terça-feira, 19 de maio de 2009
quinta-feira, 14 de maio de 2009
sábado, 9 de maio de 2009
sexta-feira, 8 de maio de 2009
cotidianus domesticus
Acordo com o canto das buzinas de automóvel, alimento as plantas, rego o gato e troco a areia do peixe. Meu ecossistema funciona como um relógio suíço, eliminadas as partes sobressalentes e dando-se corda ao contrário, naturalmente. Passo o café e as cuecas, penduro a conta no varal e preparo a minha própria comida, algo digno de estudos por parte da NASA e que qualquer dia ainda vai dar na pedra filosofal ou num cálculo renal de brinde. Arredonda-se para baixo, noves fora o cafezinho, e vamos do topo da cadeia alimentar para o trono de direito, que tudo o que sobe desce, o que entra sai, e é pela obra que se conhece o autor. Cantamos parabéns ontem — eu, o gato, o peixe e as plantas — para o frango no congelador, que está fazendo aniversário, e apesar de não botar ovos de ouro pelo menos não incomoda ninguém. À esta altura já deve pensar que é mesmo um pingüim de geladeira.
domingo, 3 de maio de 2009
retorno
...Apertando o passo para não passar aperto, cruzo a avenida agora vazia, cortando caminho por ruelas e becos imaginários, onde os assaltantes nos dão presentes de aniversário e os postes cospem notas de cem. Corro para alcançar o ônibus errado, que para a um quilômetro do ponto vazio. O motorista é dublê de cobrador, ou vice-versa, vai saber: manobrando com uma mão só, tira do bolso o troco exato, em moedas de cinco centavos, para a garoupa graúda em extinção — genial, além de tudo ainda são gênios da matemática.
...Sento-me ao fundo, único passageiro e testemunha do chofer solitário, que me conduz quase tão suavemente quanto uma britadeira pelas ruas desertas. O maldito corre como um louco, minha bexiga se contrai ainda mais, na esperança de esvaziar-se logo. O ônibus pula a cada irregularidade da pista, eu quicando no último banco como uma bola de tênis hiperativa num trampolim no meio de um terremoto japonês, cada vez mais alto. Me seguro como posso, com as mãos os pés e os dentes, tentando antecipar os saltos, mantendo os joelhos flexionados para não cair da sela do touro mecânico indomável.
...Me penduro na cordinha, o piloto passa do ponto mais uma vez. Grito para chamar-lhe a atenção: aí sim, freia tão brusca e subitamente, que atravesso voando o corredor, numa trajetória perfeita que cruza a roleta e termina no pára-brisa, esborrachado tal qual um inseto. Ding! Supa-Dupa-Mega-Combo, mil pontos para mim, a bola do pinball.
...Amaldiçôo o motorista e trato de dar o fora dali, atrás da primeira árvore que vir pela frente. Alivio-me enfim, regando as raízes de um poste qualquer. Vou-me embora assoviando, as mãos nos bolsos, e merda! perdi o telefone dela.
...Sento-me ao fundo, único passageiro e testemunha do chofer solitário, que me conduz quase tão suavemente quanto uma britadeira pelas ruas desertas. O maldito corre como um louco, minha bexiga se contrai ainda mais, na esperança de esvaziar-se logo. O ônibus pula a cada irregularidade da pista, eu quicando no último banco como uma bola de tênis hiperativa num trampolim no meio de um terremoto japonês, cada vez mais alto. Me seguro como posso, com as mãos os pés e os dentes, tentando antecipar os saltos, mantendo os joelhos flexionados para não cair da sela do touro mecânico indomável.
...Me penduro na cordinha, o piloto passa do ponto mais uma vez. Grito para chamar-lhe a atenção: aí sim, freia tão brusca e subitamente, que atravesso voando o corredor, numa trajetória perfeita que cruza a roleta e termina no pára-brisa, esborrachado tal qual um inseto. Ding! Supa-Dupa-Mega-Combo, mil pontos para mim, a bola do pinball.
