de pato assado e o adultério da zona sul. Ele começou a chegar tarde, quando chegava. Quase não se viam, embora ainda lembrasse dela com certa melancolia nos botecos e nas salas de espera, às vezes nas lojas de eletrodomésticos. Numa dessas, conheceu a outra: trocou a televisão por uma geladeira, quinze prestações mais nova.

cartão-postal