...Amaldiçôo o motorista e trato de dar o fora dali, atrás da primeira árvore que vir pela frente. Alivio-me enfim, regando as raízes de um poste qualquer. Vou-me embora assoviando, as mãos nos bolsos, e merda! perdi o telefone dela.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
mudos imóveis
Mudou-se, foi dividir um apartamento com ela. Ficavam assim: ele com o quarto e o banheiro, ela com a sala, entretendo as visitas. Mas o relacionamento foi se complicando, problemas de comunicação. Ela não calava nunca a boca, além de não saber ouvir. Ele mal começava a contar sobre o seu dia, ela despejava o preço do dólar, a alta na cotação do petróleo, o pênalti roubado, o escândalo do senado, a receita de pato assado e o adultério da zona sul. Ele começou a chegar tarde, quando chegava. Quase não se viam, embora ainda lembrasse dela com certa melancolia nos botecos e nas salas de espera, às vezes nas lojas de eletrodomésticos. Numa dessas, conheceu a outra: trocou a televisão por uma geladeira, quinze prestações mais nova.
domingo, 19 de abril de 2009
beleza pouca é bobagem
...Voltamos ao vivo do planeta Terra, onde dentro de instantes iremos conhecer a próxima Miss Ser Humano deste século. Mas antes, a última candidata finalista: Esperança no palco e na passarela, pesando noventa toneladas — e mesmo assim mais leve que uma pluma —, medindo 15 centímetros de altura, 184 de busto, 32 de cintura, um quilômetro de quadril e meio metro de sorriso, ela é só simpatia e carisma. Formada em Educação Física Quântica pela Universidade do Sri Lanka, seus hobbies são derreter calotas polares e comer casquinhas de siri. Pretende descobrir a cura do câncer de dedão e o sentido da vida, assim que os porcos criarem asas na Malásia. Preenche um biquíni como ninguém e sabe a tabuada e a raiz quadrada da dívida externa de cor e salteado. Mantém o senso de humor bronzeado e radiante como uma bomba atômica de domingo e não está para brincadeira, decidida a vencer custe o que custar, ainda mais de barba feita.
...Os jurados consultam os astros pelo telescópio, a audiência pelos binóculos e a consciência no microscópio eletrônico de varredura. Os apostadores, à postos na platéia, apostam alto: o páreo é duro, apesar de Esperança ter matado todas as outras concorrentes. A campeã do mês passado já removeu cirurgicamente a coroa de espinhos, conformada, se prepara para passar a faixa de Gaza e o cinturão de peso morto sem cair do salto. A torcida delira com os anúncios dos patrocinadores, Esperança sapateia sobre os cadáveres das oponentes e assovia chupando manga e fumando cigarro sem filtro. Os jurados resolvem decidir no palitinho. Esperança roda a Bolsa de Valores debaixo do poste. A platéia aplaude a placa de aplauso, emocionada com o espetáculo — e com dois meses de atraso lá vem o envelope lacrado com o resultado e a conta de luz, senhoras e senhores: a grande vencedora você fica sabendo depois dos comerciais.
...Os jurados consultam os astros pelo telescópio, a audiência pelos binóculos e a consciência no microscópio eletrônico de varredura. Os apostadores, à postos na platéia, apostam alto: o páreo é duro, apesar de Esperança ter matado todas as outras concorrentes. A campeã do mês passado já removeu cirurgicamente a coroa de espinhos, conformada, se prepara para passar a faixa de Gaza e o cinturão de peso morto sem cair do salto. A torcida delira com os anúncios dos patrocinadores, Esperança sapateia sobre os cadáveres das oponentes e assovia chupando manga e fumando cigarro sem filtro. Os jurados resolvem decidir no palitinho. Esperança roda a Bolsa de Valores debaixo do poste. A platéia aplaude a placa de aplauso, emocionada com o espetáculo — e com dois meses de atraso lá vem o envelope lacrado com o resultado e a conta de luz, senhoras e senhores: a grande vencedora você fica sabendo depois dos comerciais.
terça-feira, 14 de abril de 2009
segunda-feira, 13 de abril de 2009
domingo, 12 de abril de 2009
urca

---------------------------------------------------------------------------
CARTÃO-POSTAL :
Caríssimos(as),
até aqui tudo bem, tratei logo de arrumar moradia, alugando uma espaçosa e confortável caixa de papelão num bairro muito bem localizado. A vizinhança é agradável e educada, além de ser adubada pelo menos doze vezes ao dia, para que os belos canteiros e jardins das praças possam florescer assim tão vistosos. Há também fartura de bitucas, das mais finas marcas nacionais e importadas, disponíveis a qualquer hora, ao alcance das mãos. Ah, ia me esquecendo: a caixa que me aquece na verdade era de refrigerador. Irônico, não?
CARTÃO-POSTAL :
Caríssimos(as),
até aqui tudo bem, tratei logo de arrumar moradia, alugando uma espaçosa e confortável caixa de papelão num bairro muito bem localizado. A vizinhança é agradável e educada, além de ser adubada pelo menos doze vezes ao dia, para que os belos canteiros e jardins das praças possam florescer assim tão vistosos. Há também fartura de bitucas, das mais finas marcas nacionais e importadas, disponíveis a qualquer hora, ao alcance das mãos. Ah, ia me esquecendo: a caixa que me aquece na verdade era de refrigerador. Irônico, não?
terça-feira, 7 de abril de 2009
6.
...Atchô! Hoje o meu nariz está disfarçado de torneira, gotejando e fungando a cada fôlego. Fuón! Devo estar enriquecendo as fábricas de lenços do país, não há dúvida: talvez seja uma boa hora para investir no mercado de ações.
...Pensando bem, é melhor ter cautela. Nada de riscos desmedidos, a advertência era claríssima — se ao menos não fosse aquele gato maldito brincando com a minha alergia... o que alguém pode ver num bicho desses?
...Vamos, gracinha. Mas que obra magnífica! Muito bem, a dieta deve estar funcionando, vou recomendar os serviços da nutricionista. Eu sei que você acha que caviar é uma ova, não se compara ao filé mignon, mas é para o seu próprio bem, meu amor. Agora vamos recolher esta belezura, para não poluir ainda mais a cidade, como estes indigentes sem-vergonha por aí.
...Hoje em dia não há mais sossego na vizinhança, graças a esse bando de desocupados imundos e mal-educados, usufruindo de graça das fontes e bancos de praça que pagamos com os nossos impostos. Já não se pode nem mesmo passear com o cachorro sem quase tropeçar num deles na primeira esquina. Aonde estão a polícia, a prefeitura, o presidente, as organizações não-governamentais? Os cidadãos de bem estão ficando acuados; a minha pobre cadelinha já andava com prisão de ventre, constipada, coitada.
...E eu aqui assoando o nariz em fá maior até agora — afinadíssima, por sinal —, alérgica à atual conjuntura, engulo logo uma cartela de comprimidos para ver se passa. O poodle apressa o passo, fantasiado de cão-guia, desviando dos obstáculos — as árvores e os mendigos, árvores e mendigos, mendigos e árvores. Decido voltar pela praia, o calçadão contorcendo-se sob os meus pés, os coqueiros dançando hula-hula e uivando para a lua, os banhistas de escafandro à prova de balas. É sem dúvida o quarteirão mais longo e peculiar que já percorri em todos esses anos — para piorar a situação, começa a chuviscar e esqueci a sombrinha.
...Cérbero abana os três rabos. Chegamos, sãs e salvas, eu e a cachorrinha: sem pestanejar, o porteiro abre prontamente os portões do prédio, deseja boa noite, se oferece para carregar as sacolas e chama o elevador da cobertura.
...Pensando bem, é melhor ter cautela. Nada de riscos desmedidos, a advertência era claríssima — se ao menos não fosse aquele gato maldito brincando com a minha alergia... o que alguém pode ver num bicho desses?
...Vamos, gracinha. Mas que obra magnífica! Muito bem, a dieta deve estar funcionando, vou recomendar os serviços da nutricionista. Eu sei que você acha que caviar é uma ova, não se compara ao filé mignon, mas é para o seu próprio bem, meu amor. Agora vamos recolher esta belezura, para não poluir ainda mais a cidade, como estes indigentes sem-vergonha por aí.
...Hoje em dia não há mais sossego na vizinhança, graças a esse bando de desocupados imundos e mal-educados, usufruindo de graça das fontes e bancos de praça que pagamos com os nossos impostos. Já não se pode nem mesmo passear com o cachorro sem quase tropeçar num deles na primeira esquina. Aonde estão a polícia, a prefeitura, o presidente, as organizações não-governamentais? Os cidadãos de bem estão ficando acuados; a minha pobre cadelinha já andava com prisão de ventre, constipada, coitada.
...E eu aqui assoando o nariz em fá maior até agora — afinadíssima, por sinal —, alérgica à atual conjuntura, engulo logo uma cartela de comprimidos para ver se passa. O poodle apressa o passo, fantasiado de cão-guia, desviando dos obstáculos — as árvores e os mendigos, árvores e mendigos, mendigos e árvores. Decido voltar pela praia, o calçadão contorcendo-se sob os meus pés, os coqueiros dançando hula-hula e uivando para a lua, os banhistas de escafandro à prova de balas. É sem dúvida o quarteirão mais longo e peculiar que já percorri em todos esses anos — para piorar a situação, começa a chuviscar e esqueci a sombrinha.
...Cérbero abana os três rabos. Chegamos, sãs e salvas, eu e a cachorrinha: sem pestanejar, o porteiro abre prontamente os portões do prédio, deseja boa noite, se oferece para carregar as sacolas e chama o elevador da cobertura.
domingo, 5 de abril de 2009
quinta-feira, 2 de abril de 2009
8.
...Dariz endubido é voda. Quando chove é que o bicho pega quem corre e molha o cavalinho de quem fica marcando bobeira: eu que o diga, ensopado até os ossos moles e roídos, debaixo dos pés de guarda-chuva fora de época — torcendo para os raios caírem lá longe, que nunca fui vacinado e vai que a corrente elétrica, na falta de fusível, queima o meu único parafuso solto e ainda por cima sem porca nem cofrinho, que à essa altura já deve estar saindo da fábrica de salsichas siamesas e virando cachorro-quente na chapa de qualquer carrocinha.
...Pior que não se fazem mais xaropes para resfriado como antigamente, as vovós estão ficando ultrapassadas, obsoletas desde o advento do transplante de soluço e dos conselhos instantâneos de microondas — mas, de qualquer forma, ainda tossem e torcem o bigode entre um suéter tricotado e outro. Já eu, sem suéter nem xarope nem conselho nem soluço, aproveitei o vento poluído noroeste e a enxurrada das poças na rua para velejar o meu barquinho de papelão e ver se pescava algum par de botas em bom estado em qualquer boca-de-lobo-do-mar banguela.
...Infelizmente a empreitada terminou de forma trágica, ao passar a minha baleia nêmesis branca, fantasiada de transporte coletivo — de barriga cheia e levantando uma tremenda onda tsunami sem precedentes que virou o barco e me pôs de ponta-cabeça, tal qual os pedestres, que à esta altura já eram mergulhadores, atropelados pelos automóveis, que por sua vez eram submarinos amarelos: justo eu que nunca soube nadar e de salva-vidas mal salvo a minha própria.
...Os ratos, ingratos, foram os primeiros a abandonar o navio. Fui atrás como quem não quer nada, náufrago, perdido numa ilha deserta mais perdida ainda, no meio do nada mais cheio de que se tem notícia, contemplando a baía lá do topo do cartão-postal: enquanto deixava crescer a barba, descobri a rota de fuga pelo teleférico panorâmico que me trouxe de carona, dependurado de volta ao lar, doce lar, no quarto banco da praça, entre os pombos e as baratas, queimando de febre e tremendo de frio, sem canja de galinha nem termômetro debaixo do braço ou em qualquer outra cavidade ou orifício propriamente dito: a boca por exemplo, que no máximo segura o fantasma de um cigarro que me aquece o nariz e suas respectivas narinas, mais congestionadas que o trânsito à esta hora do progresso da civilização.
...Pior que não se fazem mais xaropes para resfriado como antigamente, as vovós estão ficando ultrapassadas, obsoletas desde o advento do transplante de soluço e dos conselhos instantâneos de microondas — mas, de qualquer forma, ainda tossem e torcem o bigode entre um suéter tricotado e outro. Já eu, sem suéter nem xarope nem conselho nem soluço, aproveitei o vento poluído noroeste e a enxurrada das poças na rua para velejar o meu barquinho de papelão e ver se pescava algum par de botas em bom estado em qualquer boca-de-lobo-do-mar banguela.
...Infelizmente a empreitada terminou de forma trágica, ao passar a minha baleia nêmesis branca, fantasiada de transporte coletivo — de barriga cheia e levantando uma tremenda onda tsunami sem precedentes que virou o barco e me pôs de ponta-cabeça, tal qual os pedestres, que à esta altura já eram mergulhadores, atropelados pelos automóveis, que por sua vez eram submarinos amarelos: justo eu que nunca soube nadar e de salva-vidas mal salvo a minha própria.
...Os ratos, ingratos, foram os primeiros a abandonar o navio. Fui atrás como quem não quer nada, náufrago, perdido numa ilha deserta mais perdida ainda, no meio do nada mais cheio de que se tem notícia, contemplando a baía lá do topo do cartão-postal: enquanto deixava crescer a barba, descobri a rota de fuga pelo teleférico panorâmico que me trouxe de carona, dependurado de volta ao lar, doce lar, no quarto banco da praça, entre os pombos e as baratas, queimando de febre e tremendo de frio, sem canja de galinha nem termômetro debaixo do braço ou em qualquer outra cavidade ou orifício propriamente dito: a boca por exemplo, que no máximo segura o fantasma de um cigarro que me aquece o nariz e suas respectivas narinas, mais congestionadas que o trânsito à esta hora do progresso da civilização.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
terça-feira, 31 de março de 2009
diegese
...Acordei e ainda estava aqui, disfarçado de mim mesmo — o que é pior — com o espelho e a consciência por testemunhas, os óculos de míope astigmata apoiados no nariz, a barriga com um umbigo no meio. Mas amanhã mesmo acabo com esta farsa: engulo o frasco de vitaminas, arranco este bigode e estes dentes tortos que teimam em falar por mim o tempo inteiro, pelos cotovelos e pelas cáries, fazendo planos de cruzar o canal da mancha e as pontes de safena antes que os ambientalistas operem as cataratas do niágara e não se possa mais pular lá de cima num barril, numa canoa ou num transatlântico com bóia de pato.
...Banguela para que não me reconheçam mais em catástrofe ou multidão nenhuma, seja de chapéu, capa-de-chuva, óculos, bigode ou nariz postiço — o sorriso amarelo na identidade falsa de raio-x — saio de fininho do consultório sem pagar a conta, de broca e espelhinho nas mãos, as revistas de fofoca do século passado debaixo do braço, antes de ser fisgado pelo sugador de baba da assistente do dentista que, à esta altura deve estar soltando gases hilariantes e pedindo educadamente que eu diga trinta e três.
...Instaladas a dentadura e a coragem, compro uma luneta ou binóculos de longo alcance, corro pro ponto do ônibus espacial e me mando daqui para os anéis de saturno, na esquina da via láctea com os frutos do mar — aproveitando que nunca fui alérgico — pra recomeçar do zero à esquerda numa outra encarnação.
...Banguela para que não me reconheçam mais em catástrofe ou multidão nenhuma, seja de chapéu, capa-de-chuva, óculos, bigode ou nariz postiço — o sorriso amarelo na identidade falsa de raio-x — saio de fininho do consultório sem pagar a conta, de broca e espelhinho nas mãos, as revistas de fofoca do século passado debaixo do braço, antes de ser fisgado pelo sugador de baba da assistente do dentista que, à esta altura deve estar soltando gases hilariantes e pedindo educadamente que eu diga trinta e três.
...Instaladas a dentadura e a coragem, compro uma luneta ou binóculos de longo alcance, corro pro ponto do ônibus espacial e me mando daqui para os anéis de saturno, na esquina da via láctea com os frutos do mar — aproveitando que nunca fui alérgico — pra recomeçar do zero à esquerda numa outra encarnação.
segunda-feira, 30 de março de 2009
domingo, 29 de março de 2009
história de pescador pra boi dormir enquanto a vaca tosse
...Ela bota a gota d'água no feijão na panela velha que faz comida boa, passa os legumes da frigideira para o fogo que hoje tem visita das que descascam o abacaxi e torcem o pepino desde pequeno: Boa de garfo, que não dá colher de chá.
..."É melhor pegar logo a faca de dois gumes e depenar a galinha dos ovos de ouro, pra não ficar chorando sobre o leite derramado depois, que farinha do mesmo saco vazio não para em pé e em boca fechada não entra mosca nem vingança fria de sobremesa."
...Juntando a fome com a vontade de comer, o apressado de olho maior que a barriga mal lava uma mão na outra e já dá com a língua nos dentes, comendo cru e quente. E dá-lhe pimenta nos olhos dos outros, que pra acalmar os ânimos só uma tempestadezinha em copo d'água, que ninguém é de ferro e espeto de pau torto nunca se endireita.
...Caviar é uma ova, engolindo sapo por lebre nem se percebe o ingrediente secreto: chuchu beleza com chumbinho, assim assado. Fazer o quê? Caiu na rede é filho de peixe, peixinho é.
..."É melhor pegar logo a faca de dois gumes e depenar a galinha dos ovos de ouro, pra não ficar chorando sobre o leite derramado depois, que farinha do mesmo saco vazio não para em pé e em boca fechada não entra mosca nem vingança fria de sobremesa."
...Juntando a fome com a vontade de comer, o apressado de olho maior que a barriga mal lava uma mão na outra e já dá com a língua nos dentes, comendo cru e quente. E dá-lhe pimenta nos olhos dos outros, que pra acalmar os ânimos só uma tempestadezinha em copo d'água, que ninguém é de ferro e espeto de pau torto nunca se endireita.
...Caviar é uma ova, engolindo sapo por lebre nem se percebe o ingrediente secreto: chuchu beleza com chumbinho, assim assado. Fazer o quê? Caiu na rede é filho de peixe, peixinho é.
sábado, 28 de março de 2009
sexta-feira, 27 de março de 2009
4.
...— As cartas não mentem, minha amiga. A boa ou a má notícia primeiro? Veja bem, esta aqui de cabeça pra baixo revela perigo iminente, se eu fosse você tomaria muito cuidado ao atravessar a rua, vai saber. Já esta outra indica claramente uma boa surpresa para alguém próximo, sorte no jogo ou no amor.
...Ou será o contrário? Na dúvida consulto ainda as outras cartas na manga: i-chings, búzios e bolas de cristal; borra de café, palitinhos e as linhas da sola do pé. Pois bem, é isso mesmo, os astros me informam, os oráculos confirmam: desta vida ninguém sai vivo, quem não chora não mama, de ontem em diante o amanhã é hoje.
...Ela ouve atentamente, acena com a cabeça, aceita a previsão da dança do destino e a tarifa do serviço.
...— Aqui a conta mais os dez por cento, aceitamos todos os cartões. Que nada, obrigada você. Volte sempre.
...Essas dondocas realmente levam isso a sério, ainda bem. O gato também agradece: sem elas, nada de leite e ração. Para comemorar até deixa uma lembrancinha na caixa de areia, se espreguiça ronronando, quase vira pelo avesso e salta pra cima da televisão: seu lugar preferido.
...Enroscando os bigodes nas antenas com peruca de palha de aço, preto-e-branco tal qual a imagem mal-sintonizada na tela, vidente mesmo é ele. E é só eriçar os pêlos das costas e do rabo desse jeito que lá vem tragédia na certa.
...Ou será o contrário? Na dúvida consulto ainda as outras cartas na manga: i-chings, búzios e bolas de cristal; borra de café, palitinhos e as linhas da sola do pé. Pois bem, é isso mesmo, os astros me informam, os oráculos confirmam: desta vida ninguém sai vivo, quem não chora não mama, de ontem em diante o amanhã é hoje.
...Ela ouve atentamente, acena com a cabeça, aceita a previsão da dança do destino e a tarifa do serviço.
...— Aqui a conta mais os dez por cento, aceitamos todos os cartões. Que nada, obrigada você. Volte sempre.
...Essas dondocas realmente levam isso a sério, ainda bem. O gato também agradece: sem elas, nada de leite e ração. Para comemorar até deixa uma lembrancinha na caixa de areia, se espreguiça ronronando, quase vira pelo avesso e salta pra cima da televisão: seu lugar preferido.
...Enroscando os bigodes nas antenas com peruca de palha de aço, preto-e-branco tal qual a imagem mal-sintonizada na tela, vidente mesmo é ele. E é só eriçar os pêlos das costas e do rabo desse jeito que lá vem tragédia na certa.
quinta-feira, 26 de março de 2009
terça-feira, 24 de março de 2009
sábado, 21 de março de 2009
1.
...Mudei-me em pleno carnaval. Ao desembarcar de mala e cuia, já fantasiado de ser humano, no meio do bloco e no fim da fila, puxei um sambinha capenga no anúncio do jornal e paguei adiantado com uma piada de papagaio. De maneira que na quarta-feira de cinzas já estava devidamente instalado no alto do corcovado sem dever nada a ninguém.
(...)
(...)
sexta-feira, 20 de março de 2009
2.
...— Alguém aí conhece o itinerário?
...É o meu primeiro dia no serviço e na verdade pouco me importa o caminho, todos eles levam ao meu magro contra-cheque, à minha cama e ao dia seguinte. Na dúvida, sigo o ônibus da frente, vai que a linha é a mesma. Quanto ao pontos, não me perguntem. Pára-se em qualquer canto, os passageiros que se virem e olhem para os dois lados da rua, para cima que lá vem chuva e para baixo que o bueiro está aberto. O cobrador se faz de desentendido, conta os trocados como quem não quer nada. Para ele também dá na mesma, desde que a roleta continue girando: o que vier é lucro, quem sabe até a sorte grande qualquer dia lhe sorria, tropece nos cadarços desamarrados e caia indefesa no seu colo. Só que isso nunca acontece. Eles começam a descer antes da hora, gritam, xingam, vociferam, esbravejam, amaldiçoam. A mim só interessa o ronco do motor.
...Mas que diabos! Sinto muito, mas é pedir demais que em tão pouco tempo alguém conheça esta cidade de cabo a rabo ou como a palma da mão direita. Invento então minha própria rota quiromântica, pela linha da vida e da morte a cada esquina, quem não gostou que saia da frente. A buzina é alta, cômica também: toca a musiquinha da novela com voz de ganso rouco. As multas encaminhem lá pra casa, que não estou já há uns trinta anos, e mesmo quando estava nunca estive por inteiro.
...Não adianta, é inútil acreditar nos mapas. Incluam-se aí os atlas e enciclopédias. Das placas de rua nem se fala, convenções baratas e homenagens descabidas, resumem-se a isso. Perdido — aliás, perdido não! achado — em pensamentos, dobrei uma esquerda aonde não devia, furei meia dúzia de sinais fechados e agora me encontro na contramão da avenida, abrindo caminho com a minha buzininha de fuororó. Parece funcionar, melhor assim. Parar a esta altura dos acontecimentos já não é opção, na metade da rota para sabe deus lá onde. Os passageiros fugiram faz tempo. O cobrador, esse me abandonou três quarteirões atrás. Ele é que não sabe o que está perdendo: essa voltinha pelo avesso do trânsito, contra a maré, rumo ao oceano.
...É o meu primeiro dia no serviço e na verdade pouco me importa o caminho, todos eles levam ao meu magro contra-cheque, à minha cama e ao dia seguinte. Na dúvida, sigo o ônibus da frente, vai que a linha é a mesma. Quanto ao pontos, não me perguntem. Pára-se em qualquer canto, os passageiros que se virem e olhem para os dois lados da rua, para cima que lá vem chuva e para baixo que o bueiro está aberto. O cobrador se faz de desentendido, conta os trocados como quem não quer nada. Para ele também dá na mesma, desde que a roleta continue girando: o que vier é lucro, quem sabe até a sorte grande qualquer dia lhe sorria, tropece nos cadarços desamarrados e caia indefesa no seu colo. Só que isso nunca acontece. Eles começam a descer antes da hora, gritam, xingam, vociferam, esbravejam, amaldiçoam. A mim só interessa o ronco do motor.
...Mas que diabos! Sinto muito, mas é pedir demais que em tão pouco tempo alguém conheça esta cidade de cabo a rabo ou como a palma da mão direita. Invento então minha própria rota quiromântica, pela linha da vida e da morte a cada esquina, quem não gostou que saia da frente. A buzina é alta, cômica também: toca a musiquinha da novela com voz de ganso rouco. As multas encaminhem lá pra casa, que não estou já há uns trinta anos, e mesmo quando estava nunca estive por inteiro.
...Não adianta, é inútil acreditar nos mapas. Incluam-se aí os atlas e enciclopédias. Das placas de rua nem se fala, convenções baratas e homenagens descabidas, resumem-se a isso. Perdido — aliás, perdido não! achado — em pensamentos, dobrei uma esquerda aonde não devia, furei meia dúzia de sinais fechados e agora me encontro na contramão da avenida, abrindo caminho com a minha buzininha de fuororó. Parece funcionar, melhor assim. Parar a esta altura dos acontecimentos já não é opção, na metade da rota para sabe deus lá onde. Os passageiros fugiram faz tempo. O cobrador, esse me abandonou três quarteirões atrás. Ele é que não sabe o que está perdendo: essa voltinha pelo avesso do trânsito, contra a maré, rumo ao oceano.
quarta-feira, 18 de março de 2009
quinta-feira, 12 de março de 2009
lápis
Parceria com Tiago Elcerdo , que gentilmente me hospedou esses dias, para filipeta de festa em Volta Redonda.
Assinar:
Postagens (Atom)












